Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Rebaixamento de escola com enredo sobre Lula vira munição ideológica na direita amazonense

Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro tratam derrota de Acadêmicos de Niterói, do Rio de Janeiro, como vitória política e pedem devolução de recursos públicos.

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(Foto: Reprodução /Redes Sociais/ @RioCarnaval/ @NiteroiPref)

Manaus (AM) – O rebaixamento da escola de samba Acadêmicos de Niterói no Carnaval 2026 do Rio de Janeiro foi comemorado por parlamentares da direita conservadora do Amazonas, que usaram as redes sociais para associar o resultado à escolha do enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Deputados e vereadores do PL no Estado classificaram o desfile como “campanha antecipada”, “desrespeito à família brasileira”.

A escola, estreante no Grupo Especial, levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narrando a trajetória do presidente da infância ao retorno ao Palácio do Planalto.

O desfile incluiu referências ao PT, críticas e sátiras a adversários políticos, elementos que acirraram o debate antes mesmo da apuração. Ao fim, a agremiação ficou em último lugar, recebeu apenas duas notas 10 e enfrentou problemas nos quesitos evolução e dispersão, sendo rebaixada para o Grupo de Acesso.

Comemoração de aliados de Bolsonaro

Nas redes sociais, o vereador Raif Matos declarou: “Escola de samba que criticou valores da família conservadora cristã é rebaixada no Carnaval do Rio.” Para ele, o resultado seria reflexo direto da repercussão negativa do enredo. Ao concluir que “no carnaval, quem decide são as notas”, o parlamentar, no entanto, reforçou a ideia de que a punição teria sido também simbólica.

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)

Já o vereador Capitão Carpê foi além e questionou se o rebaixamento teria sido “merecido”, afirmando que a escola “debochou da família brasileira em um show de desrespeito”. Em tom ainda mais incisivo, defendeu que a agremiação devolvesse o dinheiro público investido no desfile: “Agora o mínimo seria devolver o dinheiro público que usaram pra fazer essa palhaçada. Acho é pouco!”

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)

O deputado federal Alberto Neto também comemorou o resultado. “Rebaixada. último lugar! A ‘homenagem’ a Lula foi um desastre total. Terminou combinando com o homenageado”, publicou. Antes mesmo da apuração final, ele já havia classificado o desfile como “campanha antecipada”, afirmando que “escolha errada cobra preço”. Após o resultado, acusou a escola de levar “ódio para a avenida” e de destruir “a beleza do carnaval”.

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)

Arte, política e oportunismo

A reação dos parlamentares amazonenses escancara como o Carnaval, tradicional espaço de crítica social, sátira e posicionamento político, segue sendo tratado como campo de batalha ideológica. Ao comemorar o rebaixamento como se fosse derrota eleitoral, os políticos transformaram um resultado técnico, baseado em critérios como harmonia, evolução e enredo, em instrumento de disputa partidária.

Historicamente, a Sapucaí sempre foi palco de narrativas políticas, denúncias sociais e homenagens a figuras públicas. A tentativa de reduzir o resultado exclusivamente à escolha do homenageado ignora fatores técnicos apontados pelos jurados e simplifica um processo complexo que envolve desempenho artístico, organização e execução.

Também chama atenção o discurso sobre devolução de recursos públicos, frequentemente utilizado como retórica punitiva quando manifestações culturais desagradam determinado grupo político. A lógica sugere que financiamento público à cultura estaria condicionado à concordância ideológica, um precedente que coloca em xeque a liberdade artística.

“Quanto vale entrar para a história?”

Minutos após a confirmação do rebaixamento, a Acadêmicos de Niterói reagiu com uma provocação nas redes sociais: “Quanto vale entrar para a história?” A pergunta sintetiza o embate. Para críticos, o desfile foi um erro estratégico. Para defensores, foi um posicionamento artístico que assumiu riscos.