Eleito graças à popularidade que ganhou como apresentador de um programa de televisão que veiculava reportagens policiais e de problemas sociais na periferia de Manaus, o novo governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), passou a escolher quais ou qual o veículo de comunicação vai, primeiro, reportar e detalhar seus atos públicos de gestão.

Ao centro, Wilson Lima, e aliados do novo governo do Amazonas (Reprodução)
Embora a distinção de Wilson Lima com a imprensa ocorra desde a sua campanha eleitoral, a primeira coletiva como governador eleito no último domingo, 28, foi desastrosa do ponto de vista da organização e, principalmente, pelo procedimento inconstitucional de “escolha” dos veículos de comunicação que podiam participar das entrevistas.
Nesse dia, seguranças do novo governador barraram de forma autoritária e truculenta a equipe de reportagem do Portal Amazonas1 e jornalistas de outros sites de notícias sob a justificativa de que o local estava “lotado”, embora fossem visíveis espaços vazios.
Na segunda-feira, 29, Wilson Lima “escolheu” alguns veículos de comunicação para dar sua primeira entrevista, entre eles, o grupo empresarial que o levou ao poder. Sua assessoria de imprensa não reportou a outros veículos sobre a possibilidade de entrevista em estúdio ou mesmo em coletiva.
Superficialidade e ironia
Nesta terça-feira, 30, o governador eleito decidiu chamar os outros representantes da imprensa no Amazonas para explicar e identificar os membros da equipe de transição de governo, no horário marcado de 17h, no Quality Hotel, no bairro Adrianópolis, na zona centro-sul de Manaus.
Antes mesmo de iniciar a coletiva de Wilson Lima, que aconteceu com 30 minutos de atraso, jornalistas foram surpreendidos em seus celulares com uma matéria oriunda da empresa que o lançou à política, na qual apontava as informações que seriam fornecidas naquele momento pelo governador eleito.
Quando perguntado sobre o motivo do privilégio dado ao veículo de comunicação, Wilson respondeu com risos e de forma irônica que o “vazamento” ocorreu por causa de uma foto postada numa rede social. Ao final, os profissionais não entenderam a justificativa.
Raso em todas as respostas dada aos jornalistas, o governador não conseguiu detalhar o processo de transição de seu governo e nem as prioridades de sua gestão, situação um pouco diferente do que ocorreu nos veículos que ele escolheu para conceder entrevista no dia anterior.
Ainda durante a coletiva desta terça-feira, a assessoria de imprensa de Wilson Lima chegou impedir que os profissionais de comunicação continuassem os questionamentos ao governador eleito, obrigando-os a perguntarem de outros membros da mesa, as dúvidas que só poderiam ser dirimidas pelo próprio governador.
Prática é inconstitucional
Ao priorizar um ou mais veículos de comunicação para antecipar e reportar de forma detalhada as ações de sua gestão, o governador eleito Wilson Lima contraria o princípio da isonomia, conhecido como a igualdade de direitos, antes mesmo de tomar posse do cargo.
Pela Constituição, o princípio representa o símbolo da democracia e garante o tratamento do Poder Público justo e igualitário a todos os cidadãos. O dispositivo está previsto no artigo 5º da Constituição Federal, que diz que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.”
O Portal Amazonas1 foi o primeiro site de notícias a veicular de forma detalhada e documentada a informação de que Wilson Lima foi funcionário público da Prefeitura de Manaus, quando o atual governador Amazonino Mendes (PDT), esteve no cargo de prefeito (2008-2012). Esse dado foi omitido do currículo oficial que o então candidato ao governo enviou à imprensa do Estado. A nomeação dele veio à tona pelas redes sociais.
De acordo com a reportagem, Wilson ocupou dois cargos comissionados na Prefeitura de Manaus, em 2009, ambos os quais exigiam dedicação em tempo integral. No mesmo período, ele trabalhava como repórter de TV local, durante o dia e, à noite, cursava faculdade de Jornalismo. Em oito meses no cargo público, o jornalista recebeu mais de R$ 24 mil.
Ao ser questionado sobre a nomeação e o período de trabalho, na época, Lima disse que atuava como cerimonialista da prefeitura com eventos “previamente agendados.” No último debate de candidatos ao governo, antes da eleição, o seu então adversário e ex-chefe, Amazonino Mendes afirmou que Wilson Lima recebia, mas não aparecia para trabalhar.





