Disputa global, BRICS, influência dos EUA e eleições brasileiras estiveram entre os temas analisados pelo cientista político Gade Pedroza (Foto: reprodução / Montagem Portal AM1)
Manaus (AM) – A disputa por influência entre Estados Unidos e países do chamado Sul Global ganhou espaço no debate eleitoral brasileiro de 2026. Em entrevista ao Portal AM1, o cientista político Gade Pedroza analisou o papel do Brasil no BRICS, a relação com Washington e os impactos dessas disputas sobre a política nacional.
O BRICS, que começou com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou por uma expansão e hoje reúne 11 países-membros, além de países parceiros. Para Pedroza, o crescimento do bloco representa uma mudança na correlação de forças internacionais e amplia o espaço de países em desenvolvimento nas discussões econômicas e políticas globais.
“O nosso país participa de uma dinâmica de disputas, é a disputa entre o norte global, desses países desenvolvidos, e os países do sul global, que são os países em desenvolvimento”, afirmou.
A dimensão dessa relação também aparece nos números do comércio exterior. Brasil e Estados Unidos movimentaram cerca de US$ 135,7 bilhões em comércio de bens e serviços em 2025, segundo dados do governo norte-americano. Apenas o comércio de bens somou aproximadamente US$ 94,2 bilhões no período.
Na avaliação de Pedroza, a influência econômica dos Estados Unidos precisa ser analisada dentro de uma disputa internacional mais ampla, que envolve também o BRICS, o dólar, recursos naturais e interesses estratégicos.
‘Guerra híbrida’
Pedroza classifica esse cenário como uma espécie de “guerra híbrida”, conceito que, segundo ele, ultrapassa os conflitos militares tradicionais e envolve economia, comunicação, política e Judiciário.
O cientista político afirmou que os Estados Unidos historicamente buscaram influenciar processos políticos na América Latina e avaliou que mecanismos semelhantes podem ocorrer atualmente por meio de diferentes setores da sociedade.
Para Pedroza, políticos, jornalistas, artistas, religiosos e integrantes do sistema de Justiça podem ter papel nesse processo de disputa por influência.
Petróleo, privatizações e recursos estratégicos
Outro ponto levantado pelo cientista político foi o interesse internacional sobre recursos naturais brasileiros. Ele citou as reservas de petróleo e relacionou a exploração desses recursos às disputas econômicas internacionais.
A discussão sobre recursos estratégicos ganhou novos contornos nos últimos anos com a crescente importância de minerais críticos e terras raras para setores como tecnologia, energia e indústria. O tema também passou a integrar as negociações e disputas comerciais entre grandes potências.
Pedroza relacionou esse cenário à discussão sobre privatizações de serviços públicos, especialmente nas áreas de saúde e educação. Na avaliação dele, a entrada de empresas privadas nesses setores pode ampliar a participação de interesses econômicos estrangeiros.
Religião e política
Pedroza afirmou que documentos do governo dos Estados Unidos demonstrariam o uso de grupos religiosos como instrumentos de influência política na América Latina. Documentos históricos disponíveis no arquivo oficial do Departamento de Estado mostram que autoridades norte-americanas, incluindo a CIA e o Conselho de Segurança Nacional, produziram estudos sobre o papel político e social das igrejas e de grupos não católicos na região durante a Guerra Fria. Os documentos, porém, não comprovam por si só a afirmação de que denominações pentecostais tenham sido utilizadas para interferir em eleições latino-americanas.
STF e eleições
Ao tratar da política brasileira, Pedroza levou o conceito de guerra híbrida para as disputas envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, conflitos entre ministros e decisões divergentes podem provocar desgaste institucional e alimentar questionamentos sobre a democracia brasileira.
O cientista político também apresentou uma leitura de dois campos políticos em disputa. De um lado, segundo sua avaliação, estaria um projeto associado à soberania nacional e ao investimento público em áreas como saúde, educação e cultura. Do outro, estaria o que classificou como um projeto de “entreguismo”.
Flávio Bolsonaro e aproximação com os EUA
Pedroza citou ainda o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e afirmou que haveria influência norte-americana na formulação de sua campanha. Há, de fato, posições públicas do senador que apontam para uma aproximação maior com os Estados Unidos e para mudanças na relação do Brasil com o BRICS.
Em setembro, a coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ação na qual pede a investigação de Flávio Bolsonaro por suposta abertura para interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. Segundo reportagem da VEJA, o pedido também cita reuniões com integrantes do Departamento de Estado norte-americano, articulações relacionadas às sanções impostas ao Brasil e uma suspeita de recebimento de recursos de uma entidade americana para financiar a campanha. A coligação pede que a Justiça Eleitoral apure os fatos e, caso sejam comprovadas irregularidades, aplique as sanções previstas na legislação eleitoral.

A ação, no entanto, representa uma acusação apresentada pelo grupo político de Lula e não uma conclusão da Justiça sobre eventual interferência estrangeira na campanha de Flávio. O pedido foi distribuído ao ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, no TSE.
O próprio Flávio Bolsonaro nega ter articulado sanções dos Estados Unidos contra o Brasil e afirma que atuou junto ao governo norte-americano para tentar evitar medidas que prejudicassem o país.

O episódio acrescenta um elemento concreto ao debate levantado por Pedroza sobre a influência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, mas não comprova, por si só, a afirmação do cientista político de que o programa de campanha de Flávio Bolsonaro tenha sido formulado pelos Estados Unidos.
Outro levantamento apontou que Flávio pretende promover no Itamaraty uma reforma inspirada em mudanças adotadas pelo governo de Donald Trump no Departamento de Estado dos EUA. Esses elementos ajudam a contextualizar a fala de Pedroza, mas não comprovam a afirmação de que o programa político de Flávio Bolsonaro tenha sido elaborado pelos Estados Unidos.

O candidato também nega receber ajuda do governo norte-americano para sua campanha. Para Pedroza, a disputa eleitoral brasileira está inserida em uma discussão maior sobre soberania, desenvolvimento e relações internacionais.
“Então, nós estamos procurando ser soberanos enquanto tem pessoas ou outros países que querem fazer com que nós sejamos colônia”, afirmou.
A entrevista completa com Gade Pedroza aborda ainda o crescimento do BRICS, a influência dos Estados Unidos na América Latina, guerra híbrida, religião, privatizações, STF e os projetos políticos em disputa nas eleições de 2026.
LEIA MAIS:





