Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Vídeo de Alberto Neto gera contradições em seu discurso ao usar canção contra à ditadura

Especialista afirma que ao usar “Roda Viva” para atacar adversário, o deputado transforma símbolo democrático em peça de campanha improvisada.

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(Fotos: Reprodução)

Manaus (AM) – O deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM) publicou um vídeo no fim de semana cantando “Roda Viva”, a canção de Chico Buarque composta em 1967 e transformada, anos depois, em um dos símbolos da resistência à ditadura militar no Brasil.

A cena gerou estranhamento pelo contraste entre a obra e a trajetória do próprio deputado, aliado de Jair Bolsonaro e defensor público do regime de 1964. A música, originalmente uma crítica à manipulação do artista pela indústria cultural, acabou ganhando força como hino contra a repressão irônica justamente por ter passado pela censura militar sem ser compreendida em sua profundidade.

No vídeo, Alberto Neto usa a canção para ironizar o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), insinuando favorecimento na instalação da polêmica roda-gigante da Ponta Negra. “O que dá pra fazer em dois dias? Muita coisa. Mas, se você for amigo do prefeito, aí o milagre é maior”, escreveu o deputado na legenda.

“Ironia histórica”, avalia especialista

Para o cientista político Luiz Carlos Marques, em entrevista ao Portal AM1, o episódio expõe um fenômeno cada vez mais frequente no debate público brasileiro.

Para o analista, o deputado repete o comportamento dos antigos agentes da censura ao utilizar a obra sem perceber sua carga histórica. Ele afirma que a atitude revela um tipo de alienação sobre o passado político do país, comum em setores da nova direita, marcada pela distância entre discurso, história e realidade.

“Há uma ironia histórica evidente quando um parlamentar que exalta o regime militar decide cantar uma canção que se tornou símbolo da resistência àquele mesmo regime”, afirmou.

Segundo o Luiz Marques, ações desse tipo refletem uma tendência contemporânea: a priorização de performances simbólicas em detrimento de debates e soluções para os problemas reais do país.

“Em meio a tantos desafios urgentes no país, o que ganha espaço são performances vazias, símbolos usados sem entendimento e manifestações políticas que dizem mais sobre a falta de leitura do que sobre qualquer convicção profunda”, criticou o especialista .

Nesse cenário, enquanto questões concretas permanecem sem resposta, alguns atores preferem recorrer a performances que expõem sua dificuldade de compreender o próprio passado histórico.

“É como se o gesto repetisse aquilo que ocorreu na década de 1960, quando os censores não percebiam o teor crítico da obra. A diferença é que, agora, não se trata de desconhecimento institucional, mas de um descolamento voluntário da história”, declarou.

Símbolos esvaziados

Para Luiz  Marques, a repercussão do vídeo mostra como a política atual tem sido marcada por performances que frequentemente ignoram o contexto histórico dos símbolos que mobilizam.

“Vivemos um tempo em que mensagens políticas são construídas para gerar impacto rápido, sem compromisso com coerência ou profundidade. O resultado são gestos que dizem mais sobre a falta de leitura do que sobre qualquer convicção ideológica real”, analisou.

O cientista político lembra que “Roda Viva”, ao longo das décadas, acumulou um significado coletivo que ultrapassa sua crítica inicial ao mercado musical.

“Quando alguém se apropria de um hino associado à resistência democrática, isso deveria vir acompanhado de responsabilidade histórica. Caso contrário, vira apenas mais um sintoma da desconexão entre discurso, memória e realidade”, concluiu Luiz Marques.

Entre a polêmica e a interpretação

O vídeo do deputado ampliou o debate para outro campo: o da relação entre história, cultura e estratégias de comunicação política.

No meio das controvérsias, a música de Chico Buarque, que já sobreviveu à censura, ao autoritarismo e às interpretações forçadas de diferentes épocas, volta ao centro da conversa nacional. Desta vez, não pela melodia, mas pela forma como é cantada e pelo sentido que muitos insistem em ignorar.

Veja o vídeo: 

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