Manaus, 23 de julho de 2026
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Manaus, 23 de julho de 2026

Cidades

Boxeadora Khelif não é uma mulher trans; fake news foi usada por amazonenses

Após a atleta adversária desistir da luta, a boxeadora virou alvo de ataques nas redes sociais, os quais a caracterizavam como "mulher trans" e "homem biológico".

(Foto: Divulgação/Instagram)

Manaus (AM) – A boxeadora argelina Imane Khelif, que compete nas Olimpíadas de Paris, tornou-se alvo de ataques nas redes sociais após a desistência de sua adversária, a italiana Angela Carini, aos 46 segundos de luta. Em razão disso, começaram a circular informações falsas alegando que Khelif seria uma mulher trans, desinformação que também foi propagada por amazonenses.

Devido à grande repercussão, o Comitê Olímpico Internacional (COI) esclareceu que a boxeadora não é uma mulher trans, além de confirmar que ela atendeu a todas as normas médicas exigidas para competir em Paris. Na verdade, a boxeadora faz parte de um grupo de pessoas caracterizadas como intersexo, nascidas com variações hormonais que não se encaixam nas categorias médicas tradicionais de masculino ou feminino.

No entanto, a desinformação já havia se espalhado nas redes sociais. Políticos bolsonaristas, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Girão (PL-RJ), classificaram a luta como injusta, alegando que Khelif teria vantagem sobre a oponente por ser um “homem biológico”. O senador Sérgio Moro chegou a afirmar que a boxeadora teria “mudado de sexo”.

A fake news também foi disseminada pelo vereador bolsonarista de Manaus, Raiff Matos (PL). Em um vídeo publicado no Instagram, o parlamentar afirma, sem qualquer comprovação, que a italiana desistiu de lutar com um “homem” e pede a opinião dos seguidores, ampliando ainda mais a divulgação da informação incorreta.

“Já tem atleta desistindo de lutar com homem nas Olimpíadas. Decisão extremamente sensata da italiana, que treinou por mais de quatro anos para competir nas Olimpíadas e se deparar com um homem. Inadmissível e lamentável, quero saber a sua opinião”, diz o parlamentar. O vereador não se pronunciou após a informação ser considerada falsa. O vídeo continua no perfil dele.

Nos comentários das postagens, os seguidores concordam com o vereador e descrevem a situação como “ridícula”, “injustiça” e “lamentável”.

(Foto: Reprodução)

Outro que comentou o assunto foi o campeão de MMA Adriano Balby, conhecido como “The Rock”, natural do Rio Grande do Norte, mas que reside em Manaus, onde possui um centro de treinamentos. Adriano afirma que nem seria necessário explicar, pois a força de um homem difere da de uma mulher.

Mesmo após a confirmação de que a boxeadora não é uma mulher trans, mas sim intersexo, Adriano manteve sua posição em entrevista ao Portal AM1. Ele argumenta que, mesmo com fotos de Khelif quando era criança, não foi comprovado que ela é uma mulher. Balby citou experiências anteriores em que lutadores trans competiram contra mulheres, afirmando que, biologicamente, os homens trans não têm a mesma força das mulheres.

“Eu já vi algumas lutas, não olímpicas, mas de MMA, até mesmo de boxe, de homens trans competindo com mulheres. E não tem a mesma força, não tem como. Biologicamente, não há como”, pontua. Ele acredita que, se a boxeadora for mulher, deve haver uma comprovação documental clara. Balby critica a falta de clareza e documentação sobre o caso, afirmando que há confusão sobre a verdadeira identidade da atleta.

Para o professor de luta e coach, uma pessoa que deseja competir como mulher deve enfrentar outras mulheres, independentemente de sua identidade de gênero, e se optar por lutar com homens, deve fazê-lo em condições apropriadas.

“Além disso, o nível de testosterona deve ser medido. Se uma mulher estiver com seiscentos ou mil de testosterona, ela está com a testosterona de um homem”, afirma, acrescentando que o caso pode indicar o uso de anabolizantes. Ele ressalta que, em sua visão, a competição deve respeitar a separação entre homens e mulheres.

(Foto: Reprodução)

Rejeição no mundial de boxe

As falsas informações sobre Khelif ser uma mulher trans surgiram devido à sua reprovação em um teste de gênero da Associação Internacional de Boxe (IBA) em uma competição mundial de 2023, sob a alegação de ter o cromossomo XY em seu DNA. Na ocasião, a organização afirmou que “várias atletas tentaram enganar e se passar por mulheres”.

No entanto, a própria IBA enfrenta sérias suspeitas. Neste ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI) baniu a entidade dos Jogos de Paris devido a falhas recorrentes em integridade e transparência na governança, além de acusações de manipulação de resultados e corrupção. Khelif foi autorizada a competir nas Olimpíadas após passar por um novo ‘teste de gênero’ e apresentar níveis de testosterona dentro dos limites permitidos pelo COI.

Conforme o COI, cabe a cada federação esportiva criar suas regras, que podem variar conforme o esporte.

Pedido de desculpas

Dois dias após a luta, em declarações ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport, a atleta olímpica italiana de boxe acalmou os ânimos, lamentando a polêmica e pedindo desculpas a Khelif, acrescentando que a “abraçaria” se surgisse uma oportunidade.

Carini abandonou o ringue em lágrimas e recusou-se a apertar a mão de Khelif, que tentou oferecer consolo.

