(Foto: pxhidalgo/Depositphotos)
Manaus (AM) – A presença indígena em espaços de decisão ainda é limitada e marcada por desafios, embora já existam conquistas importantes. Foi o que destacou, em entrevista ao Programa AM1 Entrevista do Portal AM1, o ativista climático e socioambiental indígena Edson Kambeba, representante do povo Ômagua (Kambeba), de Coari (AM).
Ele ressaltou que, apesar dos avanços com a criação de órgãos como o Ministério dos Povos Indígenas e da presidência da Funai sob liderança indígena, muitas decisões que afetam diretamente os territórios e modos de vida tradicionais continuam sendo tomadas sem consulta às comunidades.
“É muito importante essa nossa participação, a nossa representatividade nesses espaços. Porque, através desses espaços, a gente consegue levar nossa mensagem, a nossa voz e dar voz também. A nossa voz já faz presente, não é dar voz, é que a gente quer estar presente. Mas, muitas vezes, ainda são muito poucas participações nossas em tomadas de decisões. Então, é importante para nós, porque a gente consegue levar as nossas dores, levar os nossos desafios também, o que acontece dentro do território. As tomadas de decisões ainda são muito restritas para nós, povos indígenas”, destacou.

(Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)
Questionado se os povos indígenas têm sido realmente representados em decisões importantes ou se estão afastados, ele respondeu:
“Um pouco afastados. Eu digo isso porque a gente acompanha, a gente tem lutado para estar nesses espaços e, muitas vezes, essas decisões são tomadas sem nos consultar, sem consultar os territórios, sem consultar as comunidades, aldeias indígenas, ribeirinhas. Eu coloco aqui os ribeirinhos também, que fazem parte dessa luta. Então, a gente não tem muito o que comemorar nesses espaços. Ainda há um espaço mínimo de participação”, afirmou.
COP30 e a representatividade indígena
Sobre a COP30, que será realizada em novembro, em Belém, o líder indígena destacou a expectativa de participação de representantes dos povos indígenas de várias regiões do Brasil. Porém, demonstrou preocupação com a efetiva influência dessas vozes.
“Há uma perspectiva de participação, de representatividade dos povos indígenas de diversos lugares do Brasil, e principalmente aqui, nós estamos falando do Amazonas. Então, há um espaço de representação, mas ainda na decisão é o que a gente fica com muita dúvida, e que muito me preocupa quanto indígena, é a questão dentro das decisões. Porque nós não vamos ter muitas vozes lá. Quem vai estar lá decidindo são outros países, são outras pessoas que têm o poder de estarem lá. Então, a gente talvez tenha um representante de uma organização que vá falar por nós, mas a gente mesmo não tem muita participação nessas decisões”, avaliou.
Edson Kambeba também citou exemplos de representatividade indígena que já fizeram diferença concreta em decisões importantes no Amazonas e no Brasil. Ele mencionou a atuação de entidades como a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), a APIAM (Articulação dos Povos Indígenas e Organizações do Amazonas) e organizações regionais, como a UNIP (União dos Povos Indígenas do Médio Solimões) e a União dos Povos Indígenas de Coari e Amazônia, da qual faz parte no Departamento de Comunicação.
Segundo ele, essas entidades têm buscado diálogo com órgãos como o recém-criado Ministério dos Povos Indígenas e a Funai, hoje presidida pela advogada indígena Joênia Wapichana.
“Ela está exercendo esse cargo como presidente e nos representando ao mesmo tempo junto aos órgãos federais”, disse.
Diversidade e desafios culturais
A diversidade de línguas e culturas indígenas também é um desafio para a representatividade.
“Muitos povos perderam suas línguas por causa da colonização. Hoje buscamos resgatar esse conhecimento, principalmente de forma escrita, para que as futuras gerações tenham acesso à nossa história”, explicou, citando escritores como Daniel Munduruku e Márcia Kambeba.
Educação e formação política
O líder ressaltou a importância da educação superior para ampliar o protagonismo indígena.
