Manaus, 13 de junho de 2024
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Manaus, 13 de junho de 2024

Cidades

Manaus deveria ter o dobro de policiais que tem hoje, diz especialista em segurança pública

Ex-secretário de Segurança Pública fez uma análise sobre o deficit de policiais na capital amazonense, no momento em que servidores reclamam de atraso de 4 anos no pagamento da data-base.

Manaus deveria ter o dobro de policiais que tem hoje, diz especialista em segurança pública

Policiais das forças de segurança do Amazonas em operação (Foto: Geizi Bitencourth SSP-AM e Adauto Cruz Seap)

Manaus (AM) – O especialista em Segurança Pública e ex-secretário do Governo do Amazonas, Walter Cruz, em entrevista ao Portal AM1, realizou um balanço sobre o déficit de policiais em Manaus, no momento em que servidores do setor reclamam de quatro anos de atraso no pagamento da data-base por parte do governo estadual.

Segundo Walter Cruz, estudos comprovam que a capital do Amazonas deveria ter, hoje, ao menos 15 mil policiais atuando na segurança pública; entretanto, a cidade tem apenas 7 mil agentes – o que ressalta a insuficiência, admitida, inclusive, pelo Estado.

“Há um déficit de polícias, para você ter uma ideia, Manaus, hoje, é uma cidade de dois milhões de habitantes. Existem vários cálculos de várias polícias, inclusive, várias conversões. E há avaliação de que Manaus deveria ter, hoje, pelo menos, 15 mil policiais e hoje nós temos sete, então há um déficit realmente”, mencionou.

Ainda segundo o especialista, esse déficit só poderá ser resolvido com concurso público. “Concurso é obviamente o melhor emprego de policiais dentro do planejamento estratégico da polícia”, destacou.

Em Manaus, profissionais (associações e sindicatos de servidores civis e militares) que fazem parte da segurança pública estão acampados em frente à sede do Governo do Amazonas há mais de 20 dias, para reivindicar, principalmente, o pagamento da data-base, que está em atraso há quatro anos. Além disso, eles pedem por concurso público e outras demandas.

Ranking mundial

Manaus faz parte do ranking das 50 cidades mais violentas do mundo, segundo levantamento da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal. Os dados são referentes ao ano de 2023. Pelo estudo, a capital amazonense ocupa a 27º posição.

Manaus no ranking das cidades mais violentas do mundo (Foto: Reprodução)

De acordo com Walter Cruz, esses índices mostram que a segurança pública da cidade de Manaus precisa de um redirecionamento.

“A segurança pública da nossa capital está ruim porque nós temos indicadores, e esses indicadores mostram que a segurança pública da cidade de Manaus e do estado do Amazonas precisa de um redirecionamento, e para isso, é necessário que se tenham ferramentas para você poder reduzir os índices desses indicadores que são colocados. Normalmente, os indicadores são roubos, furto, homicídios, estupros. Esses indicadores são sempre os mais pesquisados e eles estão todos com o percentual muito alto. Acredito que falta redirecionar a segurança pública na nossa cidade e no nosso estado”, destaca.

Sobre a atribuição da polícia na diminuição dos índices de criminalidade na capital do Amazonas, o ex-secretário defende os agentes e frisa um conceito de defesa social. Pois, segundo o especialista, os Poderes do estado precisam estar alinhados.

“A atribuição que eu vejo não é só da polícia para reduzir os índices de criminalidade. Já existe um conceito de Defesa Social no nosso país e isso tem mais de 20 anos; onde todos os órgãos que compõem, não só o Estado, como a prefeitura, Poderes que podem ajudar, se envolvem, traçam possibilidades, traçam planejamentos e fazem com que o Estado possa fazer realmente o planejamento em cima disso com o apoio de todos e a polícia faz parte. Tanto a Polícia Militar, como a Polícia Civil; o Corpo de Bombeiros; departamento de trânsito; Secretaria de Trabalho; Secretaria de ação social; ou seja, vários órgãos colegiados para diminuir”, comentou.

Policiais em órgãos públicos

Um levantamento mostra que Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM); Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam); Ministério Público do Amazonas (MP-AM); Tribunal de Contas do Estado (TCE/AM) e Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), entre outros, têm juntos quase 1.000 policiais militares à disposição para fazer a segurança dessas instituições.

O debate sobre o tema ganhou força na mídia após aprovação de um projeto de lei, de autoria da base governista, que afeta diretamente o benefício concedido ao atual prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), desde que foi governador interino, em 2017, de usufruir de segurança em tempo integral. 

David recrutou, desafiando o presidente da Aleam, Roberto Cidade (União Brasil), a devolver os policiais a serviço da Casa legislativa.

Sobre o efetivo policial atuar na segurança de vários órgãos públicos na cidade, Cruz acrescenta que esse não é o “problema”. Conforme o ex-secretário, devolver 400 ou 500 policiais para as ruas de Manaus não resolveria o problema do déficit. E, embora esses órgãos precisem ter polícia própria, o problema está nas estruturas de serviços, falta de tecnologia, baixo treinamento e falta de ajuste entre as organizações que compõem o estado.

“Em relação à questão do trabalho de policiais em órgãos públicos, eu vejo que isso é uma coisa que tem que ser estudada, não é devolvendo talvez 400, 500 policiais, esses órgãos precisam de policiais, são órgãos que estão na lei. Então tem que ser mudada a lei, tem que ser feito concurso para que esses órgãos tenham as suas polícias orgânicas; mas, por enquanto, há uma lei que prevê esses policiais e, sinceramente, eu não vejo esse o maior problema. Eu vejo o maior problema nas escalas de serviço; eu vejo o problema nos concursos; eu vejo problema na falta de tecnologia; eu vejo problema na falta de treinamento; eu vejo problema na falta de integração com outros órgãos”, defendeu Walter Cruz.

Proposta segurança pública de Manaus

Questionado sobre as propostas mais atualizadas a respeito do tema segurança pública que poderiam ser aplicadas em Manaus, o ex-secretário cita como exemplo a cidade colombiana Medellín, que já chegou a ter mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes e, hoje, é tida como modelo pela redução da violência urbana.

“Nós temos várias cidades no nível de Manaus que resolveram seus problemas com planejamento e com plano de gestão. Medellín foi a cidade do cartel e chegou a ter mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes. Hoje, Manaus está com 53, é um nível muito alto. Nas cidades que têm planejamento, é de 20, 18”, salienta o especialista.

Segundo ele, os “gastos” do poder público não são suficientes para diminuir os indicadores da violência em Manaus. “Há um gasto e o aumento da criminalidade, há um gasto e as facções continuam, então é necessário haver um redirecionamento disso tudo”.

Para o ex-secretário, a segurança pública do estado deveria “olhar realmente quais crimes estão atormentando as pessoas, é homicídio, é o roubo, é o furto, é o estupro, é trabalhar em cima disso, com prioridades”.

Walter Cruz menciona, ainda, quatro “princípios” considerados por ele “fundamentais” para combater a crescente onda de crimes em Manaus: “Tecnologia, que é muito importante, sem tecnologia, não se consegue enfrentar o crime, inteligência policial, buscar e coletar informações sobre o que está havendo nas fronteiras, nas penitenciárias, na cidade, no estado, treinamento, que é fundamental, inclusive mandando os nossos policiais para estados que têm reduzidos índices de crimes e integrar todos os órgãos com as polícias, para reduzir os crimes e integrar também bancos de dados. Conforme o especialista, somente com um plano de gestão seria possível “vislumbrar uma solução para o aumento de crimes” na cidade de Manaus.

 

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