Guerra entre facções está ligada a quase 60 mortes no bairro Compensa
22 de outubro de 2020
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Guerra entre facções está ligada a quase 60 mortes no bairro Compensa

De janeiro a agosto deste ano, o confronto entre membros de facções criminosas já deixou um saldo de 58 pessoas mortas no bairro

Guerra entre facções está ligada a quase 60 mortes no bairro Compensa
Keverton da Silva Lucas, 16, foi jogado de um carro com vários tiros na avenida Brasil (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

A violência no bairro Compensa, na zona Oeste de Manaus, tem provocado medo, tristeza e indignação entre os moradores. De janeiro a agosto deste ano, o confronto entre membros de facções criminosas que disputam pontos de drogas, já deixou um saldo de 58 pessoas mortas no quarto bairro mais populoso da capital. Os casos mais recentes na escalada da criminalidade foram registrados em um intervalo de quatro dias. 

Jeferson foi executado com quase 20 tiros (Foto: Josemar Antunes/Portal Am1)

Na noite de quinta-feira (13), o adolescente Jeferson Soares Nogueira, 17, foi executado com quase 20 tiros na rua das Pedreiras. Quatro homens apontados como integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) foram presos pela autoria do crime quando tentavam fugir em um carro Fiat Mobi, de cor vermelha, de placa NAU-9605. Com eles, policiais militares apreenderam um revólver calibre 38 e três celulares.

Outra vítima recente do conflito foi o repositor de mercadorias Warlerson Gomes Barbosa, 23. O crime ocorreu na noite do dia 9 de agosto, por volta das 20h, no beco Pantanal. Segundo informações da polícia, o jovem foi morto com oito tiros – após receber uma ligação misteriosa. À polícia, os familiares relataram que o jovem não era envolvido com crimes e teria sido morto por impedir a morte de um traficante do bairro. 

Warlerson Gomes Barbosa, 23, foi executado com oito tiros (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

O motivo do assassinato ainda é desconhecido pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), porém, há indícios de acerto de contas, já que o bairro está dominado pelo tráfico de drogas e pela violência da guerra entre facções. Em oito meses, a disputa por território produziu um rastro de mortes nas três etapas da região.

Erasmo Carlos Olegário Gomes, 39, foi morto na rua Olavo Bilac, no mês mais violento (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

No primeiro mês do ano, cinco mortes foram registradas no bairro Compensa. O mês mais violento foi fevereiro – com 12 mortes – seguido por maio que registrou 11. Já em março – 6 pessoas foram assassinadas, sendo 7 em abril, 6 em junho, 8 em julho e 3 nos 15 dias de agosto.

Além da violência nas ruas, que em sua maioria, figuram jovens e adolescentes, a “guerra” entre as facções também se estende pelas redes sociais. Em um dos perfis, integrantes da Família do Norte (FDN) exaltam o conselho da cúpula com a chegada de mais membros e reforços de uma aliança com o Terceiro Comando Puro (TCP), facção criada em 2002 para diminuir o poderio do CV.

Traficantes exibem armas e trocam ofensas pelas redes sociais (Foto: Reprodução)

Um dos trechos diz: “Como prometido, a voz número 1 já está em Manaus e que a opressão acabou, pois os sistemas estão balançando e que os ratos de fora não irão colocar o queixo na cidade”. O recado citado se refere aos integrantes do CV, de origem carioca e que vem controlando vários bairros da capital, inclusive, tentando tomar as bocas de fumo da rival FDN.

Em outro trecho, eles avisam que a FDN está em toda a região Norte e manda na capital. O grupo ainda manda recado ao ter conhecimento que Pâmela Nunes Pereira, esposa de Gelson Lima Carnaúba, pede permissão do conselho do CV para executar membros da FDN. Com palavras de baixo calão, a mensagem diz: “Se mexer com a nossa família, vai acontecer o mesmo com vocês. A guerra se ganha na bala. Quem traiu vai pagar também, mas já sabemos quem são os culpados. A FDN voltou com todo o vapor. A tropa do vovô vai te pegar”.

Facções

Wallemberg Vieira Bello, 31, foi morto no beco da Paz (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

Enquanto o CV tenta o controle total do bairro Compensa, com resistência forte dos fiéis do narcotraficante José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, que está preso em um sistema de segurança máxima, quem também comprou a briga foi o Primeiro Comando da Capital (PCC), com base em São Paulo.

Fabrício Soares Duarte, 26, foi executado enquanto bebia com amigos na rua L1 (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

Segundo uma fonte policial, que preferiu não se identificar, Felipe Batista Ribeiro, mais conhecido como “Anjinho”, um dos líderes da facção paulista no Amazonas, tomou o bairro do Céu, que tinha como gerência Marcelo Frederico Laborda Júnior, vulgo “Marcelinho”, da FDN, preso na operação “Guará”, desencadeada pelo Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), em julho do ano passado.

“O bairro do Céu era dominado pela FDN. O CV tentou, por várias vezes, assumir as bocas de fumo mais antigas na zona Sul de Manaus, mas não conseguiu. O PCC foi ao local e conseguiu a região após vários ataques. O último dos soldados do Marcelinho, o João Menor, fugiu do local, onde morreu um venezuelano identificado como Jose Manuel Días Cordeiro, 25. O crime ocorreu no dia 28 de julho, no beco das Flores”, disse.

