(Foto Divulgação Águas de Manaus e Celso Maia/ Arquivo Portal AM1)
Manaus (AM) – Com mais de 2,2 milhões de habitantes, Manaus enfrenta desafios históricos no saneamento básico. Apesar de uma cobertura relativamente ampla de água tratada, mais da metade da população não tem acesso à coleta de esgoto adequada, e os igarapés que cortam a cidade estão cada vez mais poluídos. Essa diferença evidencia a distância entre as metas internacionais do ODS 6 e a realidade concreta vivida pelos manauaras.
O levantamento do Ranking do Saneamento 2025 do Instituto Trata Brasil apresenta um panorama detalhado sobre a situação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no município de Manaus. A análise baseia-se em dados oficiais de cobertura, tratamento, investimentos e perdas no sistema, fornecendo uma visão geral do desempenho do saneamento básico na capital amazonense.
De acordo com a tabela, Manaus ocupa a 87ª posição no ranking nacional, uma queda de uma posição em relação a 2024. Apesar dessa leve variação, os dados mostram avanços importantes e desafios significativos.
Ranking nacional e investimentos
Confira a tabela do ranking do saneamento de 2025:
O estudo também apontou os 20 melhores e os 20 piores municípios no setor de saneamento. Nesse contexto, Manaus aparece na 14ª posição entre os piores, evidenciando que ainda há grandes desafios a serem superados na ampliação e na qualidade dos serviços de saneamento básico na capital amazonense
De acordo com os dados obtidos por meio do levantamento, 97,98% da população de Manaus tem acesso à rede de abastecimento. Porém, o atendimento total de esgoto ainda é limitado, com apenas 28,46% da população coberta, e apenas 22,31% do esgoto coletado recebe tratamento adequado. Esses números mostram uma disparidade entre o acesso à água e ao saneamento.
Em termos de investimentos, Manaus aplicou R$ 1,146 bilhões entre 2019 e 2023, o que corresponde a um investimento médio per capita de R$ 111,13. Esses valores refletem esforços contínuos na ampliação e modernização da infraestrutura, embora ainda insuficientes diante da demanda populacional da cidade, que ultrapassa 2 milhões de habitantes.
De modo geral, o cenário de Manaus mostra avanços no fornecimento de água, mas também revela desafios persistentes na coleta e tratamento de esgoto, além de altas perdas no sistema de distribuição. A ampliação dos investimentos e o fortalecimento das políticas públicas de saneamento são fundamentais para melhorar os indicadores e garantir um serviço mais eficiente e sustentável para toda a população.
Conheça as ODS

Em 2016, a ONU apresentou 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para que a humanidade pudesse promover crescimento econômico sem aumentar a pobreza, a desigualdade ou os impactos das mudanças climáticas, sendo estas últimas combatidas, por exemplo, por construções sustentáveis.
Os ODS abrangem desde a erradicação da fome até a promoção de sociedades pacíficas e inclusivas, cada um com metas específicas a serem cumpridas em 15 anos. No entanto, a pandemia de COVID-19 afetou significativamente o progresso dessas metas.
Garantir água potável e saneamento básico para todos é a meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 6 (ODS 6) da ONU, com prazo até 2030. Mas em Manaus, a realidade ainda está distante desse ideal.
ODS 6 e a Agenda 2030
A Agenda 2030 da ONU é um plano global para atingirmos em 2030 um mundo melhor para todos os povos e nações. A Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova York, em setembro de 2015, com a participação de 193 estados membros, estabeleceu 17 objetivos de desenvolvimento sustentável. O compromisso assumido pelos países com a agenda envolve a adoção de medidas ousadas, abrangentes e essenciais para promover o Estado de Direito, os direitos humanos e a responsabilidade das instituições políticas.
ODS 6 – Água Potável e Saneamento
O Objetivo 6 busca garantir o acesso universal e sustentável à água potável e ao saneamento. Seus principais pontos são:

Bairros periféricos enfrentam falta de abastecimento regular, ligações clandestinas e infraestrutura insuficiente para tratar e distribuir água de forma segura. A ausência de saneamento adequado gera doenças, como diarreias e hepatites, e polui rios e igarapés, comprometendo ecossistemas e atividades econômicas.
Situação do saneamento em Manaus
A ambientalista Fabiana Rocha destacou ao Portal AM1 a grave situação dos igarapés de Manaus, e alerta que eles estão passando por um processo de deterioração visível. Segundo ela, esses cursos d’água estão cheios de lixo, espuma tóxica e recebem esgoto sem qualquer tipo de tratamento. Ela também ressaltou que o sistema de tratamento de esgoto na cidade é muito limitado, contribuindo para o agravamento da poluição.
“Os igarapés aqui da cidade de Manaus estão em processo de deterioração diante da gente”, destacou a ambientalista Fabiana Rocha.
De acordo com Fabiana o histórico de negligência em relação ao saneamento básico na região, é um problema que, segundo ela, se arrasta há décadas sem avanços significativos. Ela afirma que a falta de investimentos nessa área está diretamente ligada a interesses políticos e econômicos, já que o saneamento “não dá voto rápido” e não resulta em obras de grande visibilidade pública.
Além disso, a ambientalista ressalta que gestores e autoridades costumam priorizar projetos que geram maior retorno político, como viadutos, praças e fachadas, porque esses empreendimentos permitem inaugurações pomposas e exposição na mídia.
“O saneamento é uma obra essencial, mas invisível. As redes de esgoto ficam enterradas, quase ninguém vê”, pontuou.
Fabiana fez denúncia também a ausência de responsabilização das empresas poluidoras e a conivência de gestores públicos, fatores que, segundo ela, perpetuam o descaso ambiental.
“Existe um verdadeiro pacto de silêncio, um acordo tácito de negligência que sacrifica o bem de todos em nome da conveniência de poucos”, concluiu Fabiana Rocha.
O déficit histórico de saneamento básico em Manaus reflete um problema estrutural que se arrasta há décadas em toda a Região Norte. Um estudo publicado em 2011 pela Revista de Administração Pública da FGV, intitulado “Saneamento básico no Brasil: considerações sobre investimentos e sustentabilidade para o século XXI”, já apontava essa desigualdade. Segundo o artigo, em 2000, 92,9% dos municípios da Região Norte não possuíam coleta de esgoto, e os rios eram os principais receptores dos resíduos, uma realidade que, na maioria, ainda persiste.

Em Manaus, esses fatores se somam a desafios geográficos e demográficos típicos da Amazônia, como o crescimento urbano desordenado e a ocupação irregular de áreas ribeirinhas, dificultando a implantação de redes de esgoto e abastecimento. O resultado é um cenário que contraria diretamente as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), que busca garantir água potável e saneamento para todos até 2030.
Fracasso histórico
“Saneamento em Manaus é fracasso histórico blindado politicamente”. A afirmação é do professor e ecólogo Welton Oda em entrevista ao Portal AM1. Para ele, a precariedade atual é resultado de décadas de negligência, metas ignoradas e governos que “blindaram a concessionária”.
“A Assembleia Legislativa, por muito tempo, preferiu não criar problemas para o governador de plantão”, disse.
Ele afirma que a Águas de Manaus descumpre TACs e demora dias para resolver rompimentos que abrem crateras e destroem casas. “Muitas vezes, para a empresa, vale mais a pena pagar multa”, criticou.
Oda também denuncia falta de reciclagem estruturada e uso de mão de obra vulnerável em situações degradantes. Para ele, saneamento nunca foi prioridade porque “não dá voto”, e o atraso agora estoura na gestão atual.
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