Manaus, 7 de julho de 2026
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Manaus, 7 de julho de 2026

Economia

Impacto de tarifa dos EUA no AM deve ser limitado, dizem economistas

Comércio exterior do AM com EUA é pequeno e não compromete o desempenho do Polo, afirmam os especialistas.

(Foto: Divulgação/ Suframa)

Manaus (AM) –O estado do Amazonas pode sofrer uma redução no Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,1 milhão a partir de 1º de agosto, de acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Porém, conforme afirmou o titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Serafim Corrêa, ao Portal AM1, o Amazonas não será afetado. Segundo ele, o impacto é bastante limitado.

“O aumento de tarifas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deve causar efeitos significativos sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM). Analisando os principais números inerentes ao nosso modelo de desenvolvimento, pode-se observar que o impacto potencial é bastante limitado”, afirmou.

Ele também destacou que a Zona Franca de Manaus tem apenas 0,15% do faturamento sujeito a essas tarifas:

“Atualmente, a ZFM exporta somente 1,5% de seu faturamento, sendo que deste percentual, menos de 10% têm como destino os Estados Unidos. Isso significa que apenas 0,15% do faturamento da ZFM estaria sujeito às novas tarifas”, ressaltou.

Serafim Corrêa concluiu que o impacto é marginal, uma vez que a maioria da produção do Polo Industrial de Manaus (PIM) é voltada para o mercado interno brasileiro, limitando os efeitos externos.

“Trata-se, portanto, de um efeito marginal. A maior parte da produção do PIM destina-se ao mercado interno brasileiro, o que reduz significativamente o impacto da medida anunciada. Além disso, a balança comercial entre a ZFM e os EUA é amplamente favorável aos americanos: importamos deles quase 20 vezes mais do que exportamos. Ou seja, os EUA mantêm um superávit expressivo no comércio bilateral com a ZFM, o que significa que uma ‘guerra comercial’ tende a ser mais desfavorável a eles e relativiza ainda mais qualquer efeito negativo à economia amazonense”, concluiu o secretário.

O Portal AM1 também ouviu o economista Roderick Castello Branco, que ressaltou a baixa participação das exportações aos EUA no contexto geral:

“De qualquer forma, a pauta de exportação para os Estados Unidos é muito pequena. Nós exportamos basicamente motocicletas e alguns óleos, então isso não tem um impacto tão profundo no Polo Industrial. Hoje o Polo Industrial abastece 98% das vendas, elas são para atender o mercado doméstico. Diante disso, não estamos tão afetados. Agora, existe sim uma possibilidade de atender o mercado, que não existia essa possibilidade. Um ponto que tem que ser considerado é que antes tínhamos uma tarifa abaixo da média cobrada de outros países. Agora a gente está entre as maiores. Antes nós tínhamos uma vantagem, que era, de repente, começar a produzir internamente aqui no Polo Industrial ou em Manaus para abastecer os Estados Unidos, substituindo outros fornecedores que estavam mais sobretaxados. Com a tarifa de 50%, isso acaba. Essa possibilidade que seria de substituição de outros fornecedores já não existe mais”, destacou.

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(Foto: Arquivo pessoal)

Sobre os produtos afetados diretamente no Amazonas, ele complementa:

“Existe uma correlação direta entre o grau de abertura comercial de um país e sua vulnerabilidade às tarifas impostas pelo governo americano. Ou seja, quanto mais globalizada a economia, maior o impacto das tarifas sobre o país exportador. Considerando que o Brasil é um país relativamente fechado, será menos impactado, em termos proporcionais, do que países que adotaram mais intensamente políticas mais liberais. Dito isso, para entender os impactos das medidas protecionistas do governo Trump sobre o Amazonas, é fundamental compreender a estrutura de sua pauta exportadora e, mais especificamente, a relação comercial entre o Amazonas e os Estados Unidos, que sobretaxou o Brasil em 50% sobre todas as exportações para aquele país”, comentou.

Ele citou como exemplo os dados do ano passado:

“Em 2024, o Amazonas exportou pouco mais que 1 bilhão. Deste total, somente 10% tinham como destino os Estados Unidos (104 milhões, para ser mais exato). Os principais produtos exportados no ano passado foram motocicletas (26%, mas já foram responsáveis por 48% da pauta de exportação) e óleos de petróleo ou de minerais betuminosos (24%)”, comentou.

Segundo ele, com a tarifa de 50%, os produtos brasileiros que não se enquadram nas exceções definidas pelo governo dos Estados Unidos tornam-se praticamente inviáveis naquele mercado, já que perdem competitividade em relação aos similares oriundos de países menos tributados.

No que diz respeito ao PIM ele ressalta: “Ano passado, o impacto direto tende a ser limitado. O Polo faturou R$ 204,4 bilhões, dos quais somente 1,6% (R$ 3,3 bilhões) decorreu de exportações, uma participação que vem se mantendo estável nos últimos anos. Três segmentos concentram 84% de todas as vendas ao exterior: o Químico (32%), seguido do Metalúrgico (28%) e o setor de Duas Rodas (23%)”, afirmou.

