(Foto: Reprodução)
Manaus (AM) – O segundo debate entre os candidatos à Prefeitura de Manaus, promovido pela TV Norte Amazonas na manhã desta segunda-feira (26), foi marcado por uma intensa troca de acusações e pela falta de foco em propostas. Em vez de oferecer um panorama detalhado sobre seus planos para a cidade, os candidatos se concentraram em ataques pessoais.
Ouvindo pelo Portal AM1, o professor, sociólogo e cientista político Luiz Antônio destacou o despreparo de grande parte dos candidatos. Segundo o especialista, apenas Wilker Barreto e Marcelo Ramos se destacaram positivamente, demonstrando um entendimento mais profundo dos problemas da cidade e apresentando propostas com encaminhamentos mais claros.
Para Luiz Antônio, os demais candidatos se revelaram insuficientemente preparados para a disputa pela prefeitura, sugerindo que poderiam se sair melhor em uma vaga de vereador.
“Com exceção de Wilker Barreto e Marcelo Ramos, os demais candidatos são muito fracos do ponto de vista da apropriação do problema urbano. Eles poderiam ser, talvez, candidatos a vereadores, mas não candidatos a prefeitos da cidade de Manaus. Alberto Neto, Amom Mandel e Gilberto Vasconcelos são, a meu ver, candidatos muito fracos. Eles não têm um acúmulo de discussão sobre o problema da cidade. Problemas que são complexos, mas que têm soluções relativamente simples”, frisou.
Outro ponto destacado por Luiz Antônio é a promessa de combater a corrupção como solução para problemas como a alfabetização. O especialista considera essa visão simplista e desinformada e sugere que a verdadeira solução envolve ações mais concretas, como a valorização dos professores, a melhoria das condições nas escolas e a contratação de estagiários e assistentes para as primeiras séries. Além disso, Luiz Antônio ressaltou que problemas urbanos complexos, como o ordenamento urbano e a regularização fundiária, têm soluções bem tratadas pelo Estatuto da Cidade. Ele acredita que um projeto mais emancipador e focado em soluções práticas é necessário para enfrentar os desafios de Manaus de maneira eficaz.
A crítica se estende à falta de propostas concretas apresentadas pelos candidatos. Luiz Antônio observou que muitos deles, especialmente os deputados federais, têm se apoiado em discursos superficiais e estratégias de marketing voltadas para redes sociais, em vez de apresentar soluções efetivas para os desafios enfrentados pela cidade.
“É uma preocupação muito irresponsável querer fazer falas lacradoras, aquelas que vão gerar bons cortes para as redes sociais. É espantoso que dois deputados federais não sejam capazes de formular proposições simples para os problemas da cidade de Manaus. E aí ficam com um discurso raso, dizendo que, se combaterem a corrupção, os problemas da cidade serão resolvidos. Isso não é verdade. O problema da cidade não é corrupção; o problema da cidade é um projeto emancipador”, pontua.
Destaques do debate
Marcelo Ramos, de acordo com Luiz Antônio, conseguiu identificar os problemas urbanos e sugerir soluções adequadas. No entanto, o especialista aponta que Ramos ainda precisa detalhar melhor as fontes orçamentárias para viabilizar suas propostas, como o fortalecimento da educação infantil por meio de recursos municipais. Luiz Antônio enfatiza que, embora a proposta seja essencial, falta a indicação precisa das origens desses recursos.
Por outro lado, Wilker Barreto se destacou pela discussão abrangente sobre questões orçamentárias, mas Luiz Antônio critica a abordagem de Barreto, que, segundo ele, ficou limitada às restrições orçamentárias. Barreto frequentemente afirmou que a falta de orçamento inviabiliza certas ações. Luiz Antônio refuta essa visão, argumentando que o município pode, sim, contrair empréstimos para iniciativas importantes, como a contratação de estagiários docentes e a redução da violência e do analfabetismo.
