Manaus, 7 de julho de 2026
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Cidades

‘Lixo nos rios de Manaus vai além da educação ambiental’, diz ecólogo

Vídeo que circula nas redes sociais reacendeu o debate sobre a poluição no Rio Negro após as chuvas.

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(Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom)

Manaus (AM) – O acúmulo de lixo nos rios e igarapés de Manaus voltou ao centro do debate público após a circulação, nas redes sociais, de um vídeo gravado por um guia turístico que mostra uma grande quantidade de resíduos flutuando no Rio Negro, após um dia de forte chuva na capital amazonense. As imagens, registradas durante um passeio com turistas, evidenciam um problema antigo e estrutural, que vai além da simples “falta de educação ambiental”, segundo o ecólogo Welton Oda.

Em entrevista ao Portal AM1, Oda avaliou que a situação do lixo nos rios de Manaus é resultado direto da combinação entre falhas na gestão pública, ausência de políticas eficazes de educação ambiental e profundas desigualdades sociais.

“O lixo acumulado nos rios de Manaus constituem o conjunto do lixo deixado nas ruas e carregado pelas chuvas para os igarapés, juntamente com aqueles deixados diretamente nos rios. Em Manaus, falta fiscalização, falta punição para os infratores ambientais e faltam políticas municipais eficientes de educação ambiental”, afirmou.

Ainda segundo o mestre em ecologia pelo INPA, a empresa responsável pelo serviço de coleta de lixo tem sido “extremamente ineficiente”. Para Welton Oda, embora a falta de educação ambiental seja um fator relevante, é incorreto atribuir toda a responsabilidade à população. Ele ressalta que os processos educacionais são culturais e históricos, e não produzem resultados imediatos.

“Os processos educacionais são culturais e, portanto, levam muito tempo para apresentar alguma efetividade, ou seja, mudanças no comportamento dos educandos, é preciso paciência. Além disso, educar é diferente de ensinar. Então é incorreto falar em ‘campanhas educativas’, porque educação é algo bem mais complexo. Ensinar pode tornar a pessoa educada ou não”, explicou.

O ecólogo destacou ainda que a percepção de “falta de cuidado “varia conforme a realidade social. Bairros mais estruturados, como o Vieiralves, costumam ser vistos como mais “educados”, mas, segundo ele, isso está diretamente relacionado à maior oferta de serviços públicos.

“Essas áreas são melhor servidas por limpeza urbana, coleta regular de lixo e acesso à água potável. Não se pode falar em hábitos de higiene sem falar das condições desiguais de higiene existentes nas diferentes regiões de Manaus”, pontuou.

Na avaliação de Oda, para que o lixo seja percebido como um problema prioritário pela população, é necessário que outras necessidades básicas estejam minimamente atendidas.

“Segurança, alimento, moradia e emprego precisam estar resolvidos. Combater as causas da desigualdade social é mais eficiente”, disse.

Impactos ambientais e sociais são graves

Os impactos do lixo nos rios vão muito além da poluição visual. Welton Oda explica que os resíduos podem ser classificados em orgânicos e inorgânicos, ambos com efeitos severos sobre o meio ambiente. Entre os mais problemáticos estão os resíduos orgânicos, como fezes humanas, especialmente em áreas sem saneamento básico.

“Os orgânicos são bastante problemáticos, porque somente fezes humanas, por exemplo, já são suficientes, em bairros em que as casas não possuem fossas, para poluir os rios. Então, as ecobarreiras, por exemplo, não funcionam para despoluir, caso não se deixe de enviar para os igarapés as fezes humanas, que chegam pela tubulação”, alertou.

Outro vilão apontado pelo ecólogo é o plástico, que pode “encapar” o leito dos rios, impermeabilizando-o. Esse processo impede a infiltração da água no solo e contribui diretamente para as enchentes.

“Com a água cheia de fezes os peixes, os camarões e toda a fauna morrem, mas é possível despoluir, com investimentos sérios em saneamento básico e não somente nas ecobarreiras, que são importantes, mas não resolvem sozinhas”, afirmou.

Em relação as comunidades ribeirinhas de Manaus, a situação é ainda mais crítica. Segundo Oda, áreas como a Bacia do Tarumã-Açu já apresentam comprometimento significativo da atividade pesqueira.

“No caso de comunidades ribeirinhas de Manaus, é muito grave porque a quantidade de lixo acumulada em lugares como a Bacia do Tarumã-Açu tem comprometido seriamente a atividade pesqueira, sem contar na contaminação industrial, que pode afetar a qualidade do peixe, contaminar este alimento e inviabilizar o consumo humano”, disse.

Vídeo de guia turístico expõe problema ao mundo

O debate ganhou força após a publicação de um vídeo nas redes sociais em que um guia turístico, ao retornar de um passeio com visitantes, se depara com grande quantidade de lixo no rio.

“A gente está apresentando a natureza, tudo que a nossa cidade tem de melhor, mas quando chega aqui, encontra essa tragédia”, relata no vídeo.

Ele classifica a situação como uma “falta de respeito com a natureza” e alerta para os prejuízos ao turismo, à cidade e aos próprios moradores. No registro, o guia também chama atenção para o destino final do lixo.

“Quando dizem que o Rio Negro despeja muito lixo no oceano, é por causa disso aqui. Todo esse lixo vai descer e desaguar no Oceano Atlântico. Isso é uma tragédia anunciada”, afirmou, enquanto mostrava os resíduos acumulados após a chuva.

Confira:

Caminhos possíveis para enfrentar o problema

Questionado sobre medidas práticas para reduzir o lixo nos rios, Welton Oda defendeu mudanças profundas na forma como o poder público planeja e executa políticas ambientais. Segundo ele, as administrações municipais historicamente adotam uma postura autoritária, sem diálogo com a população.

“Um primeiro passo seria a construção conjunta de planos de despoluição, nos quais a população, sendo ouvida e atendida, certamente terá maior prazer em participar e apoiar”, afirmou.

Welton Oda defende ainda um programa de educação ambiental que vá além do descarte correto do lixo e questione o modelo de hiperconsumo.

“A longo prazo, um programa de educação ambiental que, ao mesmo tempo que fizesse a população compreender que, mais do que o descarte, é o hiperconsumo a causa da poluição por resíduos sólidos, que levasse a população a produzir e consumir seu próprio alimento, em hortas e pomares comunitários, evitando o consumo de produtos industrializados”, concluiu.

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