(Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Manaus (AM) – De olho nos 55% de eleitores evangélicos de Manaus, David Almeida (Avante), Roberto Cidade (União Brasil) e Alberto Neto (PL), todos candidatos à prefeitura, participaram da Marcha para Jesus, um dos eventos mais tradicionais do meio evangélico que aconteceu no último sábado na capital.
O dado que envolve os autodenominados evangélicos foi levantado no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.
Com a proximidade do início da campanha eleitoral, no próximo dia 16 de agosto, políticos de Manaus iniciam a busca direta por voto. Entre esse público, que atua por espaço político propriamente dito, há uma fidelidade e engajamento cobiçados por líderes que tentam se eleger na capital, como explica o cientista político Breno Rodrigo.
“Ha uma certa preocupação desse segmento [evangélicos] em participar da política através da competição eleitoral. Não é só uma coisa de movimento social ou de manifestações políticas, é uma coisa de engajamento, filiação partidária e poio a certos candidatos. Então, há uma organicidade nesse segmento de denominações pentecostais e neopentecostais”, disse o especialista.
Para Breno Rodrigo, Manaus é praticamente uma cidade de evangélicos, se os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a respeito do crescimento desse segmento forem levados em conta.
Ele informa sobre uma discussão que vem sendo feita ao nível nacional sobre a chamada “teologia do domínio”, que defende a ideia de que os evangélicos “precisam do poder”. Dessa forma, o processo de evangelização passa necessariamente pela conquista de mecanismo de poder.
“E toda essa teologia do domínio, de certa maneira, tem uma interface numa percepção na qual o estado brasileiro está tomado por um tipo de esquerdismo, por pessoas que não cultivam os valores cristãos, etc. O nome disso é guerra cultural. De um lado, evangélicos, de outro um “mal possível”, esclarece Rodrigo.
O cientista acrescenta ainda que lideranças políticas principalmente, porem não exclusivamente, do lado conservador terão no público evangélico algum tipo de lealdade e isso também ganha força pela forma como pastores controlam as suas denominações religiosas, o que naturalmente gera engajamento dos pontos de vista ideológico e partidário.
Para ele, os candidatos cedem aos interesses de lideranças evangélicas por conta de “sobrevivência política”, já que dificilmente um político da esfera municipal consegue se eleger em Manaus sem o apoio do segmento evangélico.
O ambiente de combate imposto pela guerra cultural “esfarela a sociedade”, “esvazia o interesse nacional”, elimina os interesses coletivos, para que o debate político seja limitado aos conflitos de “combate de agendas” entre conservadores e progressistas, segundo a visão do pesquisador, que lamenta.
Cultura
Já o advogado e cientista político Carlos Santiago destacou, em entrevista ao Portal AM1, que a cultura evangélica e a relação de políticos com meio cristão não são suficientes para melhorar a qualidade da política e dos políticos locais.
“O perigo disso é se criar uma sociedade com muita intolerância e atentar para que a administração pública, que deve ser direcionada para todos, para o bem comum, não fique refém de denominações religiosas e não privilegie políticos religiosos, até porque todos pagam tributos independentes de crenças”, comentou.
Para ele, se há interesse eleitoral nas movimentações dos candidatos, como a do último sábado, deve-se fazer de uma forma que diferencie política da fé. Ainda nesse contexto, Santiago ressalta sobre a pluralidade da capital amazonense, considerada uma das mais importantes e estratégicas do norte brasileiro.
“Aquele que vencer a eleição tem o dever constitucional de preservar o estado laico e administrar objetivando o bem comum, não tornar o poder público refém de grupo religioso. Manaus é uma cidade plural, diversa; por isso, é inapropriado reduzi-la a denominações religiosas, independentemente de ser católica, de matriz africana ou evangélica”, critica o pesquisador.
Amazonas
Um novo levantamento do IBGE divulgado em 2022 revelou que o Amazonas é o estado mais religioso do Brasil, com 485 templos religiosos para cada 100 mil habitantes, ou seja, existe uma igreja para cada 68 domicílios. Até aquele ano, o estado possuía 19.134 mil templos religiosos. Além das igrejas, a pesquisa levantou dados sobre estabelecimentos de ensino e de saúde.
Ao comparar os números com os de templos religiosos, o Amazonas dispõe de 180 escolas para cada 100 mil habitantes e 70 unidades de saúde para atender o mesmo número de população.
Regra
Com a proximidade da abertura do prazo de campanha eleitoral, que se inicia no próximo 16 de agosto, os candidatos passam a divulgar suas propagandas e começam a manifestar seus pedidos explícitos de voto.
Entretanto, a Justiça Eleitoral veda o pedido explícito de voto durante eventos religiosos, culturais ou sociais.
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