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Manaus, 23 de julho de 2026
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Manaus, 23 de julho de 2026

Cenário

Disputas por terra lideram conflitos rurais no Amazonas em 2025

Das 98 ocorrências registradas pela Comissão Pastoral da Terra, 89 tiveram como causa conflitos fundiários que atingiram quase 24 mil famílias.

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(Foto: Divulgação)

Manaus (AM) – A violência no campo continuou afetando milhares de pessoas no Amazonas em 2025, mesmo com a redução no número de ocorrências registradas. Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), durante o lançamento do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, apontam que 98 conflitos rurais atingiram 116.415 pessoas de 23.963 famílias ao longo do ano. As disputas por terra permaneceram como a principal causa dos casos, tendo povos indígenas e posseiros entre os grupos mais afetados.

Em comparação com 2024, quando foram registrados 132 conflitos, houve queda de 25,7% no número de ocorrências. Para a CPT, no entanto, a redução não representa necessariamente uma melhora na realidade enfrentada pelas comunidades rurais, já que o impacto social e a violência continuam elevados.

Os povos indígenas aparecem como o grupo mais atingido, envolvidos em 42 conflitos. Em seguida estão os posseiros, com 31 ocorrências. Segundo o relatório, os fazendeiros foram apontados como os principais responsáveis pelas tensões, citados em 42 casos. Também aparecem empresários (18), governo federal (10), governo estadual (5), além de madeireiros, mineradoras e garimpeiros.

Durante a apresentação do levantamento, a integrante da CPT da Prelazia de Itacoatiara, Sara Negreiros Nascimento, afirmou que os números representam vidas marcadas pela violência.

“Os dados que estão expostos em formato de estatística não são apenas números. São mártires da caminhada. Cada número representa alguém”, declarou.

Disputas por terra concentram a maior parte dos conflitos

Dos 98 conflitos registrados no estado, 89 tiveram origem em disputas por terra, atingindo 23.963 famílias.

Entre as principais formas de violência identificadas pela CPT estão as ameaças de expulsão, registradas em 31 casos, além de ações de pistolagem, invasões de territórios, desmatamento para descaracterização de áreas e omissão ou conivência de autoridades públicas, apontadas em 17 ocorrências.

O relatório também contabilizou 36 vítimas de violência direta contra a pessoa, incluindo casos de agressão, ameaças e tentativas de assassinato. Dois posseiros morreram em decorrência dos conflitos nos municípios de Boca do Acre e Lábrea.

A maior concentração dos conflitos ocorreu no Sul do Amazonas e na região do Alto Solimões.

Os municípios com maior número de registros foram:

  • Boca do Acre – 38 conflitos;
  • Lábrea – 10;
  • Benjamin Constant – 5;
  • Manaus – 5;
  • São Paulo de Olivença – 5;
  • Jutaí – 4.

Conflitos pela água aumentam impacto sobre famílias

Embora o número de conflitos relacionados ao acesso à água tenha caído de dez para sete entre 2024 e 2025, o número de famílias afetadas aumentou significativamente.

Segundo a CPT, 5.100 famílias foram atingidas em 2025, alta de 165,9% em relação às 1.918 registradas no ano anterior.

Os conflitos estão ligados principalmente à poluição dos rios, contaminação por minério, pesca predatória e restrições de acesso aos recursos hídricos.

Trabalho escravo em garimpos ilegais

O levantamento também identificou dois casos de trabalho escravo rural no Amazonas durante 2025.

As operações de fiscalização resultaram no resgate de 25 trabalhadores nos municípios de Borba e Maués. Conforme a CPT, todos os casos estavam relacionados à exploração em garimpos ilegais de ouro.

Entidade alerta para falsa sensação de redução

Para a coordenadora nacional da Comissão Pastoral da Terra, Maria Petrolina Neto, a diminuição no número de conflitos não deve ser interpretada como uma redução da violência no campo.

“A gente percebe que houve uma redução das ocorrências, mas um aumento no número de assassinatos. Isso pode ser o retrato de uma falsa redução, na verdade fruto de um recuo das comunidades diante de tanta violência”, afirmou.

O arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, também destacou a importância do relatório para dar visibilidade às populações afetadas.

“Quando nós lemos esses documentos, nós não estamos lendo apenas papéis, estamos lendo vidas. Vidas que foram silenciadas, mas que tornamos audíveis e visíveis através desses relatórios”, declarou.

Apesar da redução no número de ocorrências em relação ao ano anterior, o relatório reforça que os conflitos fundiários e a disputa por recursos naturais continuam sendo um dos principais desafios para as comunidades rurais do Amazonas, especialmente em áreas marcadas pela expansão do desmatamento, do garimpo ilegal e da pressão sobre territórios tradicionais.

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