Manaus, 3 de outubro de 2026
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Manaus, 3 de outubro de 2026

Política

Flávio muda discurso sobre caso Master e passa a mirar Moraes

Checagens e documentos mostram mudanças na versão do senador sobre Vorcaro, filme e prestação de contas.

Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes estão no centro da disputa política em torno do caso Master (Foto: Senado Federal e STF)

Manaus (AM) – O discurso do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, passou por diferentes versões desde o avanço das investigações envolvendo o banco e o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

A sequência reúne negativas, posterior admissão de contatos com Vorcaro, promessa de prestação de contas sobre o filme e, mais recentemente, ataques ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Levantamento publicado pelo Aos Fatos em 24 de setembro identificou 43 declarações de Flávio que o site classificou como falsas ou enganosas e apontou cinco estratégias utilizadas pelo senador para se afastar do escândalo. O levantamento foi feito a partir de documentos públicos, reportagens e declarações do próprio candidato. Veja a matéria:

https://www.aosfatos.org/noticias/flavio-mentiu-ao-menos-43-vezes-sobre-envolvimento-com-vorcaro

 

Flávio Bolsonaro é citado em levantamento do Aos Fatos sobre declarações no caso Master (Foto: Aos Fatos/Divulgação)

O caso, porém, não se resume às declarações públicas. Documentos da Polícia Federal tornados públicos pelo STF apontam que Flávio negociou recursos com Vorcaro para Dark Horse e que o senador é formalmente investigado pela atuação relacionada ao financiamento do filme.

Da tentativa de atribuir o Master à esquerda à admissão de contatos

Antes de admitir a relação com Vorcaro, Flávio passou a associar o escândalo do Banco Master ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O argumento ganhou espaço no discurso político do senador, que chegou a repetir a frase “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. Segundo o Aos Fatos, porém, as investigações alcançaram pessoas e instituições de diferentes espectros políticos. O próprio levantamento cita, entre outros casos, fundos previdenciários de governos estaduais que mantiveram recursos no banco.

Em entrevista à imprensa, Flávio usou camiseta ‘O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula!’ (Foto: Reprodução/YouTube)

A relação de Flávio com Vorcaro veio a público de forma mais direta em maio, quando mensagens entre os dois foram divulgadas pelo Intercept Brasil. Inicialmente, o senador negou a existência dos diálogos. Depois, confirmou que havia conversado com o banqueiro, mas sustentou que a relação tinha como objetivo exclusivamente buscar investimento privado para o filme sobre o pai. O argumento continua sendo apresentado por Flávio, mas as investigações posteriores acrescentaram novos elementos à apuração.

PF aponta negociação de milhões para o filme

Relatórios da Polícia Federal divulgados em setembro indicam que Flávio atuava como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações relacionadas a Dark Horse.

Segundo a Agência Brasil, os documentos apontam que Flávio pediu R$ 131 milhões a Vorcaro para a produção do filme e que cerca de R$ 60 milhões teriam sido pagos. A investigação também examina a participação de Eduardo Bolsonaro na articulação dos recursos.

A Folha de S.Paulo também informou, com base nos documentos da PF e da Procuradoria-Geral da República, que Flávio negociava recursos diretamente com Vorcaro e que Eduardo Bolsonaro aparece como gestor de parte do dinheiro relacionado ao filme.

A VEJA publicou uma cronologia baseada nos documentos da investigação e identificou mensagens entre Vorcaro, Flávio e intermediários desde 2024 até novembro de 2025, incluindo cobranças e tratativas relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Confira a linha do tempo das conversas entre Flávio e Vorcaro publicados pela Veja:

https://veja.abril.com.br/brasil/a-linha-do-tempo-das-conversas-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-e-o-financiamento-de-dark-horse

O RAIO-X DOS MINISTROS DO STF (Foto: Revista Veja / Montagem Portal AM1)

“Não havia acusação contra Vorcaro”?

Outro argumento utilizado por Flávio foi o de que, quando manteve contato com Vorcaro, não havia acusações contra o banqueiro. A cronologia apresentada pelo Aos Fatos questiona essa versão. Segundo o levantamento, as conversas entre Flávio e Vorcaro ocorreram em 2025, enquanto informações sobre problemas financeiros do Banco Master já haviam sido divulgadas anteriormente.

