Olhares - Amazonas1
31 de outubro de 2020
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Olhares

Gostaria de falar, hoje, sobre o olhar. Esse gesto tão simples e tão importante por meio do qual se dá sentido e compreensão à vida

Olhares

Gostaria de falar, hoje, sobre o olhar. Esse gesto tão simples e tão importante por meio do qual se dá sentido e compreensão à vida, tanto no plano sentimental e social, quanto no político, claro, se pensarmos este no sentido antropológico. Olhar e ver, aqui tem o mesmo sentido, não quero tornar este artigo uma complexa discussão conceitual. Sabe-se muito bem que “enxergar” (o simples olhar) é biológico, enquanto o “ver” (o olhar do “senso crítico”) é cultural. A construção do mundo passa por essas duas formas de olhares.

Penso em vários olhares. Sobressai-me o de uma pessoa num vagão de um trem, vendo os rostos, andares e gestos dos transeuntes. Cada rosto, uma história, um sorriso, um sofrimento. Cada olhar, uma lágrima, uma alegria, um amor, um abandono. Um olhar dentro de outro olhar. Dizem que o olho é o espelho da alma, mas eu acho que o que captura os anseios da alma é o olhar. O brilho do olhar de quem marcou um gol no time adversário não é o mesmo de quem foi abandonado pela mulher amada. Naquele, a vida resplandece; neste, a morte parece iniciar-se.

As emoções que o olhar de um soldado na guerra traz a ele, ou de um jovem que vê pela primeira vez o corpo de sua amada, não poderiam jamais serem descritas se não fosse a mágica do olhar. Olho para uma pessoa e a vejo como companheira, adversária, amiga, amada. Através do olhar observo as geografias do mundo. Os grandes espetáculos da vida – falo dos cenários naturais somente são contemplados graças ao poder do olhar. Olhando o outro me olho, vejo o que é bom e ruim. Se desejo algo, é porque o olhei. De que adiantaria a beleza dos lírios do campo, se não houvesse o olhar? Sem este, o espelho seria sempre um ser a decantar sua virgindade sem jamais refletir o que lhe imprime a imagem.

É o tamanho do meu olhar que me faz pequeno ou grande. Pode ser um olhar globalizado ou localizado. Se Fernando Pessoa estiver certo e a posição da minha aldeia, da minha vida e do meu universo dependerem do meu olhar, sou gigante. “Porque sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura. ” Arrepio-me sob o efeito do argumento de que a modernidade (pós-modernidade, hipermodernidade…) se configura como uma torre de olhares, um grande panóptico, uma transversalidade descomunal de raios observadores das vidas e das mentes, uma vigilância infinita.

Mas tenho dois olhares que me são extremamente caros, pois sempre representam incógnitas, enigmas atemporais. O primeiro é o de uma mulher de nome Capitu. Olhar sagaz, ardiloso, malicioso, um olhar como as grandes ondas do mar, que tudo arrasta; um tsunami que traga o que encontrar; profundo como a alma humana, incompreensível a qualquer leitura, como toda mulher. No seu olhar, unem-se o que há de melhor e de pior, o sagrado e o profano, enfim, todas as mais contraditórias e as mais plenas formas de viver a vida. Na obliquidade e na dissimulação do seu olhar se perdeu a alma e todo o mundo de Bentinho. Foi através do olhar de Capitu que Machado de Assis emblematizou um ponto fundamental das relações humanas.

O outro olhar viveu entre a noite e os livros, ao mesmo tempo. Jorge Luís Borges perdeu a sua visão, mas não o brilho do olhar. Como ele diz: “(…) A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.” Mas foi através de sua cegueira que ele começou a enxergar. Um fazedor de sonhos e de mundos. Através de seus escritos construiu uma vida, um labirinto feito de traços e linhas, um desenho que ao seu olhar traduzia o seu rosto e uma imagem da vida e do mundo.

 

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