Análise indica que o apoio à democracia apresentou queda (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Manaus (AM) – O comentarista político Davidson Cavalcante considera que a recente queda no apoio à democracia por parte dos brasileiros está ligada à pobreza cultural e à pobreza econômica que atingem o meio social.
“No Brasil, nós temos uma vantagem de eleger diretamente os representantes; mas eu penso que a pobreza cultural, a pobreza econômica, a dependência de muitas pessoas que moram em regiões longínquas, com pouco acesso à instrução, mesmo com a internet, mas tem a dependência econômica dos coronéis políticos, acabam dependendo mais desses coronéis e alimentando a permanência deles no poder, o que é nocivo para o processo democrático”, disse.
Pesquisa Datafolha divulgada pelo jornal “Folha de S.Paulo” no último dia 18 revelou diminuição no índice de apoio à democracia no Brasil nos últimos dois anos.
Conforme o levantamento, 69% dos entrevistados escolhem a democracia como o melhor regime de governo, enquanto em 2022 esse percentual era de 79%, representando uma queda de 10 pontos no período.
Além da porcentagem de brasileiros que acreditam que a democracia é a melhor forma de governo, o estudo mostrou que 17% afirmaram que tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura, ao mesmo tempo, 8% disseram que, em determinadas circunstâncias, preferem um regime ditatorial.
A pesquisa ouviu 2.002 eleitores em 113 municípios nos dias 12 e 13 de dezembro, com uma margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Embora, em apenas dois anos, o número de pessoas que defendem a democracia tenha diminuído consideravelmente, outros fatores chamam atenção nos resultados. Houve aumento no percentual de quem considera indiferente o regime governamental, de 11% para 17%, e também dos que preferem uma ditadura em certas situações, de 5% para 8%.
- Democracia é a melhor forma de governo: 69% (eram 79% em outubro de 2022);
- Tanto faz se é democracia ou ditadura: 17% (eram 11% em 2022);
- Melhor uma ditadura em certas situações: 8% (eram 5% em 2022);
- Não sabem: 6% (eram 5% em 2022).
Para Cavalcante, a diminuição do apoio ao regime democrático está ligada a uma série de fatores sociais, apesar de no Brasil ele observar certa vantagem com a alternância de poder.
“No Brasil, nós temos uma vantagem de eleger diretamente os representantes”, destacou Cavalcante.
Extremismo
Segundo o especialista, a democracia se apresenta como um regime “muito mais vulnerável”, apesar de flexível. Ele acrescenta que escândalos de corrupção e o extremismo ideológico contribuem para a desvalorização do regime democrático no país.
“Geralmente, a liberdade requer uma vigilância maior, mas em compensação é um regime flexível. É um regime de escolhas mais abertas, mas eu vejo que a queda também nesse processo das pessoas que ainda acreditam num regime democrático e que estão optando por regimes mais fechados, como uma ditadura, por exemplo, ou um regime que seja muito mais centralizador de poder. São os escândalos de corrupção, é a inflação, mas é acima de tudo os extremismos ideológicos”, comentou em entrevista ao Portal AM1.
O levantamento de 2022 foi o maior índice registrado desde 1989, ano da primeira eleição direta para presidente após o fim do regime militar. De acordo com dados do Datafolha, a pesquisa mostra que a polarização política não influenciou diretamente a opinião pública sobre a democracia.
Apesar das tensões políticas durante o ano eleitoral, com a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), tanto os apoiadores de Lula quanto os de Bolsonaro demonstraram uma visão semelhante em relação ao modelo democrático.
Dessa maneira, a pesquisa indica que a maioria dos brasileiros, independentemente da filiação partidária, continua a apoiar a democracia como o melhor sistema de governo.
Conforme o estudo, o cenário revela uma tendência de fortalecimento da ideia democrática, ao se tratar de um contexto de divisão política, o que pode ser considerado um dado positivo para a estabilidade institucional do país.
Davidson Cavalcante observa ainda que a polarização afeta grande parte da população, independente de posição social.
“Essa polarização extrema acaba resultando, muitas vezes, nesse fechamento também do entendimento da maioria e não estamos falando apenas de uma massa da sociedade que não tem formação superior, mas de pessoas com diploma, pessoas com bacharelado, com uma cultura intelectual assídua, também estão migrando para esses regimes mais fechados.”
