Manaus, 6 de julho de 2026
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Cidades

Cresce em 24,7% a taxa de suicídio entre jovens no Amazonas em uma década, diz estudo

A informação consta no Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Fórum de Segurança Pública do estado.

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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Manaus (AM) – A taxa de suicídio entre jovens de 10 a 19 anos no Amazonas aumentou 24,7% entre os anos de 2013 e 2023. A informação consta no Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No mesmo período, 11.494 crianças e adolescentes nessa faixa etária cometeram suicídio em todo o Brasil.

Em 2023, a taxa de suicídio entre jovens no Amazonas foi de 10,9 por 100 mil habitantes. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 11.502 internações por lesões autoinfligidas com intenção suicida ao longo do ano, o que equivale a uma média de 31 casos por dia.

Esse número representa um aumento de mais de 25% em comparação com os 9.173 casos registrados em 2014. Os dados foram divulgados pela Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede).

Conforme o relatório de 2023, a região Norte apresentou uma leve queda nas internações diárias por tentativas de suicídio e autolesões, passando de 452 para 426 casos. No Amazonas, a redução foi de 43 para 33 casos, comparando os anos de 2022 e 2023.

O sociólogo Luiz Antônio, em entrevista ao Portal AM1, resgatou os estudos do francês Émile Durkheim, que definiu o suicídio como um fenômeno social, e não apenas individual. Durkheim classificou o suicídio em três tipos principais: egoísta, altruísta e anômico.

“Por exemplo, quando se analisa o suicídio no Alto Rio Negro, em Tabatinga, observa-se um tipo anômico. Trata-se de jovens indígenas que não conseguem se adaptar à cultura branca e, ao mesmo tempo, não se reintegram à cultura indígena de origem”, explicou o sociólogo.

Dados de um boletim epidemiológico de fevereiro de 2023 mostram que, entre 2018 e 2022, foram registrados 91 casos de suicídio no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro, sendo a maioria entre homens (73%) e jovens de 10 a 19 anos (54%).

Para Luiz Antônio, as políticas públicas atuais são insuficientes para lidar com a complexidade do problema. Ele defende medidas específicas voltadas à juventude, especialmente no contexto amazônico.

“Esse é um desafio claro, e as políticas públicas existentes não dão conta. Uma alternativa seria fortalecer os Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), os centros psicoterapêuticos, e aproximar os serviços de atendimento da realidade dos jovens: nas escolas, universidades e igrejas”, afirmou.

O psicólogo Ricardo Robério também conversou com o Portal AM1 e contextualizou o aumento dos casos em meio à intensificação do uso da tecnologia e ao foco econômico crescente no estado, o que, segundo ele, afasta os pais das necessidades emocionais dos filhos.

“Acredito que, hoje, o que acontece é que trabalhamos tanto, nos dedicamos tanto aos negócios, apelamos tanto para recursos de tecnologia para auxiliar na educação dos filhos, que os olhos dos pais acabaram se tornando superficiais quanto às reais necessidades do adolescente no cotidiano. Essa frieza faz com que ele entenda que não é importante”, analisou o psicólogo.

Ele também apontou o distanciamento geracional como um fator agravante, especialmente diante de novas temáticas que muitas famílias não acompanham.

“Além de que, hoje em dia, a geração de crianças e jovens vive em torno de temáticas totalmente novas para muitos pais mais conservadores. Isso cria mais distância entre pais e filhos; é como se não soubéssemos acompanhar o avanço que tem ocorrido em grande escala, não apenas nos negócios, mas também nas famílias. Essa ‘falta’ de afeto, de compreensão, de atenção e de suporte gera, no adolescente, uma série de perturbações psicológicas, levando-o ao adoecimento e podendo desencadear vários pensamentos não saudáveis, como a idealização suicida.”, complementou.

Ao ser questionado sobre o papel do poder público e das instituições de saúde mental, Robério foi categórico: “O poder público não está interessado em saúde mental porque isso não gera lucro. O que não dá retorno financeiro acaba negligenciado.”

Segundo ele, embora existam centros como os CAPS, eles estão sobrecarregados e não conseguem atender à demanda, priorizando casos de urgência e emergência, como dependência química e outros transtornos graves.

“O que existe são os locais de atendimento psicológico, como o próprio CAPS, que vivem lotados e não cobrem todos os serviços, priorizando, muitas vezes, os atendimentos de urgência e emergência, pessoas com demandas relacionadas ao uso de drogas e outras situações”, disse o psicólogo.

Sequelas da Covid-19

Estudos científicos indicam que a pandemia de Covid-19 deixou sequelas importantes na saúde mental da população, contribuindo para o aumento dos casos de suicídio no país.

Entre março de 2020 e fevereiro de 2022, o estudo “Excesso de Suicídios no Brasil nos Dois Primeiros Anos da Pandemia de Covid-19: Desigualdades de Gênero, Regionais e de Faixas Etárias” identificou cerca de 30 mil casos no Brasil.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2023 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que em 2022 o país registrou 16,2 mil suicídios, uma média de 44 por dia. Em 2021, haviam sido 14,4 mil, o que representa um aumento de quase 12%.

“A saúde mental é uma necessidade atual e também resultante da quarta onda da COVID-19. Atendo, por exemplo, muitos pacientes que, ainda hoje, apresentam sequelas do coronavírus e sofrem por isso. No entanto, o poder público se atentou apenas ao momento em que a doença estava ‘ativa’, encerrando os esforços assim que os casos diminuíram. Porém, o número de pessoas que ainda sofrem, atualmente, com uma série de necessidades continua sendo enorme”, criticou Ricardo.

Ao ser questionado sobre como familiares, educadores e a sociedade em geral podem ajudar na prevenção do suicídio juvenil, o psicólogo resumiu em duas palavras: “Fazer terapia!”

“”Pode parecer engraçado, mas muitas pessoas ainda não acreditam que a terapia traz benefícios para a saúde e pode ajudar o indivíduo a ressignificar traumas da melhor forma. Os sinais nem sempre são visíveis, pois, muitas vezes, o mal está sendo desenvolvido de dentro para fora”, concluiu o psicólogo ao Portal AM1.

Busque ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma das principais instituições no país voltadas à prevenção do suicídio.

A organização oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e voluntário, por meio de atendimento 24 horas, todos os dias da semana. O contato pode ser feito pelo telefone 188, sem custo de ligação, ou pelo site www.cvv.org.br, que também disponibiliza atendimento via chat e e-mail.

O CVV atua com voluntários treinados para ouvir e acolher, sem julgamentos, pessoas em sofrimento emocional.

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