(Foto: Antônio Lima/Secom)
Manaus (AM) – Os números divulgados pelo próprio Governo do Amazonas deixam escancarado que, em 2025, o governador Wilson Lima decidiu privilegiar a Cultura em detrimento de setores essenciais como Assistência Social e Saúde. A Secretaria de Cultura e Economia Criativa (SEC), comandada por Caio André (UB), recebeu R$ 31,9 milhões em emendas pagas — valor que supera com folga o destinado a dezenas de hospitais, maternidades, SPAs e programas sociais.
Enquanto isso, o Fundo Estadual de Assistência Social recebeu R$ 17,2 milhões, praticamente a metade do montante liberado para Cultura. Já diversas unidades de saúde, que atendem uma população crescente e enfrentam demanda crônica, receberam cifras muito menores — quando receberam. A disparidade deixa evidente a inversão de prioridades: festividades e eventos culturais são pagos com rapidez; serviços essenciais seguem em fila de espera.
O uso político
A escolha não é inocente. A Cultura se tornou, na prática, a principal plataforma de ganho político do governo Wilson Lima. A pasta distribuída estrategicamente a Caio André — ex-presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM), que protagonizou um episódio inédito ao não conseguir se reeleger, mesmo no comando da Casa e dentro do União Brasil — virou o eixo de ações voltadas para popularidade, eventos e construção de palanques no interior.
Festivais, shows, programações temáticas e ações culturais são espalhados por municípios estratégicos, garantindo fotos, discursos, palcos iluminados e agradecimentos públicos. É o tipo de investimento que retorna rápido em simpatia política — bem diferente de hospitais, assistência a famílias vulneráveis ou ações de saúde, que não rendem o mesmo impacto eleitoral.
Parlamentares que tiveram emendas pagas na Cultura
A lista de beneficiados revela o poder político da pasta. Entre os deputados cujas emendas para a Cultura foram efetivamente pagas, segundo o relatório oficial , estão:
- Joana Darc – R$ 5.647.904,26 (licenciada)
- Débora Menezes – R$ 3.000.000,00
- Mário César– R$ 4.199.990,00
- Daniel Almeida – R$ 2.950.000,00
- Felipe Souza – R$ 2.410.802,00
- Thiago Abrahim – R$ 1.999.997,70
- Wilker Barreto – R$ 1.998.900,00
- Dan Câmara – R$ 1.150.000,00
- Cabo Maciel – R$ 1.624.207,17
- Rozenha – R$ 1.392.503,26
- Carlinhos Bessa – R$ 999.998,95
- George Lins – R$ 1.000.000,00
- João Luiz – R$ 450.000,00
- Alessandra Campêlo – R$ 450.000,00
- Wanderley Monteiro – R$ 592.503,27
- Delegado Péricles – R$ 435.546,76
- Sinésio Campos – R$ 800.000,00
- Abdala Fraxe – R$ 273.000,00
O volume elevado e diversificado de parlamentares contemplados confirma a importância política da Cultura como moeda de troca dentro da base aliada.
A SEC virou palco de uma estratégia óbvia: financiar festividades, eventos, shows, “ações culturais” e uma agenda intensa no interior do Estado, em municípios onde Wilson Lima busca reforçar alianças e manter palanques ativos. Cada real pago vira presença, visibilidade, palco iluminado e agradecimentos públicos — capital político valioso para 2026.
Enquanto isso, setores que não geram aplausos — como assistência social, maternidades, SPAs e hospitais — recebem menos, mesmo sendo essenciais para a população.
Largo sem árvore de Natal
A gestão de Caio André na Cultura ainda ficará marcada por outro fato simbólico: pela primeira vez na história, o tradicional Largo de São Sebastião, no coração do Centro Histórico de Manaus, não terá árvore de Natal.
A decisão vem após o acidente que derrubou parte da estrutura e resultou na morte de uma pessoa e deixou outras duas feridas — um episódio que evidenciou falhas graves na execução e fiscalização dos projetos culturais financiados pelo governo.
A ausência da árvore, um ícone do calendário natalino de Manaus, representa um contraste incômodo entre o dinheiro abundante despejado na Cultura e a incapacidade de garantir segurança e planejamento em eventos básicos.
Cultura forte, serviços essenciais esquecidos
A comparação é inevitável:
- Cultura: R$ 31,9 milhões pagos
- Assistência Social: R$ 17,2 milhões pagos
- João Lúcio: R$ 2,4 milhões pagos
- SPA Alvorada: R$ 2,1 milhões pagos
- Diversas unidades de saúde: menos de R$ 1 milhão — ou simplesmente zero
Enquanto Caio André tenta reconstruir sua relevância política sob a proteção do governo, e enquanto a Cultura se torna um veículo para agendas festivas e articulações eleitorais, o restante do Estado assiste a áreas essenciais sendo tratadas como coadjuvantes.
A mensagem é clara: no governo Wilson Lima, o que importa é o impacto político, não a urgência social. Paga-se mais por eventos, palcos e festivais do que por políticas públicas que salvam vidas ou acolhem famílias vulneráveis.
O resultado é um retrato fiel de um governo que escolhe onde investe — e escolhe sempre onde a visibilidade rende mais do que a responsabilidade.
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