Manaus, 27 de julho de 2026
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Manaus, 27 de julho de 2026

Cidades

Comunidades criam Rede das Águas de Coari em defesa dos rios

Assembleia realizada de 23 a 25 de maio marca criação oficial da Rede Comunitária, com assinatura de Termo de Compromisso por 15 comunidades e construção coletiva de um futuro acordo de Pesca.

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(Foto: Divulgação/Edson Kambeba)

Coari (AM) – Está oficialmente formada a Rede Comunitária das Águas de Coari, aliança inédita entre comunidades indígenas e ribeirinhas da região do Lago Coari e rios adjacentes para proteção do território e da vida aquática. O anúncio foi feito durante a 1ª Assembleia Geral da Rede, realizada entre os dias 23 e 25 de maio na Comunidade São Sebastião de Flores, reunindo lideranças de 12 comunidades do município de Coari.

A iniciativa é fruto de um processo de mobilização a partir da crescente preocupação com a destruição do lago e seu entorno. Por anos, o Lago Coari vem sofrendo com pesca intensiva e predatória — muitas vezes conduzida por grandes embarcações vindas de outras regiões — além da caça ilegal de peixes-boi, quelônios, aves e outros animais, resultando em uma transformação drástica de suas águas nas últimas décadas. Peixes grandes deixaram de ser avistados; tracajás, botos e peixes-boi se tornaram presenças raras. Para as comunidades, uma realidade é clara: o lago está morrendo, e com ele, ameaça-se o futuro da vida local.

“Vimos o rio enfraquecendo ao longo dos anos. A vida está indo embora, morrendo. Precisamos deste lago para nosso sustento, nosso transporte, nossa casa. Sem um lago saudável, também ficamos doentes”, diz Francisco Bernardo, liderança da Aldeia Itaboca II, povo Arara.

Essa aliança teve início com a presença da organização de proteção da vida aquática Sea Shepherd Brasil na região desde 2023. A organização ambiental vem atuando em expedições científicas e ações de proteção aos botos-vermelhos, tucuxis e peixes-boi — espécies fortemente impactadas pelas últimas secas extremas e pela ação humana predatória. Ao se conectar com as comunidades locais, surgiu a necessidade de ampliar o diálogo e apoiar a organização comunitária em rede.

Durante o mês de março de 2025, a convite da Aldeia Itaboca II, uma equipe da Sea Shepherd percorreu 12 comunidades ribeirinhas e indígenas, colhendo relatos sobre a degradação ambiental dos lagos e igarapés. Esse processo culminou no chamado para a realização da Assembleia Geral em maio.

Na Assembleia, outras três comunidades somaram-se à aliança, totalizando 13 das 42 comunidades da região já engajadas formalmente com a Rede das Águas de Coari. Realizada de forma independente pelas próprias comunidades, com apoio do Instituto Federal do Amazonas (IFAM), da União dos Povos Indígenas de Coari (UICAM) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Assembleia teve uma programação intercultural intensa: rodas de conversa, oficinas sobre pesca sustentável, mapeamento participativo do lago e construção colaborativa das bases para um futuro Acordo de Pesca.

O mini documentário O Rio Que Nos Une (13 min, direção e edição de Lucas Amorelli / Sea Shepherd Brasil, 2025), apresentado durante a Assembleia, emocionou os participantes ao registrar as visitas realizadas em março e os depoimentos das lideranças locais.

“A formação desta rede é um marco histórico para o Lago Coari. São comunidades que decidiram se unir, com coragem e sabedoria, para proteger um território que está em risco real de colapso ecológico. A presença da Sea Shepherd Brasil aqui foi apenas um catalisador; o protagonismo é e sempre será das próprias comunidades, unidas pela resistência e busca por mudança”, afirma Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil.

Ao final do encontro, foram definidos os próximos passos da Rede: a realização de mais duas assembleias nas regiões da boca dos rios Aruã e Urucu, com o objetivo de integrar novas comunidades e fortalecer o pacto coletivo pela preservação; além da escolha de um grupo de representantes encarregado de planejar e organizar os próximos encontros.

A Rede das Águas de Coari nasce com objetivos claros: construir um Acordo de Pesca baseado nos conhecimentos tradicionais e nas necessidades ecológicas locais; implementar um sistema comunitário de monitoramento e apoio à fiscalização; e estabelecer canais diretos, seguros e firmes de diálogo com órgãos públicos e instituições parceiras.

Comunidades signatárias do Termo de Compromisso até o momento:

• Comunidade São Sebastião de Flores
• Divino Espírito Santo do Izidorio
• Aldeia Vila Moriz do Taxí
• Aldeia Vista Alegre do Samambaia
• Aldeia Nossa Senhora da Conceição do Boan
• Aldeia Itaboca II
• Aldeia Nossa Senhora de Nazaré do Itaboca
• Aldeia Buiuçuzinho
• Aldeia Tibiã
• Aldeia Vila Monteiro
• Aldeia Coiriarã
• Aldeia Novo Porto do Tipiema
•Aldeia São Sebastião do Patuá (Patuazinho)

Além dessas, também fazem parte da Rede, ainda que não tenham comparecido à Assembleia:

• São Tomé do Patoá
• São José do Inajá
• Divino Espírito Santo do Boari
• São José da Boa Vista
• Divino Espírito Santo do Samaúma
• São Pedro da Terra
• São João do Ariri

(*) Com informações da Assessoria.

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