O ponto é relevante porque a relação entre o senador e o banqueiro passou a ser analisada dentro de uma investigação mais ampla sobre o Master, e não apenas como uma negociação privada para a produção de um filme. A investigação conduzida pela PF apura possíveis crimes relacionados ao financiamento de Dark Horse. Entre as hipóteses mencionadas nos documentos estão lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Essas hipóteses ainda são objeto de investigação e não equivalem a uma condenação.

O próprio Portal AM1 já havia informado, em setembro, que André Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse. A matéria também registrou que Eduardo Bolsonaro aparece como possível beneficiário de parte dos recursos, segundo a investigação. Confira a matéria:

https://amazonas1.com.br/mendonca-incluiu-flavio-bolsonaro-como-investigado-no-caso-dark-horse

 

A promessa de prestação de contas

Em 19 de maio, depois da divulgação das mensagens com Vorcaro, Flávio afirmou à imprensa que pediria à produtora do filme e ao fundo americano responsável pelos recursos que apresentassem uma prestação de contas detalhada. A promessa era divulgar as despesas relacionadas ao investimento em até 30 dias.

A Folha informou, porém, que a prestação de contas não foi apresentada publicamente nos termos prometidos. Posteriormente, a produtora entregou uma perícia privada, e Flávio passou a tratar o documento como a prestação de contas mencionada anteriormente.

O problema apontado nas reportagens é que a perícia não apresenta ao público o detalhamento completo das despesas, dos fornecedores e dos pagamentos. Além disso, segundo o levantamento do Aos Fatos, o profissional responsável pela perícia não teve acesso aos gastos realizados nos Estados Unidos, que representavam a maior parte das despesas analisadas.

A questão passou a ganhar ainda mais peso porque a VEJA divulgou uma tabela encontrada pelos investigadores com previsão de gastos de até US$ 25 milhões para a produção de Dark Horse, incluindo desenvolvimento, pré-produção, filmagem, pós-produção e despesas administrativas. Confira a matéria:

https://veja.abril.com.br/politica/tabela-obtida-pela-pf-mostra-detalhes-sobre-os-gastos-para-producao-de-dark-horse/?utm_source

 

veja.abril.com.br/politica/tabela-obtida-pela-pf-mostra-detalhes-sobre-os-gastos-para-producao-de-dark-horse (Foto: Revista Veja)

O dinheiro e a investigação sobre Eduardo Bolsonaro

A origem e a destinação dos recursos também passaram a fazer parte da investigação. Em setembro, o ministro André Mendonça homologou a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado como responsável por repasses de dinheiro de Vorcaro ao fundo Havengate, nos Estados Unidos. O fundo é administrado por um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro.

A PF investiga se parte dos valores destinados ao filme teve outra finalidade. Entre as hipóteses está a possibilidade de recursos terem sido utilizados para bancar despesas de Eduardo nos Estados Unidos. Essa é uma linha de investigação. Até o momento, não há decisão judicial estabelecendo que o dinheiro destinado ao filme tenha sido efetivamente utilizado dessa maneira.

O ministro Flávio Dino também determinou o fim do sigilo de material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação sobre possível desvio de emendas parlamentares para o financiamento do filme. O material foi encaminhado à PF para análise.

O foco muda para Alexandre de Moraes

Com o avanço das investigações, o discurso de Flávio passou a concentrar parte significativa dos ataques no ministro Alexandre de Moraes. O tema ganhou força depois da divulgação de mensagens entre Vorcaro e um número atribuído ao ministro. O episódio provocou uma disputa dentro do próprio STF sobre a condução e a extensão das investigações.

O Portal AM1 acompanhou a sessão do STF que analisou a possibilidade de investigação sobre Moraes e registrou que a PF havia identificado contatos entre Vorcaro e um número atribuído ao ministro. Confira a matéria: https://amazonas1.com.br/stf-faz-nesta-manha-sessao-que-analisara-conversas-de-moraes-e-vorcaro/

STF realiza sessão para analisar conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro (Foto: Portal AM1)

A existência de contatos entre Moraes e Vorcaro, contudo, não significa, por si só, que tenha ocorrido irregularidade. As circunstâncias dessas conversas são objeto de apuração e de controvérsia no Supremo. Além de Moraes, outros integrantes da Corte e pessoas ligadas a ministros aparecem nas investigações ou nos documentos divulgados.

