(Foto: eyematrix/DepositPhotos)
Manaus (AM) – Ao passo que ao redor do mundo crescem as discussões acerca das mudanças climáticas, alternativas aos modelos de consumo e produção utilizados majoritariamente pela população mundial começam a ganhar espaço no cenário. Quando o assunto é a produção de energia elétrica, as fontes renováveis se tornam o cerne da discussão. Isso é perceptível no cenário nacional; porém, ao afunilar a questão, surge a pergunta: como esse cenário é observado e vivenciado no Amazonas?
No Amazonas, os dados apontam uma busca crescente por alternativas limpas. Conforme informações da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o mercado de energia solar no estado cresceu 528% entre 2021 e 2024, considerando a instalação de sistemas fotovoltaicos em residências, comércios e propriedades rurais.
Enquanto o mundo ainda depende de combustíveis fósseis para 72% de sua energia elétrica, o Brasil já alcançou uma marca expressiva: 87% de sua matriz é formada por fontes renováveis, segundo dados apresentados durante a Smart Energy 2025.
Ao Portal AM1, o ambientalista e membro do Youth Project Team do Global Landscape Fórum, presidido pelo Centro de Pesquisa Florestal Internacional e pelo Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal, Janderson Sarmento, afirma que, apesar do país ser reconhecido por ter um sistema elétrico predominantemente hidrelétrico e supostamente de baixo carbono, essa percepção não reflete a desigualdade e os impactos socioambientais, especialmente na Amazônia.
O ambientalista acrescenta que, embora a operação das hidrelétricas não envolva emissão direta de carbono, a construção dessas usinas, especialmente nas regiões amazônicas, gera impactos socioambientais e contribui para emissões indiretas decorrentes do desmatamento.
“O planejamento inadequado e a imprevisibilidade climática também levam ao aumento da pegada de carbono e à redução da segurança do sistema. Nesse contexto, a transição para energias renováveis na Amazônia é crucial não apenas para mitigar a poluição e as emissões, mas também para superar a dependência do diesel e promover a autonomia energética das comunidades, contribuindo para um desenvolvimento que respeite o meio ambiente e as populações locais”, explicou o ambientalista.
Barreiras logísticas e financeiras
A logística no Amazonas é considerada um grande entrave à execução de diversos projetos que poderiam promover desenvolvimento em regiões afastadas e com pouco acesso a serviços básicos. Pelo menos, essa é a leitura do ambientalista Janderson Sarmento, que afirmou ao Portal AM1 que a vasta extensão territorial e a complexidade logística das áreas remotas resultam em custos elevados para o transporte de equipamentos.
No entanto, não foi a única justificativa apresentada por Sarmento. Ele afirmou ainda que a carência de financiamento atrativo para a aquisição de tecnologias, cujo custo inicial é considerável, e a ausência de uma indústria nacional robusta para suprir essa demanda constituem problemas adicionais.
“O sistema regulatório complexo e a multiplicidade de atores envolvidos também contribuem para a dificuldade. Adicionalmente, a escassez de modelos replicáveis que se adequem às diversas realidades regionais e a falta de capacitação técnica para a gestão e manutenção dos sistemas de geração são obstáculos significativos. Este conjunto de fatores torna o processo de expansão mais desafiador”, completou Janderson.
Segundo Sarmento, as energias renováveis, especialmente a solar, constituem alternativas viáveis para garantir o acesso à eletricidade em comunidades isoladas do interior do estado.
A Amazônia, conforme destacou ao Portal AM1, possui elevado potencial para geração de energia a partir de fontes como a fotovoltaica, a biomassa, a hídrica e a eólica, devido à abundância de recursos naturais, como radiação solar, florestas e rios.
“Para as comunidades que se encontram fora do Sistema Interligado Nacional, onde a conexão é inviável e dispendiosa, a autonomia energética proporcionada por essas fontes significa uma libertação da dependência do diesel, que é oneroso, poluente e frequentemente intermitente. Essa transição resulta em ganhos significativos em mobilidade e conectividade, configurando um caminho estratégico para a realidade da região”, explicou o ambientalista.
Expansão do mercado e perspectivas
No Amazonas, além do crescimento de 528% nas instalações entre 2021 e 2024, conforme a Aneel, a apuração do Portal AM1 na plataforma Econodata indica que existem 117 empresas de energia solar no estado. As cidades com maior número de empresas são Manaus (97) e Parintins (3).