Para o comentarista político, as interferências do Supremo Tribunal Federal (STF) em algumas decisões que envolvem o processo político do Congresso Nacional e até mesmo do Executivo, “também acabam colaborando” para o desgaste da democracia.
“Então, é o que é chamado de ditadura de toga. Eu vejo que falta uma educação política maior, para as pessoas entenderem que, mesmo a democracia sendo como é, no Brasil, ainda que com muitas falhas, é importante estabelecer sempre a alternância de poder. Isso é um ponto importante”, ressalta.
Ranking Democracia
Em 2022, o Brasil ocupou a 51ª posição no ranking global de democracia, segundo o Índice de Democracia, o que representa uma queda de quatro posições em relação a 2021. Apesar da queda, o país segue sendo classificado como uma “democracia imperfeita” no relatório, uma das quatro categorias utilizadas para classificar os regimes políticos, que incluem ainda “democracia plena”, “regime híbrido” e “regime autoritário”.
À época, a pesquisa destacou que o Brasil, uma República federativa presidencialista, mantém um sistema democrático baseado na divisão dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
O país recebeu elogios especialmente pelo seu processo eleitoral, que é considerado robusto, com o uso das urnas eletrônicas, reconhecidas por sua segurança e eficiência.
Contudo, outros aspectos do funcionamento do governo, como a gestão e o desempenho das instituições, receberam notas mais baixas, o que contribuiu para a queda na classificação geral.
Conforme o relatório, embora o Brasil apresente uma democracia consolidada, o país ainda enfrenta desafios em termos de governança e efetividade das instituições.
Cavalcante salienta que a educação política é fundamental para o entendimento da democracia e sua importância na sociedade.
“A gente precisa educar melhor as nossas gerações e entender que o processo de centralidade de poder nunca é bom. Agora, é claro, a democracia é um elemento que precisa ser sempre oxigenado. Mesmo as democracias modernas, é possível que a gente possa ter, por exemplo, grupos ditatoriais se estabelecendo em democracias. Como dizia Aristóteles, a democracia não é o melhor dos regimes, mas é o melhor daqueles que são considerados os menos piores; ou seja, entre as piores formas de governo, a democracia ainda é a menos nociva, principalmente a nossa liberdade”, concluiu o crítico.
Risco de golpe
Mesmo que o apoio ao regime ditatorial tenha registrado crescimento, a maioria dos entrevistados não acredita em um retorno iminente da ditadura. Segundo a pesquisa, 52% dos brasileiros consideram que o risco de uma ditadura voltar ao país está “fora de cogitação”. Outros 21% acreditam haver uma pequena chance de isso ocorrer, enquanto 21% veem uma grande possibilidade.
A observação do Datafolha também analisou a percepção de risco de golpe no período entre a derrota de Jair Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2022 e a posse do novo presidente, em janeiro de 2023.
Segundo os dados, 68% dos entrevistados acreditam que houve risco de golpe, sendo que 43% consideram que o risco foi grande, 17% classificaram o perigo como médio e 8% como pequeno. Por outro lado, 25% dos questionados afirmaram que não acreditaram na possibilidade de um golpe.
Classe política
Já o cientista político Guilherme Soares acredita que os dados representam um “exemplo do crescente desânimo que o brasileiro vem apresentando, não com a democracia, mas com a classe política, em geral”.
“O que pode ser visto principalmente no aumento do campo “tanto faz”. Mas é importante reparar que a imensa maioria ainda tem uma visão democrática para o país, o que vale”, afirmou Soares, em entrevista ao Portal AM1.
O pesquisador também atribui a queda na aprovação da democracia ao extremismo, o que “cria uma aversão ao entendimento do que é política e até mesmo no sentimento de democracia”. Além disso, o analista político reforça a necessidade de educação política para combater a falta de conhecimento dos brasileiros sobre o tema.
“Definitivamente existe uma necessidade de melhoria na educação política para a nossa população. Tanto precisando de melhor acesso quanto de um crescimento no conhecimento básico, o que passa até mesmo pelas escolas”, explica Soares.
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