Gilson da Silva Evangelista, 27, foi assassinado na rua Oscar Borel (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

A fonte ressalta, ainda, que o CV estava certo pelo domínio do tráfico no bairro Compensa e chegou a comemorar o triunfo. No entanto, a organização foi percebendo que os soldados estavam morrendo. Por outro lado, o PCC aproveitou a fragilidade do CV e FDN para entrar na disputa.

No cenário de extrema competição por território, os moradores são testemunhas de pessoas que perdem suas vidas praticamente todos os dias. Com a guerra no bairro Compensa, “soldados” das três facções criminosas estão morrendo. Alguns “soldados” da FDN, segundo informações, migraram para o CV e PCC.

“Nessa guerra todos viraram inimigos e não se sabe quem vai ficar com o bairro Compensa. O serviço de inteligência já sabe que o Zé Roberto mandou recado para traidores da FDN que viraram CV na zona Sul. Os que eram inimigos do CV, agora são amigos e soldados da facção”, finaliza fonte ao Portal AM1.

Traficantes

Facções brigam pelas bocas de fumo e marcam territórios (Foto: Josemar Antunes/Portal Am1)

A transferência de 15 traficantes do alto escalão da FDN, de presídios federais para as unidades prisionais do Amazonas, no dia 16 de julho, causou tensão entre os detentos. Grupos rivais, que disputam poder nos bairros, têm influência atrás das grades.

Apesar das medidas adotadas pela Secretária de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), em conjunto com a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), a população teme por confrontos tanto nos presídios quantos nas ruas de Manaus. A maior parte das unidades carcerárias tem domínio do CV.

Em oito meses, 57 pessoas foram assassinadas no bairro Compensa (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

O empresário Aldair Pinheiro, 53, relatou ao Portal AM1 que a precariedade do sistema prisional do Estado e a fraqueza da legislação penal são fatores que agravam, ainda mais, a situação da violência entre traficantes.

“A ineficiência das forças de segurança em combater a criminalidade, infelizmente, contribui para as mortes dentro e fora dos presídios. As bocas de fumo espalhadas pelo bairro Compensa, que operam como verdadeiras empresas, onde os traficantes se organizam de forma hierárquica, garantem a distribuição e o recrutamento para as facções. Nessa acirrada disputa, que envolve traficantes trocando tiros com a polícia e grupos rivais, pessoas inocentes acabam morrendo”, comentou o morador.

Segurança

Policiais civis da DEHS investigam os crimes (Foto: Josemar Antunes/Portal AM1)

Conforme os dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), há mais de uma semana, o primeiro semestre de 2020 apresentou redução de 3% nos casos de homicídios dolosos na comparação com o mesmo período do ano passado na capital. O órgão destacou, ainda, prisões de 247 pessoas acusadas de terem cometido assassinatos.

O titular da pasta, coronel Louismar Bonates, afirmou que o resultado apontado no indicador de criminalidade reflete na implementação da política de Segurança Pública determinada pelo governador Wilson Lima.

“Os números são reflexos do trabalho de ações conjuntas das polícias Civil e Militar nas ruas, com trabalhos da Inteligência e apuração das denúncias feitas pela população, por meio do 181 – o disque-denúncia da SSP-AM. Mesmo durante o período acentuado de isolamento social, por causa da pandemia do novo coronavírus, o sistema de segurança reforçou o policiamento nas ruas para reduzir índices da criminalidade”, concluiu Bonates.

Mesmo com a desconfiança da população, que nesse ir e vir de violência, acaba por viver temerosa, as autoridades policiais estão monitorando os integrantes de facção e realizando operações para evitar confrontos em vários bairros de Manaus, em especial, o bairro Compensa.

Especialista

O tenente-coronel Ubirajara Rosses, especialista em Inteligência de Estado e de Segurança Pública, Recursos Humanos, Criminologia e Proteção de Autoridades e Contraterrorismo, diz que esses conflitos entre facções ocorrem, principalmente, por conta da fragilidade da segurança pública.

“A inércia da segurança pública facilita os grupos criminosos a produzirem suas ações, numa guerra travada para controlar os pontos de drogas. Após crise interna na FDN, muitos integrantes migraram para outras facções, causando mortes nas ruas sem ter qualquer obstáculo das forças de segurança. Dia após dia, a violência cresce e pode se estender nos presídios”, avaliou.

O especialista fez lembrar que diversos estudos têm apontado que o crime organizado, no “modo facções”, tem se fortalecido com a conivência e condescendência de pessoas “ligadas” ou que tem “trânsito” junto ao Sistema de Segurança Pública.

Por outro lado, Rosses afirma que, a transferência de traficantes do alto escalão da FDN não tinha necessidade e foi ato suicida para possíveis confrontos nos presídios. “Já tivemos exemplos que liderança de facção que tinha até suite em uma cela. Isso mostra o total desrespeito com a sociedade e coloca risco para novos massacres. A transferência de lideranças pode sim causar, com mais intensidade, ataque nas ruas também. Não acredito nos números que mostram uma redução de homicídios, pois o que se vê, diariamente, são moradores temerosos por conta de tantas mortes. É preciso prevenir o crime com uma gestão competente, tanto no sistema penitenciário quanto na segurança pública”, finaliza com exclusividade ao Portal AM1.

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