(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Manaus (AM) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou, durante evento em Minas Novas–MG, nesta quinta-feira (24), sobre defesa da soberania nacional e declarou que “aqui ninguém põe a mão”, em referência às riquezas naturais do Brasil. O discurso foi um recado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio às tensões comerciais entre os dois países.
O Portal AM1 ouviu dois especialistas para analisar o contexto e os possíveis desdobramentos da fala: o cientista político Breno Leite e o analista político Helso Ribeiro. Ambos apontam que o tom adotado por Lula visa fortalecer sua liderança interna, mas também pode provocar ruídos na diplomacia com os EUA.
Para Breno Leite, o presidente adota uma estratégia de confronto, enquanto outros representantes do governo, como o vice-presidente Geraldo Alckmin, exercem um papel mais conciliador.
“Ele poderia adotar uma estratégia de negociação, mas não faz isso diretamente. Quem assume esse papel é o Alckmin, numa postura mais diplomática. Lula segue com um discurso mais crítico e severo”, afirma.

(Foto: Arquivo pessoal)
Segundo ele, há uma divisão de tarefas no governo federal.
“Alckmin teria uma função mais conciliadora, de negociação, e Lula faz um discurso beligerante, especialmente em relação às políticas do tarifaço adotadas por Donald Trump”.
Breno analisa que esse tom mais duro reforça a imagem de Lula como líder nacional.
“Quando ele faz uma declaração mais crítica, ele se posiciona como um defensor da soberania, da pátria, e isso o qualifica como uma liderança de unidade nacional”, destaca.
“Todos que estão interessados na defesa do Brasil estariam alinhados com Lula. Esse tipo de retórica nacionalista é uma forma de se posicionar como um líder de uma nação que está sendo agredida economicamente por uma superpotência como os EUA”, completa.
O cientista político afirma ainda que Lula tenta incorporar uma narrativa que antes era mais comum à direita.
“Ele tenta roubar a retórica que estava com a direita, de que os valores nacionais, a pátria e o nacionalismo eram deles para si, principalmente num momento em que figuras da direita têm pressionado o STF, com apoio de setores internacionais”.
“É um jogo político, narrativo, semiótico e comunicativo. Lula fala diretamente para o seu público interno. Enquanto isso, Alckmin segue com a função de negociador junto às autoridades americanas”, avalia.
Para Breno, o resultado prático desse posicionamento ainda é incerto.
“Vai depender muito do desdobramento dessas negociações. Ainda não sabemos se no dia 1º de agosto o tarifaço vai de fato começar a impactar a economia brasileira. Isso tem que ser avaliado”.
Já o analista político Helso Ribeiro também vê dois discursos distintos dentro do governo.
“De um lado, Alckmin tenta colocar panos quentes e encontrar um canal de negociação. Ele tem conversado com o secretário de Estado dos EUA, numa tentativa de buscar consenso. A gente tem menos de uma semana para que isso aconteça”.

(Foto: Celso Maia/Portal AM1)
Do outro lado, segundo ele, Lula adota um tom mais incisivo.
“O presidente fez um discurso meio de campanha, em cima do palanque. Não vejo esse tipo de fala como algo produtivo para sentar à mesa e negociar. Ainda que Lula tenha dito que está tentando conversar com Trump e que o americano parece não querer diálogo, essa retórica não ajuda”.
Ribeiro considera legítima a defesa da soberania, mas critica a forma como ela foi apresentada.
“É evidente que qualquer país democrático vai defender sua soberania. Isso é um dos pilares do Estado. Mas às vezes esse discurso vem recheado, adornado, com um tom provocativo que pode mais atrapalhar do que ajudar”.
Ele lembra que discursos semelhantes já foram usados por outros líderes brasileiros, como o ex-presidente Geisel.
“Na época da criação da usina nuclear de Angra dos Reis, Geisel também enfrentou os EUA dizendo que a soberania do Brasil estava acima de tudo. Isso é clássico em qualquer aula de ciência política ou direito internacional”.
No entanto, Helso pondera que o momento exige diálogo.
“Estamos em um contexto em que é necessário conversar. Apontar o dedo, mesmo em nome da soberania, pode não ser a melhor estratégia. Todo país soberano defende sua soberania é o básico. Então, para o público externo, esse discurso não convence ninguém. O Macron, o Putin, ninguém vai se sensibilizar com essa retórica. Esse discurso não serve para eles. Serve para Trump, como provocação, e serve para o público interno, como demonstração de firmeza”, avalia.
Para ele, a fala funciona mais como sinal político do que gesto diplomático.
“Soa como: ‘tá vendo como eu sou duro, como eu amo minha pátria?’ É mais isso do que um discurso de conciliação. É mais voltado para a base de apoio do presidente”, finalizou Helso Ribeiro.
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