O Portal AM1 publicou, por exemplo, que Gilmar Mendes defendeu a identificação de todos os ministros e magistrados citados nas investigações, argumentando que a apuração não deveria se concentrar apenas em Moraes. Confira a matéria:

https://amazonas1.com.br/mendes-quer-identificacao-de-ministros-citados-no-caso-master/?utm_source

Gilmar Mendes defende identificação de ministros citados no caso Master (Foto: Portal AM1)

O escritório da família de Moraes também aparece nos documentos

Outro elemento que ajuda a entender a dimensão do caso é a relação empresarial entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, que tem entre os sócios Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, além de filhos do ministro.

Documento divulgado pelo STF registra contrato de prestação de serviços jurídicos entre o escritório e o Banco Master. Segundo o AM1, o documento previa atuação jurídica e consultoria estratégica, com pagamentos mensais previstos de R$ 3 milhões. O próprio escritório afirmou que uma proposta posterior não foi aceita e que o contrato original foi encerrado com a liquidação do banco. Confira na matéria:

https://amazonas1.com.br/contrato-de-vorcaro-com-barci-previa-atuacao-juridica-e-consultorias/?utm_source

Daniel Vorcaro e contrato com Barci previa atuação jurídica e consultorias (Foto: Portal AM1)

Esse ponto é importante porque mostra que o caso Master envolve diferentes relações entre o banqueiro e integrantes ou pessoas próximas ao STF. A existência dessas relações, isoladamente, não comprova crime ou favorecimento.  Outra frente explorada por Flávio Bolsonaro envolve uma aeronave relacionada ao empresário Daniel Vorcaro.

O senador passou a criticar Alexandre de Moraes após informações sobre uma viagem do ministro em um avião ligado ao banqueiro. Posteriormente, documentos divulgados pela imprensa mostraram que Flávio também utilizou a mesma aeronave em outro voo. Flávio afirma, porém, que os episódios são diferentes. Segundo sua versão, no voo realizado por ele, a aeronave estava vinculada a outro proprietário.

O caso entrou na disputa política em torno do Banco Master e passou a ser usado por lados opostos para questionar a coerência dos argumentos apresentados. O fato documentado é o uso da aeronave; já a interpretação sobre o significado de cada viagem permanece no campo do debate político.

O caso também chegou ao Amazonas

A repercussão do caso Master já alcançou a política amazonense. O levantamento do Aos Fatos registra que o governo do Amazonas, durante a gestão de Wilson Lima, esteve entre governos que mantiveram recursos previdenciários aplicados no Banco Master. O caso também aparece em discussões políticas locais sobre a crise financeira da instituição.

O próprio AM1 publicou matérias sobre diferentes personagens ligados ao caso. Em setembro, por exemplo, o presidente do PL-AM, Alfredo Nascimento, criticou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por uma fotografia ao lado de Vorcaro, mas a publicação também registrou que Flávio havia admitido posteriormente ter visitado o banqueiro. Confira a matéria:

https://amazonas1.com.br/alfredo-cobra-gonet-por-foto-com-vorcaro-mas-nao-cita-visita-de-flavio-ao-ex-banqueiro/?utm_source

 

Alfredo cobra Gonet por foto com Vorcaro, mas não cita visita de Flávio ao ex-banqueiro (Foto: Portal AM1)

Eu transformaria a lista em um texto corrido, mantendo a sequência cronológica e deixando mais jornalístico:

O caso ainda está longe de uma conclusão

Mais do que a disputa política em torno de Alexandre de Moraes, o caso coloca sob escrutínio a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, os recursos destinados ao filme Dark Horse e a forma como as despesas foram justificadas ao longo da investigação.

A divulgação de mensagens e documentos ampliou o conjunto de informações disponíveis, mas não encerra as dúvidas levantadas sobre a origem, a movimentação e a destinação dos recursos. Da mesma forma, a existência de contatos entre os envolvidos não constitui, por si só, prova de crime.

Enquanto novas informações são analisadas pelas autoridades, a principal questão permanece: quais operações financeiras e relações efetivamente estão relacionadas às suspeitas investigadas no caso Master? A resposta dependerá da conclusão das apurações e das decisões das autoridades competentes.