A falta de conhecimento teórico e prático sobre políticas públicas de desenvolvimento socioeconômico e a ausência de informações a respeito da história política do Estado estão refletindo diretamente nos discursos do novo governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), eleito com a votação histórica de 1.033.538 votos. O perfil nem técnico nem político do jornalista preocupa as classes empresarial e política sobre quem de fato será o mandatário do Poder Executivo, nos próximos quatro anos.

Wilson Lima em discurso na Assembleia Legislativa do Estado (ALE)
Produto de um programa popular de televisão, Wilson toma posse do maior cargo público do Estado nesta terça-feira, 1º., às 17h, no Teatro Amazonas, no Centro de Manaus, com a missão de unir grupos antagônicos da Assembleia Legislativa do Estado e obter apoio necessário para fazer as reformas que sua equipe técnica considera importante e aprovar novos projetos para alavancar o desenvolvimento da capital e interior.
‘Enlatados’
Mas a questionável preocupação com a “coisa pública” do novo governador traz à tona o perfil de um governante voltado a frases de efeito e discursos “enlatados” em detrimento da busca por conhecimento e pesquisa sobre as demandas da “máquina” e sobre as reais necessidades da população.
Prova disso foram as constantes repetições em duas ocasiões diferentes da cerimônia de diplomação que ocorreu no último dia 17 dezembro, na sede do Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Aparentando ter decorado um texto “enxuto”, o jornalista novamente abusou da palavra “novo”, usou os mesmos termos da campanha eleitoral e curiosamente repetiu a frase: “A minha presença é a prova mais inconteste ‘da forma’ (corrigiu-se), da força popular…”. Essa expressão foi a mesma usada na coletiva de imprensa após a cerimônia, quando tentava fugir de perguntas específicas.
Veja os vídeos
‘Político não é profissão’
Ainda no discurso de diplomação, chamou atenção a grande gafe cometida por Wilson Lima, quando o governador afirmou que assim como ele, outras pessoas estavam ali com a mesma “profissão”, e que não havia nem um melhor nem pior que o outro, referindo-se a outros detentores de mandato eletivo que venceram o pleito de 2018.
Sob o ponto de vista legal, político não é profissão, segundo o artigo 39, parágrafo 4º, da Constituição Federal. O membro de Poder, o detentor de mandato eletivo, os Ministros de Estado e os Secretários Estaduais e Municipais são remunerados exclusivamente por subsídio fixado em parcela única. Ou seja, não possuem qualquer “vínculo de natureza profissional com o estado”. Uma breve pesquisa no site do Ministério do Trabalho, também, mostra que não há entre as 60 profissões regulamentadas, a de “político” no Brasil.
Últimos governadores
Nos últimos 12 anos, quatro chefes de Executivo do Amazonas que assumiram o cargo, por meio do processo de democrático, buscaram passar nos discursos de posse o que a população e a imprensa poderiam esperar de suas gestões.
Quando assumiu seu segundo mandato de governador em 2007, Eduardo Braga (MDB) fez um longo discurso sobre o balanço de sua gestão anterior e apresentou promessas de obras, entre elas a Ponte Rio Negro, inaugurada na administração de seu sucessor, o senador Omar Aziz (PSD).
Omar, no discurso de posse em 2011, foi na contramão do então aliado, e disse que o seu governo priorizaria “as pessoas”. Além de relacionar projetos sociais, prometeu priorizar o combate à criminalidade com o programa Ronda no Bairro, que foi iniciado dez meses depois.
Com mais de 30 anos de experiência em Educação, José Melo (Pros) apostou, em 2015, no discurso voltado ao segmento que tinha conhecimento. Entre as primeiras frases de seu discurso, que durou mais de uma hora, ele disse que seria “por meio da educação que haveria de construir um Amazonas ainda mais promissor e desenvolvido”. Melo foi cassado em maio de 2017, por compra de votos.
Substituto de Melo, Amazonino Mendes (PDT) fez um discurso rápido de posse, em outubro de 2017, tendo como momento ápice a frase: “Amazonino não se sente governador. Amazonino se sente um escravo do povo”, disse, na época, o político ao assumir seu quarto mandato.
Não é o conteúdo do discurso que fará de Wilson Lima um bom governador, mas se continuar a demonstrar superficialidade sobre questões relacionadas à máquina pública poderá ser governado ao invés de governar.