“Não era minha intenção”, disse Carini, “estava chateada porque meus Jogos Olímpicos tinham se dissipado. Também tenho pena da minha adversária. Se o COI disse que ela pode competir, eu respeito essa decisão”, afirmou a atleta.

Diferente do que foi divulgado, a italiana já havia declarado que não deixou a competição devido à condição de Khelif. Em entrevistas, ela mencionou que desistiu devido a dores no nariz.

(Foto: Divulgação/Instagram)

Qual a diferença entre transgênero e intersexo?

No caso de Imane Khelif, ela nasceu com órgãos genitais femininos, mas possui cromossomos sexuais XY (que determinam o sexo masculino) e níveis de testosterona compatíveis com o corpo masculino. Apesar disso, ela se identifica como mulher.

Essa situação difere do caso transgênero. Pessoas transgêneras não se reconhecem no sexo atribuído ao nascimento. Este não é o caso de Imane, o que permite sua competição na categoria feminina, conforme o COI.

Segundo o Escritório do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), pessoas intersexos são aquelas que possuem características sexuais que não se encaixam nas normas médicas e sociais para corpos femininos ou masculinos desde o nascimento.

Essas características podem estar relacionadas a cromossomos, órgãos genitais, hormônios, entre outros. Em algumas pessoas, as características intersexo são visíveis desde o nascimento; em outras, podem surgir na puberdade ou somente em fases mais tardias da vida.

A médica endocrinologista Nathália Fernandes explica que o termo intersexo é abrangente e descreve uma ampla gama de variações corporais nas características sexuais inatas. Ela ressalta que, na medicina, o termo “diferenças de desenvolvimento do sexo” (DDS) é frequentemente usado em vez de intersexo. A origem pode estar desde a formação do embrião, e as variações podem ser evidentes no nascimento ou aparecer anos depois.

“As diferenças podem ser diagnosticadas ao longo da vida, seja quando a pessoa não apresenta a puberdade habitual ou na vida adulta, devido à infertilidade, por exemplo”, explica.

Essas pessoas podem ter alterações hormonais, genitais ambíguos e outras diferenças anatômicas, ou nascer com códigos genéticos distintos do padrão. Por exemplo, o corpo pode ser fisicamente feminino, mas com código genético XY (X é o cromossomo feminino e Y é o masculino), o que pode afetar o desenvolvimento e a produção de hormônios.

Segundo a médica, o termo “hermafrodita” foi utilizado por muito tempo para descrever pessoas intersexo, mas caiu em desuso por ser considerado limitante e pejorativo, reforçando estereótipos negativos.

Bandeira trans – (Foto: reprodução)

“Uma pessoa pode ter características físicas externas femininas, mas uma anatomia interna predominantemente masculina, ou vice-versa. Por exemplo, uma pessoa pode nascer com genitais que apresentam características de ambos os sexos — como uma menina com um clitóris significativamente grande ou sem abertura vaginal, ou um menino com um pênis menor que o usual ou com um escroto que se parece mais com lábios vaginais. Antigamente, o termo ‘hermafrodita’ era usado para descrever essas condições, mas não abrange toda a diversidade existente e caiu em desuso. Hoje, a terminologia mais precisa e inclusiva é ‘intersexo’, que reflete melhor a variedade de características anatômicas e hormonais que essas pessoas podem apresentar. O uso do termo ‘intersexo’ é mais adequado para descrever a complexidade dessas condições biológicas e é preferido em contextos médicos e sociais”, explica.

Conforme uma pesquisa da ONU, estima-se que entre 0,05% e 1,7% da população mundial nasce com características intersexo — o que pode representar até 3,5 milhões de pessoas apenas no Brasil.

Atletas trans e intersexo nas Olimpíadas

A primeira atleta trans a participar de uma competição olímpica na categoria de gênero com a qual se identifica foi a neozelandesa Laurel Hubbard, no levantamento de peso, em Tóquio. No mesmo ano, a seleção feminina de futebol canadense tinha na equipe Quinn, atleta que teve autorização para continuar no futebol feminino mesmo após se declarar uma pessoa transgênero e não binária – que não se identifica nem com o gênero masculino, nem com o gênero feminino.

Em Paris, apenas dois atletas transgênero se classificaram para competir nas Olimpíadas de Paris: Nikki Hiltz, no atletismo, e Quinn, no futebol canadense.

Tanto Hiltz quanto Quinn são pessoas trans não binárias. Isso quer dizer que elas não se identificam 100% nem com o gênero feminino, nem com o gênero masculino. As atletas foram designadas como mulheres ao nascer e disputam medalhas na categoria feminina, ainda que não se identifiquem com o gênero.

Argelina assegura medalha no boxe e se emociona

A onda de fake news  não derrubaram Khelif. A argelina assegurar, no mínimo, a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, ao superar a húngara Anna Luca Hamori nas quartas de final do peso-meio-médio (até 66kg), por decisão unânime (5-0), neste sábado (3).

Como todas as semifinalistas sobem ao pódio no boxe, Khelif já tem o bronze garantido e ainda pode ir à final da categoria. Ao deixar o ringue, a argelina não conseguiu conter as lágrimas, após uma semana em que foi acusada de ser atleta transgênero e esteve sob ataque nas redes sociais.

Italiana ganhará prêmio de ‘campeã olímpica’ 

Apesar de ter abandonado a luta contra a argelina depois de apenas 45 segundos, Angela Carini vai receber 50 mil dólares (R$ 286,5 mil) de premiação da Associação Internacional de Boxe. A decisão foi comunicada pelo presidente da entidade, Igor Kremlev.

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