(Foto: Maxwell Oliveira e Luiz Albuquerque (drone) Implurb)
Manaus (AM) – As condições de mobilidade urbana em Manaus contribuem para ampliar desigualdades sociais ao impor maiores custos de tempo e acesso a oportunidades para moradores das áreas periféricas. A avaliação foi feita pelo doutor em Engenharia de Transportes Geraldo Alves durante entrevista ao programa Cenário Político, do Portal Amazonas 1, divulgada em 11 de junho.
Segundo o especialista, a distribuição espacial da população e a forma como o sistema de transporte coletivo foi estruturado ao longo do tempo produzem impactos distintos entre os moradores das regiões centrais e os que vivem mais afastados.
Alves afirmou que essa relação entre transporte e desigualdade social é um tema que estuda há anos e que já foi objeto de pesquisas desenvolvidas por ele.
Tarifa única e expansão da periferia
Durante a entrevista, o professor explicou que o modelo de tarifa única adotado no transporte coletivo permite que passageiros percorram distâncias diferentes pagando o mesmo valor. Segundo ele, esse mecanismo contribuiu para a expansão das áreas periféricas ao tornar possível que famílias de menor renda buscassem moradia em regiões mais distantes da cidade.
“Uma pessoa que entra no ônibus na Praça 14 para ir para o Centro paga o mesmo preço de uma pessoa que entra no Centro para ir para a Cidade de Deus”, afirmou.
Na avaliação de Alves, o sistema acabou funcionando como uma forma de compensação para a população de baixa renda, que geralmente encontra terrenos e moradias mais acessíveis nas áreas mais afastadas.
Menos acesso às oportunidades
O especialista destacou que as principais oportunidades oferecidas pela cidade permanecem concentradas nas regiões centrais. Segundo ele, serviços públicos, escolas, unidades de saúde, opções de qualificação profissional e oportunidades de emprego tendem a estar mais próximos dos moradores dessas áreas. “As oportunidades da cidade estão mais nas áreas centrais”, disse.
Alves afirmou que quem reside na periferia precisa enfrentar deslocamentos mais longos para acessar esses serviços, o que gera impactos diretos na rotina e na qualidade de vida.
Tempo gasto em deslocamentos
Outro fator apontado pelo professor é o tempo consumido diariamente nos trajetos entre casa, trabalho, estudo e demais atividades.
Segundo ele, moradores das áreas periféricas dedicam parte significativa do dia aos deslocamentos urbanos, reduzindo o tempo disponível para lazer, qualificação profissional e convivência familiar.
“Uma boa parte do dia é tomada com esses deslocamentos”, afirmou.
De acordo com Alves, moradores das áreas centrais conseguem acessar diversos serviços e atividades com maior facilidade, enquanto quem vive mais distante enfrenta custos adicionais de tempo e deslocamento.
Ciclo de desigualdade
O especialista avaliou que a localização da moradia pode influenciar diretamente as possibilidades de ascensão social.
Segundo ele, famílias de baixa renda costumam migrar para áreas periféricas em busca de custos habitacionais menores, mas acabam ficando mais distantes das oportunidades oferecidas pela cidade.
“As pessoas pobres vão para a periferia porque são pobres e vão continuar, às vezes, mais pobres porque foram morar na periferia”, declarou.
Para Alves, essa dinâmica representa uma das principais desigualdades produzidas pela organização do espaço urbano.
Impactos na segurança pública
Durante a entrevista, o professor também relacionou a questão da mobilidade aos problemas de segurança pública.
Segundo ele, moradores das áreas periféricas estão mais expostos a situações de vulnerabilidade e convivem com desafios que não atingem da mesma forma os residentes das regiões centrais. “As atrocidades são mais fortes nas áreas mais periféricas”, afirmou.
Alves defendeu que a discussão sobre mobilidade urbana deve considerar não apenas os deslocamentos, mas também os efeitos sociais produzidos pela forma como a cidade está organizada e pela distribuição desigual de serviços e oportunidades.
LEIA MAIS:





