Manaus, 24 de julho de 2026
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Manaus, 24 de julho de 2026

Cenário

‘Às vezes, tenho dificuldade de acreditar no país do futuro’, diz Arthur Neto

A Zona Franca de Manaus passará por duro teste, quando começarem as tratativas, no Planalto e no Congresso Nacional. Virão à tona razões e preconceitos, ao mesmo tempo. Ficará evidente verdadeira compreensão sobre a Amazônia e a alienação de alguns sobre a região mais estratégica do país.

Devemos estar preparados para esse debate, na mídia e onde mais tiver de ser. Fui convidado por uma revista de circulação nacional para seminário sobre Amazônia, que acontecerá, em maio, em São Paulo. Só ainda não conheço detalhes, tipo quem moderará o encontro e com quem debaterei, mas participarei de quantos debates, de alto nível, me sejam propostos.

Antes desse, poderá ocorrer outro, em Manaus, com a participação de técnicos nossos e, no contraponto democrático, também de personalidades de outros pontos do país, notadamente do sudeste. Sugeri que, em ambas as ocasiões tivéssemos sempre, às mesas de discussão, alguém qualificado, pertencente à alta esfera das decisões governamentais.

O Brasil perdeu a primeira, a segunda e a terceira revoluções industrias. Estamos presenciando o desenrolar da quarta e seria lamentável a repetição de fracassos. Sim, porque nos eventos ocasiões anteriores chegamos atrasados, fomos sempre a reboque e permitimos que se cumprisse a preocupação de Artur Wichmann, recordando conclusão precisa e brilhante de Jack Welch: “se a mudança no lado de fora de sua empresa for mais rápida que no lado de dentro, o fim está próximo”.

Ora, adaptando Welch ao Brasil, dá para sustentar idêntica opinião. Não podemos perder o trem da quarta revolução industrial ou falharemos como nação. E dessa nação fazem parte uma região chamada Amazônia, um estado chamado Amazonas, uma metrópole chamada Manaus, que abriga um Polo Industrial em crise e carente de inovações.

Por isso, ao invés de meramente ressaltarem pontos negativos do modelo Zona Franca, sugiro que os mandatários pensem em revitalizar nosso parque industrial, reformando sua infraestrutura, investindo em formação de mão de obra, em capital intelectual, em inovação tecnológica. E nos possibilitando atrair novos polos, compostos por produtos que, aqui no nosso quadrado, mal sabemos que já existem. Tamanha a velocidade das transformações que se estão processando nessa revolução tão rápida quanto intensa e exigente, no campo da tecnologia mais fina e sofisticada.

Às vezes, tenho dificuldade de acreditar “no país do futuro”, que já o era em minha infância e continua com suas idas e vindas. Mas pensar o quê de um Brasil que só investe 0,5% do seu Orçamento em ciência, tecnologia, laboratórios?

O fato é que não se pode deixar o Polo de Manaus falecer. Temos de criar novas economias que se somem a ele…e não que o substituam. Deixemos bem nítido isso, para que cantos de sereia não surjam no horizonte, no estilo: “vocês abrem mão da Zona Franca e em compensação receberão em troca o paraíso, com direito a missas celebradas por São Pedro em pessoa”.

Nosso objetivo inarredável é salvar a Zona Franca, nela empregar os recursos da biodiversidade, participar, em posição de honra, da quarta revolução Industrial. Se, porém, o governo nos ajudar a compor, sistemicamente, outras economias, agradeceremos! Nunca, porém, negociar a existência de um passado brilhante e um futuro idem, se o modelo for reformado profundamente e não bisonhamente boicotado.

 

(*) O autor é prefeito de Manaus, foi deputado federal, senador e ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República