Sobre o setor mais vulnerável ao “tarifaço”, o economista afirmou:

“Dentre esses, o segmento de Duas Rodas é o que possui maior integração com o mercado norte-americano e, portanto, tende a ser o mais afetado pela nova política tarifária. Ainda assim, é importante relativizar esse impacto: das 1.839.295 motocicletas produzidas no PIM em 2024, apenas 44 mil unidades foram destinadas à exportação, o que representa pouco mais de 2% da produção total do setor. Em resumo, ainda que os efeitos das tarifas possam ser significativos para nichos específicos, sobretudo os com maior inserção internacional, entendo que o impacto global sobre a economia do Amazonas tende a ser moderado, considerando sua estrutura produtiva voltada majoritariamente ao mercado interno”, finalizou.

Questionado se o “tarifaço” contribuiu para alguma retração industrial ou mudança no planejamento das empresas instaladas na ZFM, ele ressaltou:

“Ainda é cedo para medir o efeito das tarifas na indústria local, mas, indiscutivelmente, o ambiente de incerteza é prejudicial para qualquer negócio, dificultando processos decisórios e elevando riscos”, finaliza.

O Portal AM1 também ouviu o economista Lauro Brasil, que explicou quais alternativas a indústria local pode adotar para mitigar os efeitos da perda de competitividade:

“A literatura especializada destaca três eixos para indústrias sujeitas a choques tarifários: diversificação de produtos e mercados, inovação tecnológica e integração em clusters regionais. Análises recentes do governo do Amazonas mostram que apenas 0,15% do faturamento da Zona Franca de Manaus (ZFM) está exposto às novas tarifas americanas, o que reforça a necessidade de explorar setores de maior valor agregado”, afirmou.

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(Foto: Arquivo pessoal)

Questionado se há risco concreto de desemprego em massa ou retração de investimentos no Polo Industrial, ele respondeu:

“Evidências acadêmicas associam choques comerciais a ajustes no emprego, mas o grau de impacto depende dos incentivos vigentes e da elasticidade-emprego do setor. Os autores, Dorn & Hanson estimam que cada ponto percentual de queda nas exportações externas reduz 1% dos empregos industriais. No Polo Industrial de Manaus (PIM), uma retração de 50% nos embarques aos EUA projetaria cerca de 0,5% de redução no emprego regional, ou aproximadamente 4.000 vagas diretas. Dados recentes mostram que a taxa de desemprego no Amazonas atingiu 10,1% em maio de 2025, a terceira maior do país, evidenciando a fragilidade da recuperação do mercado de trabalho diante de choques adicionais de demanda externa”, ressaltou.

Para o economista, o Amazonas tem capacidade de redirecionar suas exportações para outros mercados além dos EUA:

“A bibliografia destaca o potencial de diversificação do Amazonas, mas reconhece prazos médios de 12 a 24 meses para homologações e certificados sanitários. 65% da pauta exportadora amazonense concentra-se em cinco grupos de produtos (eletroeletrônicos, borracha, celulose, alimentos e maquinário), com vantagem comparativa em mercados da União Europeia e América Latina. Em 2024, 96,1% dos bens de transformação exportados pelo PIM destinaram-se aos EUA, principalmente equipamentos de transporte (US$ 28 milhões), derivados de petróleo (US$ 25 milhões) e máquinas (US$ 24,4 milhões). Contudo, esse fluxo representou apenas US$ 99 milhões no total, colocando o Amazonas na 18ª posição no ranking nacional de exportações para os EUA e deixando espaço para redirecionamento a outros mercados com maior potencial de crescimento e menores barreiras tarifárias”, finalizou Lauro Brasil.

Outro economista ouvido pelo Portal AM1, Orígenes Martins, destacou que o tarifaço relacionado ao Amazonas é bastante complexo:

“A questão do tarifaço em relação ao Amazonas e principalmente ao polo industrial de Manaus é bastante complexa, quer dizer, mais complexa ainda do que o tarifaço em si para o Brasil, pois nós somos uma região que temos na nossa produção, no caso do polo industrial de Manaus, o subsídio para poder produzir, então nós dependemos basicamente de importações e exportações. Logicamente, quando os Estados Unidos simplesmente impõe esse tarifaço, ele estava esperando uma exportação, que até agora não teve, e também ele está aumentando o raio de ação, fazendo com que seja praticamente inviável. A negociação com outros países, principalmente com a Rússia. E nós temos na Rússia, na China, na União Europeia, um dos polos de maior movimentação de importação e exportação. Então, nós temos uma grande possibilidade de sermos mais prejudicados com essa tarifa, essa atitude do Trump, e principalmente da inércia do governo brasileiro, sermos mais afetados do que o restante do polo produtivo brasileiro”, disse Orígenes Martins.

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