Troca de farpa atrapalham propostas
O debate foi marcado por um clima de hostilidade, com os candidatos se atacando com termos como “marionete do governador”, “migué da política” e “garoto mimado”. Alberto Neto iniciou o debate com um ataque direto a Roberto Cidade, chamando-o de “marionete do governador” e criticando a postura dos outros candidatos e do atual prefeito, David Almeida, que não compareceu ao debate.
Amom Mandel acusou Marcelo Ramos de mentir sobre as obras do governo federal e, por sua vez, foi acusado por Marcelo de ser agressivo. Ramos ressaltou que Amom nunca destinou um real para a cidade de Manaus. Amom também fez uma provocação a Wilker Barreto, sugerindo que sua candidatura seria apenas uma fachada para apoiar Roberto Cidade, inclusive mostrando uma laranja e dizendo que a entregaria ao adversário no final.
Por sua vez, o deputado estadual e candidato pelo Mobiliza ironizou Amom Mandel e disse que ele é “danado para não concluir projetos”. A alfinetada é pelo fato de Amom não ter completado seu mandato anterior como vereador antes de assumir o cargo de deputado federal. Já Roberto Cidade disse que Amom é um “migué” da política amazonense.
No show de ofensas, Alberto Neto chamou Amom de “garoto mimado” no último bloco de perguntas e respostas. O debate também foi marcado por pedido de direito de resposta.
Para a professora Maria Leonice, de 49 anos, que trabalha há mais de 10 anos na rede municipal de ensino, a falta de propostas e o foco em ataques pessoais não apenas desviam a atenção do público dos temas importantes, mas também contribuem para um ambiente de desconfiança em relação à política.
“O que vemos é um espetáculo que transforma o debate em um circo, onde o público assiste não para ouvir soluções, mas para ver brigas e trocas de farpas. Queremos propostas para solucionar problemas como na educação da cidade. Professores precisam ser valorizados e cadê as propostas para isso?”, questionou.
Na avaliação de Luiz Antônio, é crucial distinguir entre dois tipos de críticas: as construtivas e as pessoais. O cientista político argumenta que é completamente legítimo, e até necessário, no debate público, destacar e criticar atos e decisões dos candidatos.
“Por exemplo, quando se fala, ‘Olha, Alberto Neto, você é um bolsonarista que votou protegendo os candidatos do Bolsonaro’, ou ‘Amom, você mandou dinheiro para o governo do estado e para a universidade, mas não para a prefeitura’. Isso não é briga, isso não é confusão, isso é denunciar as mazelas e as escolhas políticas de cada um deles. Isso faz parte do jogo democrático”, afirma.
No entanto, Luiz Antônio diz que as acusações de caráter pessoal e as ofensas devem ser rejeitadas. Ele observa que tais ataques, que se dirigem à esfera privada dos candidatos, não apenas desvirtuam o debate, como também desagradam aos eleitores. A tendência do público é perder o interesse por esse tipo de confronto, que não contribui para uma discussão produtiva sobre políticas e propostas.
“O eleitor não gosta mais disso. Ele já não tem mais apreço por isso”, frisa.
O cientista político Helso Ribeiro compartilha da mesma opinião. Segundo ele, esse comportamento agrada somente uma parte do eleitorado, aqueles mais fervorosos, que continuarão apoiando seus candidatos independentemente das atitudes. “Esse grupo adora quando um candidato xinga o outro, especialmente quando o candidato deles faz isso. A grande maioria dos eleitores, quando se dispõem a ouvir um debate, quer ouvir as propostas. Portanto, essas ofensas só tiram o foco e descredibilizam a política”, diz.
Participaram do debate os candidatos: Capitão Alberto Neto (PL), Marcelo Ramos (PT), Wilker Barreto (Mobiliza), Amom Mandel (Cidadania), Roberto Cidade (União Brasil) e Gilberto Vasconcelos (PSTU). David Almeida não compareceu.
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