A escola, estreante no Grupo Especial, levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narrando a trajetória do presidente da infância ao retorno ao Palácio do Planalto.
O desfile incluiu referências ao PT, críticas e sátiras a adversários políticos, elementos que acirraram o debate antes mesmo da apuração. Ao fim, a agremiação ficou em último lugar, recebeu apenas duas notas 10 e enfrentou problemas nos quesitos evolução e dispersão, sendo rebaixada para o Grupo de Acesso.
Comemoração de aliados de Bolsonaro
Nas redes sociais, o vereador Raif Matos declarou: “Escola de samba que criticou valores da família conservadora cristã é rebaixada no Carnaval do Rio.” Para ele, o resultado seria reflexo direto da repercussão negativa do enredo. Ao concluir que “no carnaval, quem decide são as notas”, o parlamentar, no entanto, reforçou a ideia de que a punição teria sido também simbólica.

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)
Já o vereador Capitão Carpê foi além e questionou se o rebaixamento teria sido “merecido”, afirmando que a escola “debochou da família brasileira em um show de desrespeito”. Em tom ainda mais incisivo, defendeu que a agremiação devolvesse o dinheiro público investido no desfile: “Agora o mínimo seria devolver o dinheiro público que usaram pra fazer essa palhaçada. Acho é pouco!”

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)
O deputado federal Alberto Neto também comemorou o resultado. “Rebaixada. último lugar! A ‘homenagem’ a Lula foi um desastre total. Terminou combinando com o homenageado”, publicou. Antes mesmo da apuração final, ele já havia classificado o desfile como “campanha antecipada”, afirmando que “escolha errada cobra preço”. Após o resultado, acusou a escola de levar “ódio para a avenida” e de destruir “a beleza do carnaval”.

(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)

Arte, política e oportunismo
A reação dos parlamentares amazonenses escancara como o Carnaval, tradicional espaço de crítica social, sátira e posicionamento político, segue sendo tratado como campo de batalha ideológica. Ao comemorar o rebaixamento como se fosse derrota eleitoral, os políticos transformaram um resultado técnico, baseado em critérios como harmonia, evolução e enredo, em instrumento de disputa partidária.
Historicamente, a Sapucaí sempre foi palco de narrativas políticas, denúncias sociais e homenagens a figuras públicas. A tentativa de reduzir o resultado exclusivamente à escolha do homenageado ignora fatores técnicos apontados pelos jurados e simplifica um processo complexo que envolve desempenho artístico, organização e execução.
Também chama atenção o discurso sobre devolução de recursos públicos, frequentemente utilizado como retórica punitiva quando manifestações culturais desagradam determinado grupo político. A lógica sugere que financiamento público à cultura estaria condicionado à concordância ideológica, um precedente que coloca em xeque a liberdade artística.
“Quanto vale entrar para a história?”
Minutos após a confirmação do rebaixamento, a Acadêmicos de Niterói reagiu com uma provocação nas redes sociais: “Quanto vale entrar para a história?” A pergunta sintetiza o embate. Para críticos, o desfile foi um erro estratégico. Para defensores, foi um posicionamento artístico que assumiu riscos.