(Foto: Divulgação/Agência Cora Coralina)
Manaus (AM) – A violência contra a mulher segue avançando no Amazonas e a rede de proteção ainda não consegue responder à altura da gravidade do problema. O alerta foi feito pela advogada criminalista Amanda Pinheiro, que atua há quase seis anos no enfrentamento à violência doméstica no estado.
Em entrevista ao programa AM1 Entrevista, Amanda afirmou que, embora o Amazonas tenha deixado a liderança nacional em feminicídio e violência doméstica, os números continuam alarmantes. Segundo ela, o crescimento das notificações e dos pedidos de medidas protetivas mostra que há mais mulheres buscando ajuda, mas também revela que a violência continua em expansão.
“O estado do Amazonas já esteve em primeiro lugar no ranking de feminicídio e de violência doméstica. Hoje nós já descemos para terceiro lugar, porém existe sim o aumento da violência”, afirmou.
Amanda destacou que um dos maiores problemas está na distância entre a lei e a realidade enfrentada pelas vítimas. Na avaliação dela, o sistema de justiça avançou, mas ainda não está plenamente preparado para acolher mulheres em situação de violência sem revitimizá-las.
Hoje, o Amazonas conta com seis juizados especializados em violência doméstica, além de delegacias específicas em Manaus. Ainda assim, a advogada diz que persistem situações de despreparo, atendimento frio, falhas na escuta e ausência de acompanhamento efetivo.
“Quem atua no Judiciário especializado precisa agir com empatia. Muitas vezes, quando a mulher chega para pedir ajuda, ela já tentou de tudo antes”, pontuou.
Interior vive cenário mais crítico
Se em Manaus a estrutura já é considerada insuficiente, no interior do Amazonas o cenário é ainda mais grave. Amanda afirma que, fora da capital, faltam delegacias especializadas, apoio psicológico, acolhimento emergencial e uma rede articulada de proteção.
Ela relata que, em vários municípios, a vítima ainda encontra resistência para registrar a ocorrência e, em alguns casos, é até incentivada a “resolver” a situação com o próprio agressor.
“Não existe estrutura no interior para a mulher vítima de violência. A política pública ainda não chega onde mais precisa chegar”, disse.
Segundo a advogada, esse vazio institucional contribui para a subnotificação e para a perpetuação de um crime que, muitas vezes, continua silencioso em comunidades menores, onde o agressor costuma ser conhecido e influente localmente.
Violência vai além da agressão física
Outro ponto destacado por Amanda Pinheiro é a dificuldade de muitas mulheres em identificar que estão vivendo violência doméstica. Para ela, o problema ainda é associado apenas à agressão física, quando na prática também envolve ameaças, humilhações, controle financeiro, ofensas, coerção sexual e isolamento.
Ela aponta que, no Amazonas, os tipos de violência mais recorrentes são ameaça, injúria e agressão física — nessa ordem. E faz um alerta duro: “Toda mulher no estado do Amazonas já sofreu alguma violência e muitas nem sabem disso”.
Lei existe, mas eficácia ainda é desafio
Amanda defende que a Lei Maria da Penha continua sendo uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra a mulher. O problema, segundo ela, não está na lei em si, mas na incapacidade do poder público de garantir sua aplicação de forma eficaz.
Ela cita como exemplo o descumprimento de medidas protetivas, a falta de monitoramento em muitos casos e a ausência de estrutura para fazer valer mecanismos como o uso de tornozeleira eletrônica em agressores.
“O que nos falta é garantir a eficácia dessas medidas protetivas. A mulher precisa sentir que aquela decisão realmente a protege”, afirmou.
“A vida começa quando a violência termina”
Ao final da entrevista, Amanda deixou uma mensagem direta às mulheres que vivem em contexto de violência: procurar ajuda é difícil, mas possível.
“Você não está sozinha. Não estou dizendo que é fácil, mas é possível. A vida começa quando a violência termina”, declarou.
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