“A faculdade abre portas e nos dá pensamento crítico e construtivo. Precisamos estar preparados para assumir cargos de representatividade, seja na saúde, na educação ou na política”, disse.
Ele lembrou ainda que, apesar dos avanços, a presença indígena na política institucional é insuficiente.
“Hoje só temos uma deputada federal indígena, a Célia Xakriabá, e nenhuma representatividade na Assembleia Legislativa do Amazonas. Precisamos ocupar mais esses espaços para que nossas pautas sejam realmente ouvidas”, ressaltou.
Para o líder indígena, a participação na política é essencial para evitar que outros assumam os lugares dos povos originários nas decisões.
“Então, é um pouco disso e também que nós possamos estar envolvidos na política. Porque, se a gente não se envolver, os outros vão lá e assumem o nosso lugar, o que está acontecendo até o momento”, disse.
Ele reforçou que, atualmente, não há representantes indígenas no legislativo estadual e que a representatividade no Congresso Nacional ainda é mínima.
“Nós não temos nenhum representante no legislativo do Estado indígena. E lá na Câmara Federal só temos uma deputada, que é a Célia Chapiraguá, que é a única deputada federal de Minas Gerais. Então, a gente precisa de mais deputados federais para nos representar, indígena e do Estado, e também nos municípios, nas câmaras de vereadores”, afirmou.
Segundo ele, a ausência de parlamentares indígenas compromete a defesa de direitos, já que representantes não indígenas tendem a priorizar seus próprios interesses.
“Porque, se não tiver ninguém lá, nesses cargos, é muito difícil a gente caminhar. Quem está lá que não é indígena, não tem conhecimento, que é o branco, que nós chamamos, o caril, ele não vai olhar por nossos direitos. Ele vai olhar pelo interesse dele. Ele só vai fazer as coisas do jeito dele, não do nosso jeito. Ele não vai querer nos ouvir”, disse.
Por fim, o ativista ressaltou que os povos indígenas já estão se preparando para ampliar sua presença política.
“Então, eu acho que é isso. E eu digo para você que a gente está se preparando e estamos, sim, preparados para exercer qualquer cargo em relação a isso”, ressaltou.
Símbolo de resistência
Durante a entrevista, Edson Kambeba apresentou o maracá, instrumento tradicional usado em manifestações e lutas indígenas.
“Esse símbolo que temos aqui é o maracá. Para nós, povos indígenas, ele representa a força que possuímos. Sempre que participamos de uma luta, de um movimento indígena, de uma briga por direitos ou de conferências, usamos o maracá. O maracá não representa apenas poder, mas a força que temos nos nossos territórios. Quando o levantamos, estamos dizendo: existimos e resistimos. Ele é um símbolo de resistência. Hoje, estarmos aqui, falando e sendo ouvidos, foi fruto de muita luta. No passado, nossos avós e outros antepassados deram a vida para que pudéssemos chegar até aqui. Nós resistimos, eles resistiram, e seguimos resistindo. Nossa luta não é apenas de um povo, é uma luta por todos. Hoje, aqui, eu não represento apenas o meu povo. Eu represento todos os povos indígenas da Amazônia, e luto em nome de todos eles”, destacou.
Projetos socioambientais em Coari
No município de Coari (AM), onde vivem cerca de 10 mil indígenas de 15 povos diferentes, iniciativas coletivas vêm sendo organizadas para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
O entrevistado contou que a Rede das Águas, formada por mais de 36 comunidades, trabalha em acordos de pesca e em um plano de adaptação e mitigação climática.
O projeto já atraiu atenção internacional e recebeu apoio da organização Sechep Brasil e do Fundo Casa Socioambiental.
“Nosso trabalho já foi divulgado até na ONU. Isso mostra a importância de fortalecer a união das comunidades e buscar soluções coletivas”, disse.
O líder Omágua reforçou que a luta indígena vai além das comunidades locais.
“Hoje, quando eu falo, não represento só o meu povo. Represento todos os povos da Amazônia. Nossa luta é coletiva e precisamos estar cada vez mais unidos para conquistar políticas públicas de saúde, educação e demarcação de terras”, concluiu.
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