O engenheiro eletricista e CEO da Waze Energia, Dilkson Gomes, empresa voltada à Gestão Estratégica de Energia, afirmou em entrevista ao Portal AM1 que a busca pela instalação de placas de energia solar no Amazonas tem aumentado. Segundo ele, o público residencial lidera a procura por esse tipo de solução.
“A procura por sistemas de energia solar continua em crescimento. Ainda estamos em um mercado em expansão, mesmo com o imposto que passou a vigorar em 2023, após o marco regulatório da geração distribuída no Brasil. Antes disso, a procura era muito maior do que agora. Porém, o mercado já respondeu: houve uma redução de 46% no preço dos equipamentos em relação a 2020, e a demanda seguiu em crescimento. O público que mais tem buscado esse tipo de solução é o residencial, responsável por aproximadamente 68% a 70% da procura nacional por geração solar no país, uma grande fatia do mercado”, explicou o engenheiro ao Portal AM1.
Entre os fatores predominantes, Dilkson Gomes afirma que a economia na conta de energia pesa na decisão de instalação de energia solar.
“As previsões apontam para novos aumentos a cada ano, sem expectativa de redução no preço da energia. Os consumidores sentem esse impacto diretamente no fim do mês, ao pagar a conta de luz, e acabam buscando alternativas para economizar. Assim, a principal razão para a procura por energia solar é o aumento constante no preço da energia para o consumidor final”, defende o engenheiro.
Segundo Gomes, o custo médio para instalação de energia solar em residências ou empresas equivale a aproximadamente dois a dois anos e meio de faturas de energia elétrica.
Ele explica que, para uma conta mensal de mil reais, o investimento necessário varia entre 24 e 28 mil reais. Com esse valor, o consumidor passa a gerar a própria energia e reduz significativamente a dependência do pagamento de contas elevadas.
Gomes ressalta ainda que a energia solar está cada vez mais acessível às famílias brasileiras. Ele destaca que novas linhas de financiamento devem entrar no mercado, inclusive a possibilidade de que o programa Minha Casa Minha Vida já contemple unidades com energia solar instalada.
“A energia solar está cada vez mais acessível às famílias. Novas fontes de financiamento estão previstas para serem lançadas, incluindo a possibilidade de integração ao programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, já com energia solar instalada. Ainda assim, o Brasil precisa avançar bastante para que essa tecnologia seja, de fato, popularizada em todo o país”, disse o engenheiro.
Tanto o crescimento da procura quanto o aumento de investimentos no setor levam o diretor-administrativo da Expertise Energia Solar, Jamil Chaar, a afirmar que a energia solar está se tornando mais acessível, mas ainda é considerada um investimento de médio porte.
O diretor pontua que os financiamentos tornam o acesso viável para famílias de classe média e que programas sociais como o Renda Básica Energética (Rebe) e o Programa de Energia Renovável Social (PERS) visam democratizar o acesso para famílias de baixa renda, inclusive no Amazonas.
Segundo Jamil Chaar, o setor ainda enfrenta desafios significativos, como infraestrutura de transmissão limitada. Ele também aponta desinformação e carência de mão de obra qualificada em áreas remotas, bem como a concorrência desleal associada à presença de produtos de baixa qualidade no mercado.
“Entre os principais desafios enfrentados pelo setor hoje estão infraestrutura de transmissão limitada, especialmente na região Norte; curtailment (cortes de geração) por excesso de oferta e falta de controle da geração distribuída; desinformação e falta de mão de obra qualificada em áreas remotas; concorrência desleal e produtos de baixa qualidade no mercado”, pontuou o diretor-administrativo.
Jamil Chaar enxerga com positividade o futuro da energia solar no Amazonas. Ele projeta uma expansão acelerada, com possibilidade de atingir até 123 GW de capacidade instalada até 2030, além da popularização de sistemas híbridos e baterias.
O executivo também destaca a tendência de maior integração com veículos elétricos e microrredes em áreas rurais, assim como o avanço dos modelos de geração compartilhada e de energia por assinatura.
“Para os próximos cinco anos, é possível enxergar uma expansão acelerada: projeção de até 123 GW de capacidade instalada até 2030; popularização de sistemas híbridos e baterias; maior integração com veículos elétricos e microrredes rurais; avanço da geração compartilhada e energia por assinatura; regulamentações mais modernas para garantir estabilidade e equidade”, explicou.
LEIA MAIS:





