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6 de março de 2021
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Nos segundos antes de morrer

Numa pandemia mortal em que os bons fluidos e os absurdos da espécie humana estão expostos, deixar de pensar na vida e na morte é impossível

Nos segundos antes de morrer

Por Carlos Santiago*

Sou existência. Tenho liberdade. Sou senhor do meu destino. Estou inquieto. Tenho medo e incerteza. A essência divina não existe. Trago uma solidão de espírito num mundo sem referências determinadas e eternas. Busco construir o meu ser. Saber o que fizemos de nós. Erramos sozinhos e acertamos sozinhos, mas os impactos de tudo cabem a todos. Sigo construindo e derrubando muros. Sigo vítima e algoz, explorador e explorado. Sou escolhas. Tenho milhares de escolhas. A miséria, as guerras e os abusos são do tamanho de nossas escolhas.

A minha existência precede a essência. Sou ser homem, um ser pensante, um ser livre e a vida será aquilo que vou definir. A vida é encanto. Uma mistura de ossos, carnes, nervos, sentimentos, culturas, tempos, mutações, mistérios, frustrações, esperanças e… Quando criança agimos e pensamos que a vida não tem limites, nossa vontade é soberana, mas logo as crenças e valores econômicos e político nos prendem.

Na vida adulta buscamos sempre conquistas, agimos para obter e desprezamos o ser. Na velhice as conquistas não são mais o centro de tudo e compreendemos os limites da vida, muitas vezes, fica o cultivo das frustrações ou realizações de sonhos… Então, para compreendermos a vida na sua essência, ela é a melhor conselheira, uma construção cheia de opções, embora muitos nunca percebam.

Na arrumação de documentos, papéis, fotos que narram um pouco da história de minha existência, ela pode ser dividida em duas partes (pra ser bem econômico): a maior parte da vida foi dedicada ao cumprimento de algumas regras sociais ditas “corretas” como estudar muitas horas, ganhar títulos acadêmicos, dormir e acordar cedo, trabalhar muito como se fosse missão de mundo, não fumar e nem ingerir bebida alcoólica, além de namorar pouco; a outra pequena parte, foi dedicada aos amores impossíveis, diversões culturais e a participação em movimentos sociais que lutavam por um mundo justo e fraterno. Essa parte da vida, saudades.

Numa pandemia mortal em que os bons fluidos e os absurdos da espécie humana estão expostos, deixar de pensar na vida e na morte é impossível. Lembranças e sentimentos povoam a minha mente.

Nos segundos antes de morrer, quero me lembrar dos momentos marcantes da vida. Vou me lembrar da imagem da minha mãe, acordando-me com músicas. Vou me lembrar dos beijos na testa recebidos da minha avó, e de suas sábias palavras. Lembrar-me-ei, também, das lágrimas de vitórias da nossa humilde família e das conversas com amigos.

Lembrar-me-ei do meu amor, minha esposa, do exato instante em que ela me pediu pra vivermos juntos. Não deixarei de pensar na moça que lia a Bíblia pra mim, nem no olhar apaixonado daquela jovem simples que me ofereceu o seu prato de comida. Do canto matinal do pássaro peito-roxo no açaizeiro de casa, eu me lembrarei. Os carinhos da cadela Minie vão estar na lembrança. Das flores que brotam das minhas plantas, não me esquecerei. O cheiro do meu primeiro livro e as manifestações pela democracia estarão presentes.

Partirei somente com as lembranças daquilo que me fizeram realmente feliz.

 

* Sociólogo, Analista Político e Advogado

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