(Foto: Divulgação/CBMAM)
Manaus (AM) – Um incêndio florestal que atinge um trecho da BR-319, entre os quilômetros 20 e 26, na região entre os municípios de Careiro da Várzea e Careiro, já dura mais de três dias e mobiliza uma operação do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). Além do combate às chamas, o avanço do fogo acende um alerta para impactos ambientais que podem permanecer mesmo depois que o incêndio for controlado.
A operação começou no sábado (19) e continuou no domingo (20). Nesta segunda-feira (21), os bombeiros permaneciam no local, sem previsão para o encerramento dos trabalhos. Segundo a corporação, cerca de 100 mil litros de água já foram utilizados na ocorrência.
Ao todo, 23 bombeiros militares e quatro viaturas atuam no combate, incluindo uma equipe enviada de Manaus para reforçar a operação. Cerca de 10 servidores da Defesa Civil Municipal também prestam apoio. Até o momento, não há registro de vítimas ou de imóveis atingidos.
‘Ocorrência de grande complexidade’
Em entrevista ao Portal AM1, a engenheira ambiental Fabiana Rocha avaliou que a duração do incêndio e a quantidade de recursos empregados apontam para uma ocorrência de maior complexidade. No entanto, segundo ela, o volume de água utilizado, isoladamente, não permite concluir que houve falha dos órgãos responsáveis pela prevenção e pelo combate.
A especialista explica que fatores como a extensão da área atingida, o tipo de incêndio, a quantidade de material combustível, as condições do vento, a temperatura, as dificuldades de acesso e até a possibilidade de reignição podem prolongar o combate.
“Uma ocorrência dessa proporção precisa provocar uma avaliação bem mais ampla sobre as estratégias de prevenção e monitoramento existentes na região”, afirmou Fabiana.
Para a engenheira, essa avaliação deve considerar fatores como a presença de vegetação seca ou resíduos, o nível de monitoramento da área, o intervalo entre o início do fogo e o primeiro atendimento, as condições de acesso das equipes e a existência de aceiros.
Ela também destaca a importância de planos de contingência e de uma estrutura operacional adequada para responder rapidamente a ocorrências desse tipo.
Prevenção antes da primeira chama
Fabiana ressalta que o combate é indispensável, mas não deve ser a única estratégia adotada para enfrentar os incêndios florestais.
Segundo ela, ocorrências prolongadas demonstram a necessidade de investir em monitoramento, manejo preventivo e resposta rápida, reduzindo a dependência de ações apenas depois que as chamas já começaram.
“O combate é indispensável, mas a prevenção deve começar muito antes que a primeira chama apareça”, destacou.
Impactos continuam depois do fogo
Mesmo quando o incêndio for controlado, os efeitos ambientais podem permanecer por meses, anos ou até décadas, dependendo da intensidade e da extensão da área atingida, segundo a especialista.
A fauna está entre os elementos mais afetados. O fogo pode provocar mortalidade de animais, destruir abrigos, ninhos e fontes de alimento. Os animais que conseguem sobreviver podem se deslocar para outras áreas, aumentando a competição por alimento e abrigo e, em alguns casos, a possibilidade de conflitos com a população.
No solo, o calor pode destruir microrganismos fundamentais para a ciclagem de nutrientes e reduzir a quantidade de matéria orgânica. O incêndio também pode alterar a capacidade de infiltração da água e deixar a superfície mais vulnerável à erosão.
Com a chegada das chuvas, cinzas e outros contaminantes podem ser carregados para igarapés, ampliando os efeitos do incêndio para além da área diretamente atingida pelas chamas.
Vegetação pode morrer mesmo depois do incêndio
Outro impacto apontado pela engenheira está relacionado à vegetação. A mortalidade das plantas pode ocorrer imediatamente ou aparecer posteriormente.
Árvores que permanecem de pé após o incêndio também podem ter raízes, cascas e tecidos internos comprometidos, tornando-se mais vulneráveis a doenças e novos incêndios.
A recuperação da área, segundo Fabiana, depende da intensidade do fogo, da extensão atingida e das características do ecossistema. Em alguns casos, pode levar meses ou anos; em situações mais graves, décadas.
O problema se agrava quando os incêndios se repetem. Segundo a especialista, a regeneração natural pode ficar comprometida e a área pode passar a ser ocupada por espécies diferentes das que originalmente caracterizavam aquele ambiente.
‘Apagar o fogo é a primeira etapa’
Para Fabiana Rocha, o trabalho não deve terminar com o controle das chamas. Após o incêndio, seria necessário avaliar a área e acompanhar a recuperação ambiental.
Entre as medidas citadas estão o monitoramento da regeneração da vegetação, acompanhamento da fauna, controle de processos erosivos e avaliação da qualidade do solo e da água.
“Apagar o fogo é a primeira etapa. Mas, para que a coisa funcione, a gente tem que recuperar o equilíbrio ambiental, e aí é um trabalho de longo prazo”, afirmou.
A ocorrência na BR-319, portanto, coloca em evidência não apenas o desafio de controlar o fogo, mas também a necessidade de acompanhar os efeitos ambientais que podem permanecer na região mesmo depois que as chamas forem extintas.
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