Manaus, 13 de setembro de 2026
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Manaus, 13 de setembro de 2026

Cenário

Ginásio entregue na gestão de Wilson Lima e Marcellus Campelo deixa 40 operários sem receber

Trabalhadores afirmam estar há quase um ano sem pagamento após obra de R$ 4,3 milhões entregue em 2025.

Obra foi entregue em novembro de 2025, durante a gestão do governador Wilson Lima e do secretário Marcellus Campelo - (Foto: Divulgação/Assessoria)

Maués (AM) – Cerca de 40 operários que trabalharam na reforma do ginásio Padre Leão Martinelli, em Maués, afirmam que estão há quase um ano sem receber pelos serviços prestados. A obra, entregue em novembro de 2025 na gestão do governador Wilson Lima (União Brasil) e de Marcellus Campelo, então secretário da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), foi anunciada como um investimento de R$ 4,3 milhões.

Documentos públicos consultados pela reportagem mostram que o Estado repassou valores à SBR Engenharia Ltda., empresa contratada para executar a reforma. Mesmo assim, os trabalhadores relatam que não receberam pelos serviços prestados e cobram respostas do Governo do Amazonas sobre o destino dos recursos pagos e as providências para solucionar a falta de pagamento.

“Tenho filho para criar”

São esses operários, segundo os relatos reunidos pela reportagem, que não viram a cor do dinheiro. Três deles gravaram vídeos, aos quais o blog teve acesso, cobrando publicamente a empresa. As falas foram editadas apenas para retirar palavrões.

“Eu sou serralheiro. Troquei todas as telhas lá, eu mais o pessoal. Faz um ano que eu não recebo. Eu descobri que a empresa é a SBR, e eu quero meu dinheiro, senão vou procurar meus direitos”, afirma Douglas, que trabalhou na troca da cobertura, um dos itens centrais da reforma.

Rafael, pedreiro, faz a conta de quem não pode esperar. “Já vai fazer um ano que eu não recebo nenhum centavo. Eu descobri recentemente que o nome da empresa é SBR. Tenho um filho para criar. Eu só quero receber.”

Um terceiro trabalhador, que pediu para não ser identificado por temer ficar sem o pagamento, diz ter atuado na obra por quase um ano. “Eu tô sabendo que a obra tá concluída. Eu quero receber meu dinheiro, que eu trabalhei mais de ano lá e não recebi nenhum centavo ainda.”

Trabalhadores executam a calçada externa do ginásio em 28 de outubro de 2025, na reta final da obra – (Foto: Reprodução/relatório fotográfico SBR-UGPE)

Trabalhadores seguem sem receber

O ginásio de Maués foi reformado dentro do Termo de Contrato nº 021/2024-UGPE, assinado em setembro de 2024 entre o Estado e a SBR, um contrato guarda-chuva de manutenção predial pelo qual a empresa executa, sob demanda, obras em prédios públicos de todo o Amazonas. A revitalização do Padre Leão Martinelli foi objeto da 12ª medição do contrato, relativa aos serviços executados entre setembro e outubro de 2025.

Durante a apuração, a reportagem cruzou o processo administrativo da medição com os registros do Portal da Transparência do Estado. A conclusão é que o Estado pagou. Ao longo de 2026, o Fundo de Infraestrutura e Desenvolvimento do Amazonas liberou à SBR pagamentos referentes à obra do ginásio, o último deles em julho. Aos trabalhadores que aparecem nas fotos oficiais do canteiro, segundo os relatos colhidos, nada foi repassado.

Quadra principal do ginásio com a iluminação nova, em registro feito pela própria empreiteira ao fim da obra – (Foto: Reprodução/relatório fotográfico SBR-UGPE)

Quem fiscaliza? 

Os documentos deixam uma equação incômoda para o Estado. A obra foi medida e atestada pela fiscalização da UGPE, faturada pela contratada, paga ao menos em parte com dinheiro público e entregue à população em solenidade oficial. As fotos do processo mostram dezenas de operários em campo ao longo de 2025. Os salários deles, porém, teriam ficado pelo caminho.

Operários trabalham na cobertura nova do anexo do ginásio Padre Leão Martinelli em 30 de outubro de 2025, um mês antes da inauguração – (Foto: Reprodução/relatório fotográfico SBR-UGPE)

Quem contratou os trabalhadores de Maués, sob qual regime e com qual controle do Estado são perguntas que seguem sem resposta. Não há nos autos um contrato de subempreitada, uma folha de pagamento ou uma guia de recolhimento referente a esses operários. As provas de que trabalharam estão nas fotos oficiais do próprio processo e nos vídeos enviados à reportagem, nos quais afirmam que ainda não receberam. Pelos relatos, cerca de 40 famílias de Maués estão desamparadas.

O Supremo Tribunal Federal (STF) admite que o poder público responda subsidiariamente por dívidas trabalhistas de prestadores de serviço quando fica comprovada falha na fiscalização do contrato. Se os relatos dos operários se confirmarem, a conta do ginásio inaugurado com festa pode voltar para o caixa do Estado.

Outro lado

A reportagem procurou a SBR Engenharia Ltda. e a Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE) para esclarecimentos sobre a denúncia dos trabalhadores e os pagamentos referentes à reforma do ginásio. Até a publicação, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestações.

Vídeos dos trabalhadores

 

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