(Foto: Del Lima/ Portal AM1)
Manaus (AM) – O Instituto da Mulher Dona Lindu, localizado na avenida Mário Ypiranga, em Manaus, vem recebendo relatos de pacientes e acompanhantes sobre demora no atendimento e dificuldades no acesso a serviços obstétricos e ginecológicos. As queixas ocorreram nos últimos meses, período em que o hospital passou a ser administrado por uma Organização Social de Saúde (OSS).
Desde novembro de 2024, a unidade está sob gestão da Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (Agir), sediada em Goiânia. O contrato, de R$ 2 bilhões e duração de cinco anos, foi firmado com o Governo do Amazonas e prevê a administração de todos os serviços técnicos, operacionais e assistenciais do hospital.
Relatos de pacientes
O atleta profissional de Jiu-Jitsu Danilo Campos denunciou uma série de falhas e negligências no atendimento à sua esposa, Giovana, durante o parto no Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus. O caso, marcado por demora, descaso e condições precárias, gerou revolta no esportista, que afirma ter se sentido humilhado e desrespeitado.
Segundo Danilo, o casal retornou a Manaus após um período em Campinas (SP) para que o filho nascesse em sua cidade natal. No entanto, ao depender do Sistema Único de Saúde (SUS), o atleta diz ter enfrentado uma realidade decepcionante.
A primeira ida ao hospital ocorreu no sábado, quando Giovana apresentava 3 centímetros de dilatação. Apesar do quadro, ela não foi internada, recebeu apenas medicação e foi orientada a voltar para casa. No domingo pela manhã, já com sangramento intenso, o casal retornou ao hospital. Chegaram às 8h30 e aguardaram horas por atendimento.
Um exame para monitorar os batimentos cardíacos do bebê foi solicitado às 11h23, mas, segundo o pai do bebê, não foi realizado sob a justificativa de falta de leito. Danilo afirma que uma enfermeira mostrou fotos comprovando que havia leitos disponíveis, mas a equipe insistia em negar o acesso. “Subíamos e descíamos o tempo todo, como se fôssemos palhaços”, relatou o atleta.

(Foto: Imagens cedidas por Danilo Campos ao Portal AM1)
Revoltado com a situação, Danilo buscou a ouvidoria do hospital e do 28 de Agosto, mas foi informado de que nenhuma providência poderia ser tomada aos fins de semana. O clima ficou tenso, e ele admite ter se exaltado diante do descaso.
Após insistência de uma enfermeira solidária, o exame foi finalmente realizado. Pouco depois, constatou-se que Giovana já estava com 8 centímetros de dilatação e foi levada às pressas para o setor de parto.
No entanto, segundo o relato, não havia médico presente no momento do nascimento. Apenas uma enfermeira auxiliava o parto, enquanto outra, identificada apenas como funcionária do terceiro andar, ria, usava o celular e se recusava a ajudar, dizendo que a paciente “tinha que aguentar, que era normal”.
O bebê nasceu sem acompanhamento médico, e Giovana sofreu lacerações graves, precisando levar mais de 20 pontos. “Foi desespero. Eu segurava uma perna, a enfermeira segurava a outra. A médica só chegou depois”, contou Danilo.
A médica do plantão, que atendeu o caso posteriormente, pediu desculpas ao casal, reconhecendo que “aquilo não era normal” e que a situação “jamais deveria ter acontecido”.
Na manhã seguinte ao parto, o atleta afirma ter encontrado um carrapato sobre o leito da esposa. Ao reclamar, ouviu de uma funcionária que “é o acompanhante quem deve trocar o lençol”.

(Foto: Imagens cedidas por Danilo Campos ao Portal AM1)
“Fiquei indignado. Como vou cuidar da minha esposa, do meu filho e ainda trocar o lençol do hospital?”, questionou.
Danilo Campos afirma que pretende acionar a Justiça e processar os responsáveis. “Isso não é um erro, é descaso. Minha esposa sofreu, meu filho poderia ter morrido. Não dá para aceitar”, concluiu.
Outros depoimentos
Moradores do município de Novo Airão, que preferiram não se identificar para evitar represálias, relataram com exclusividade ao Portal AM1 situações de descaso e demora no atendimento na unidade, após levarem a nora gestante para atendimento de emergência.
