Manaus, 17 de julho de 2026
×
Manaus, 17 de julho de 2026

Cenário

Nova etnia indígena brasileira, povo Warao luta por território e vida digna

Desde a segunda metade da década de 2010, um novo povo passou a integrar o conjunto de etnias brasileiras: os Warao.

Indígenas Warao

(Indígenas Warao| Fotos: Públicas.com)

Não há mais 305 povos indígenas no Brasil. Desde a segunda metade da década de 2010, um novo povo passou a integrar o conjunto de etnias brasileiras: os Warao, o povo da canoa.

Forçados a deixar seu país de origem, a Venezuela, pela situação de grave e generalizada violação de direitos humanos ali vivida, 9 mil indígenas migraram para o Brasil desde 2016, conforme o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Destes, 7 mil são Warao. No total, 7,7 milhões de venezuelanos deixaram seu país desde o início da crise humanitária.

“Contávamos 305 povos indígenas e agora temos 306 com os Warao que já estão nascendo aqui e passam a ser indígenas brasileiros”, afirmou Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas (MPI), em entrevista à Agência Pública.

Quase metade da população indígena venezuelana no Brasil é composta por crianças e adolescentes, segundo o Acnur. Os altos índices de pobreza, inflação e escassez de alimentos e medicamentos no país de origem justificam a migração forçada.

Com suas raízes ancestrais espalhadas ao longo do delta do rio Orinoco, no noroeste da Venezuela, a etnia Warao é diversa em suas formas de organização social e costumes, mas compartilha uma língua comum, também chamada Warao.

O nome significa “povo da canoa”, refletindo seu uso histórico dessa embarcação como principal meio de transporte. Atualmente, totalizam cerca de 49 mil indivíduos em seu país de origem, sendo a mais antiga comunidade da Venezuela caracterizada por suas habilidades em pesca e agricultura.

Desde o início da colonização até o século XVIII, os Warao incorporaram à sua sociedade outros povos que fugiam do massacre colonial, intensificando sua diversidade interna e influenciando suas práticas culturais. Agora chegam ao Brasil e se unem aos povos originários nacionais em sua luta por território.

“Queremos ter um lugar onde possamos fazer rituais, cantar, dançar, um lugar que tenhamos para fazer artesanato, para semear e, sobretudo, para produzir. Nós, como povo indígena, temos sido milenarmente autônomos”, explicou o cacique Aníbal Pérez, que é professor e chegou ao Brasil junto a sua família em 2016. Ele considera que é necessário reconhecer a nova etnia: “Já existe Warao brasileiro.”

Como muitos migrantes, Pérez já passou por vários estados desde que entrou no Brasil pela fronteira de Roraima. Hoje vive em Alagoas.

POR QUE ISSO IMPORTA?

Indígenas do povo Warao emigraram em peso para o Brasil e necessitam de acolhimento específico que respeite seus direitos e costumes tradicionais.
Em março deste ano, os Warao conquistaram uma importante vitória: a concessão de um terreno de 35 mil metros quadrados pela prefeitura de Cuiabá, no Mato Grosso, a 52 famílias.

No local, os indígenas poderão exercer sua autogestão, viver conforme seus elementos culturais e éticos e resolver seus próprios conflitos de forma autônoma. O terreno simboliza não apenas um novo lar, mas a inclusão do povo nas políticas públicas municipais.

“Queremos ser os protagonistas de nossas histórias e vidas. Nós mesmos contamos nossas próprias histórias, porque o não indígena tem muito que aprender e conhecer de nós. É isso que estamos fazendo, abrindo e construindo caminhos, porque já faz muito tempo que estamos sendo tutelados. Nós, os líderes indígenas, projetamos a nossa liberdade”, acrescentou o cacique Warao.

Apesar de a Constituição Federal assegurar aos povos originários o direito de manutenção de seus estilos de vida, línguas, crenças e tradições, o caso de Mato Grosso é uma exceção.

A falta de um lugar digno para morar em outras cidades brasileiras tem levado os venezuelanos a se instalarem em abrigos, ocupações e casas precárias ou nas ruas, sob viadutos e nas proximidades dos terminais rodoviários.

Nesses espaços, enfrentam uma série de dificuldades, como a falta de água potável, comida, atendimento à saúde e medicamentos, além de serem alvo de violência e xenofobia.

 

(*) Com informações da Agência Pública

 

LEIA MAIS: