(Foto: Chritian Braga/ Greenpeace)
Manaus (AM) – O biólogo e pesquisador Lucas Ferrante alerta para o recorde alcançado pelo Amazonas no último domingo (22), quando o estado atingiu 21.289 focos de incêndio, sobre a atuação de órgãos fiscalizados ambientais, que “ignoram os estudos” prévios contra danos ao meio ambiente. Segundo o pesquisador, existem inúmeros métodos para se projetar o aumento de incêndios florestais ou de desmatamento. Ele explica que a lacuna está na falta de fiscalização.
“Já temos esses dados disponíveis, o que nós não vemos é fiscalização, principalmente nas áreas onde esses desmatamentos ou queimadas são mais projetados, onde nós vemos a expansão tanto da exploração madeireira quanto a migração da pecuária. Nós temos nesse momento, basicamente, os tomadores de decisão no Amazonas ignorando estudos científicos”, disse.
Nos últimos dias, o Amazonas superou o recorde histórico de focos de incêndio de 2022, quando o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou o maior número: 21.217. Ferrante acrescenta que a alta nos dados de desmatamentos e consequentemente no número de incêndios florestais se concentra no entorno da BR-319.
“O número de incêndios registrados no estado do Amazonas é preocupante, isso mostra uma total falta de governança por parte do Estado, e isso está intrinsecamente ligado, principalmente, à licença de manutenção da rodovia BR 319. Nós vemos, hoje, esses incêndios concentrados tanto no sul da rodovia, principalmente em torno de Vila Realidade, no trecho do meio da rodovia BR 319, como mais próximo de Manaus, na região de Careiro até Autazes. É importante que os nossos dados mostram que não está havendo uma fiscalização efetiva de combate desses incêndios da grilagem e do desmatamento no estado do Amazonas, existe de fato uma omissão do estado do Amazonas”, criticou o biólogo.
Para o pesquisador, é extremamente necessário que o Ministério Público apure os sucessivos recordes no estado, além de cobrar medidas dos órgãos públicos e, por fim, formalizar denúncia contra os representantes pela “negligência em fiscalizar essas áreas”.
Métodos – projeção
Lucas Ferrante esclarece sobre as metodologias adotadas no estado que preveem o aumento de desmatamento e queimadas por meio de monitoramento em áreas recém-abertas ou que tenham fluxo migratório observado.
“Uma dessas análises são as modelagens de desmatamento, um método onde se pode predizer com precisão tanto o aumento do desmatamento, queimadas ou ocupação de uma determinada área que está sendo recém-aberta ou que existe um fluxo migratório para essa região. No caso do Amazonas, nós temos muitas metodologias a serem empregadas, como esses modelos para predizer o aumento do desmatamento e queimadas, e esses modelos já têm sido realizados por vários institutos de pesquisa, como o Inpa, por exemplo”, destaca o pesquisador.
Ou seja, existem dados disponíveis, o que não acontece é a fiscalização, principalmente nas áreas onde esses desmatamentos ou queimadas são mais projetados, segundo o cientista. Nesses locais, há expansão tanto da exploração madeireira quanto da migração da pecuária, avalia Lucas Ferrante.
BR-319
Para Ferrante, em meio aos danos ambientais que o Amazonas sofre, estão as obras da rodovia BR-319, que é um empreendimento, segundo ele, com previsão anunciada para o aumento de prejuízos ambientais.
“Vários modelos já previam o aumento do desmatamento e de queimadas, que é exatamente a situação que observamos hoje. É necessário que os tomadores de decisão observem esses dados científicos revisados pelos pares e tomem as decisões baseadas nesses dados, com critério técnico”, alerta.
Segundo o pesquisador, os órgãos de fiscalização têm acesso a modelos de papel importante, principalmente para direcionar a fiscalização nas áreas onde se concentram os ilícitos ambientais. Ou seja, essas ferramentas já estão disponíveis e, se o desmatamento e as queimadas “não estão sendo controladas, é por negligência do Estado”.
Recorde 2024
Segundo o Inpe, em setembro, até o domingo (22), o Amazonas registrava 6.054 focos de incêndio, totalizando, de janeiro até agora, 21.289 focos. Os registros do instituto começaram a ser realizados em 1988.
Segundo o governo estadual, de junho até o dia 22 de setembro, mais de 18,1 mil focos de incêndio foram combatidos pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). Sendo, 2.114 incêndios na capital e 16 mil no interior do estado.
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