Em entrevista nessa segunda-feira (27), no Instituto da Mulher Dona Lindu, os familiares relataram que a adolescente teria esperado por várias horas antes de ser atendida, mesmo apresentando sinais de sofrimento e pressão alta.
“Chegamos por volta das duas da manhã, e ela só foi atendida às seis. O bebê nasceu às onze horas, após muita espera. Durante todo esse tempo, ela não tomou nada, não recebeu alimentação nem soro. O atendimento foi péssimo”, afirmou a sogra, que estava como acompanhante.
De acordo com a avó do recém-nascido, os familiares também foram impedidos de acompanhar a jovem e de ver o bebê após o parto. “Não deixaram eu e a outra avó entrar. Ela é menor de idade, mas não quiseram permitir a presença de nenhum responsável. Eu só queria ver meu neto”, desabafou.
O avô, que também acompanhava o caso, relatou a demora da equipe médica para atender outros pacientes. “As mulheres chegam gritando de dor, e mesmo assim ficam esperando por horas. Se a criança estiver em risco, o que acontece? Esperam acontecer o pior?”, questionou.
Na mesma linha, a acadêmica de pedagogia Klissia de Souza fez relatos do atendimento do hospital e confirmou que as demoras no atendimento são recorrentes. “Na semana passada, cancelaram uma cirurgia porque os médicos estavam de folga no feriado. Nesse dia, uma moça passou muito mal, gritava de dor e ninguém fazia nada. O atendimento era muito demorado, tinha gestante se sujando e sem receber ajuda”, relatou.
Segundo Klissia, a situação melhorou levemente nos últimos dias, mas ainda há lentidão. “Hoje eu voltei com a minha avó para uma cirurgia. Parece que vai dar tudo certo, mas o atendimento ainda é demorado. Está um pouco melhor do que na semana passada, mas ainda precisa melhorar muito”, completou.
Os relatos apontam para falhas graves no atendimento a gestantes e recém-nascidos, com atrasos, falta de comunicação e ausência de acompanhantes, mesmo em casos envolvendo menores de idade.
Situação da unidade
Segundo o Governo Wilson Lima, o Instituto da Mulher Dona Lindu é referência em obstetrícia, ginecologia e neonatologia no Amazonas. A unidade também oferece serviços de mastologia, UTI adulto e neonatal, exames laboratoriais, Banco de Leite Humano e o Serviço de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual (SAVVIS).
Com a mudança de gestão, o instituto passou a integrar o Complexo Hospitalar da Zona Sul, e o governo estadual afirmou, na época, que o novo modelo traria melhoria na infraestrutura, agilidade no atendimento e modernização de equipamentos.
Em 2024, o contrato foi questionado no Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) por cooperativas médicas que alegavam atrasos em pagamentos e pediram esclarecimentos sobre a execução financeira. O processo segue em análise.
Falta de fiscalização e silêncio oficial
Durante os relatos de denúncias, um dos pacientes afirmou que as tentativas de denúncia junto à ouvidoria do Instituto e da Secretaria de Saúde são ineficazes, especialmente nos fins de semana, quando o canal só recebe reclamações por e-mail.
“Disseram que a ouvidoria não podia fazer nada no sábado ou domingo e que eu devia mandar e-mail para ser respondido na quarta-feira. Isso é um absurdo”, criticou Danilo Campos.
Contexto
O modelo de gestão por Organizações Sociais de Saúde (OSS) é adotado em várias unidades do Amazonas e de outros estados. O formato prevê a contratação de entidades privadas sem fins lucrativos para administrar hospitais públicos, sob metas de desempenho e controle por indicadores.
No caso do Instituto da Mulher Dona Lindu, o contrato da Agir tem validade até 2029 e prevê a execução de todos os serviços médicos, administrativos e operacionais.
Retratação
Em resposta à solicitação do Portal AM1, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) esclareceu que está apurando rigorosamente a denúncia recebida, e que reforça seu compromisso com partos humanizados e seguros, e informa ainda que medidas administrativas e assistenciais já estão em andamento para garantir atendimento digno e de qualidade nas maternidades estaduais.
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