(Foto: Divulgação)
Manaus (AM) – Brincar, correr descalço, ter tempo para descobrir o mundo. Direitos simples, mas que, nas periferias de Manaus, têm se tornado um privilégio. Entre ruas sem asfalto, ausência de espaços de lazer e a luta diária das famílias para garantir comida na mesa, a infância vai sendo empurrada para a margem esquecida por um Estado que deveria protegê-la.
O sociólogo Luiz Antônio explicou que é justamente na brincadeira que a criança aprende a ser parte do mundo.
“Nós nascemos, de certa maneira, um sujeitozinho. A gente vira gente a partir da sociabilidade. E como se dá a sociabilidade? Na brincadeira. É brincando que as crianças aprendem a respeitar regras, conviver com diferenças, perder e ganhar, compartilhar espaços. Se você não tem esses espaços, como essas crianças vão aprender a ser solidárias, cooperativas, responsáveis?”, questiona.
Segundo ele, nas comunidades periféricas de Manaus, essa sociabilidade tem sido negada.
“Os pais, quando conseguem trabalho, deixam os filhos sob os cuidados de outras crianças. É uma espécie de adultização precoce. E os poucos equipamentos públicos que existem quadras, campos de futebol, são ocupados por adultos. As crianças ficam sem espaço”, observa.
A falta de lazer se soma à precariedade urbana. Sem saneamento básico, coleta de lixo e infraestrutura adequada, as crianças são expostas diariamente a ambientes insalubres.
“Mais de 70% das internações hospitalares de crianças vêm de doenças ligadas à pobreza, como verminoses e infecções intestinais. São doenças de ambientes negligenciados, que violam todos os tratados e direitos da infância”, pontua Luiz Antônio.
A força de quem resiste
Em meio à ausência do poder público, a solidariedade se transforma em ação. Na comunidade Vila da Felicidade, a coordenadora Shirleny Pacheco e o marido, William Rodrigues, decidiram criar uma alternativa: o projeto Esporte em Cristo, uma escolinha gratuita que nasceu em 2018 e se consolidou em 2020.
“Vimos que, através do esporte, poderíamos ensinar disciplina, respeito e oferecer uma forma de afastar as crianças de um caminho errado, que é de fácil acesso nas comunidades”, conta Shirleny. O projeto, hoje também presente na comunidade Vila Nova, funciona sem fins lucrativos e com o apoio de amigos e voluntários.
“A realidade é que as crianças não têm opções. A escolinha se tornou um escape até mesmo para as famílias. Sempre que podemos, ajudamos de alguma forma, acompanhamos as crianças, zelamos para que tenham um futuro melhor e, principalmente, longe do tráfico e das drogas”, diz.
O Esporte em Cristo não cobra nada das famílias. Mais do que aulas, oferece cuidado.
“Nosso intuito é fazer com que essas crianças se sintam felizes por ter acesso ao lazer, ao esporte e à cultura, independente das dificuldades que passam”, conclui Shirleny.
Infâncias à espera
Enquanto projetos comunitários resistem, a infância nas periferias de Manaus segue marcada pela desigualdade. Sem parques, sem espaços de lazer e com a sobrevivência ditando o ritmo da vida familiar, brincar se torna um luxo e ser criança, um desafio.
“Essas crianças estão completamente negligenciadas, abandonadas”, diz Luiz Antônio. “E não dá pra responsabilizar os pais, porque eles estão tentando sobreviver. O que falta é o Estado cumprir seu papel, garantir que toda criança tenha o direito de viver sua infância, e não apenas de sobreviver a ela.”
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