Manaus, 16 de julho de 2024
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Cenário

Culpar a esquerda pela ascensão da direita é uma justificativa simplista, diz especialista

Alinhamento político que, anteriormente, era conhecido por suas grandes manifestações políticas na rua, vem perdendo espaço.

Culpar a esquerda pela ascensão da direita é uma justificativa simplista, diz especialista

(Foto: Reprodução/Freepik)

Manaus (AM) – O espírito de organização enquanto grupo ou movimento social tem sido esquecido pelos integrantes de esquerda no Brasil. A origem dos termos “esquerda” e “direita” foram influenciados pelo espírito revolucionário francês de 1789 – quando a Revolução Francesa encaminhava os primeiros passos.

Conforme a análise do sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio Nascimento, existe um enfraquecimento dos movimentos de massa no mundo inteiro e não é um fenômeno do Brasil.

“Em relação à presença da esquerda nos movimentos de rua, acho que há dois elementos que precisamos considerar: o enfraquecimento dos movimentos de rua, dos movimentos de massa no mundo inteiro, não só no Brasil. Você percebe isso na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, encontrando um reflexo desses movimentos por um conjunto de fatores, dentre eles, a estratégia de mobilizações remotas, que tem gerado resultados bastante satisfatórios”, destaca o professor.

Enquanto exemplo de um poder de organização social promovida pela esquerda, o sociólogo utilizou a movimentação do Instituto de Conhecimento Liberta (ICL) para denunciar o deputado Ricardo Salles. Nas acusações, o ex-ministro do meio ambiente teria feito um post no ‘X’ (Antigo Twitter) no qual elogiava a tentativa de golpe militar que aconteceu na Bolívia.

 

(Foto: Reprodução/Redes Sociais Ricardo Salles)

“Por exemplo, dez dias atrás, um pouco mais ou um pouco menos, o ICL (Instituto de Conhecimento Liberta) lançou um abaixo-assinado para denunciar o deputado Ricardo Salles. Em 24 horas, mobilizaram 500 mil pessoas para assinar o documento. Isso nunca tinha acontecido: 500 mil pessoas, meio milhão de pessoas, é um quarto da população de Manaus assinando um documento em 24 horas”, pontuou Nascimento.

Espiral do Silêncio

Esse recuo observado pela movimentação social da esquerda não é um fenômeno recente. Em estudos das Teorias de Comunicação de Massas, um trabalho pontua a existência de uma “espiral do silêncio”. O termo foi utilizado para exemplificar fenômenos que ocasionam o ‘medo’ de expressar uma opinião considerada ‘contrária’ a da maioria.

A Espiral do Silêncio foi uma teoria desenvolvida pela socióloga e cientista política alemã Elizabeth Noelle – Neumann e é centrada na análise da opinião pública. Seu estudo se dedicava a entender como a opinião da população poderia estar vulnerável a manipulações. Esse silenciamento ’em cadeia’ ocorreria porque as pessoas têm medo do isolamento e de possíveis reações exageradas de opositores.

(Foto: Arquivo/Luiz Nascimento)

Sobre as relações entre a teoria da espiral do silêncio e o cenário político atual, o sociólogo Luiz Nascimento afirmou ao Portal AM1 que, por se tratar de uma teoria nascida na década de 70, precisa ser contextualizada aos moldes da nova geração. E que em situações no ambiente cibernético, esse ‘medo’ pode ser um fato determinante para a expressão ou não de uma opinião.

“A teoria da Espiral do Silêncio, de Elizabeth Neumann, tem uma datação importante: é da década de 70, quando a mídia era centrada na televisão, no rádio e nos jornais. Se tentarmos pensar essa teoria, hoje, ela ainda faz algum sentido, na medida em que existe uma juventude suscetível ao cancelamento digital”, analisa.

Para que a esquerda retome com esse poder de mobilização, que possuía anteriormente, é necessário construir uma pauta coletivamente, observa o sociólogo Antônio Nascimento.

“Como você faz para mobilizar massas populares na rua? É necessário ter pautas transversais, concretas e objetivas. Por exemplo, os últimos protestos de massa que realizamos em Manaus ocorreram no governo Bolsonaro, quando ele ameaçou cortar bolsas de estudantes, financiamento de universidades e fazer uma reforma da previdência. Esses são temas muito grandes e amplos, que conseguem abarcar negros, gays, idosos, jovens, estudantes e professores, formando um corpo coletivo que vai para a rua”, explica Nascimento.

Ausência da Esquerda

A jornalista e cientista política, Liege Albuquerque, acredita que uma esquerda performática e com menos foco no trabalho de base, contribuíram para a ascensão da extrema direita e do conservadorismo no Brasil.

“Para a vitória de Bolsonaro, houve uma brecha no trabalho de base da esquerda, por onde se enraizaram notícias falsas propagadas por redes sociais. O trabalho da esquerda para recuperar o tempo perdido nesse mais forte cabo eleitoral que temos, as redes sociais, é notório nas candidaturas Brasil afora, com humanização crescente de políticos pré-candidatos como Marcelo Ramos e Boulos, em São Paulo”, destaca Liege.

Entretanto, o sociólogo Luiz Nascimento aponta que ascensão da extrema direita não se limita apenas ao Brasil, e taxar fenômeno apenas com a ausência da esquerda é uma definição ‘simplista’ e a categoriza como ideia ‘produzida por liberais de gabinete’. “A extrema direita não foi para a rua porque a esquerda não está na rua. A extrema direita está indo para rua porque tem milhões de reais sendo mobilizados, operando na captação dessas forças”, avalia Nascimento.

 

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