Manaus, 7 de julho de 2026
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Manaus, 7 de julho de 2026

Cidades

Denúncias expõem crise na saúde indígena do Vale do Javari

Relatos de lideranças locais apontam negligência, mortes evitáveis e falta de estrutura aos povos indígenas da região.

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(Fotos: Reprodução/ Agência Brasília)

Manaus (AM) – A situação da saúde indígena no Vale do Javari, uma das regiões mais remotas e sensíveis da Amazônia, tem sido marcada por denúncias recorrentes, precariedade estrutural e embates políticos que afetam diretamente o bem-estar das populações originárias. Desde o ano passado, diversas queixas chegaram ao Ministério Público, que passou a investigar as condições de atendimento às comunidades da região.

A responsabilidade pelo atendimento à saúde indígena, antes atribuída à Fundação Nacional do Índio (FUNAI), foi transferida para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). No entanto, segundo relatos de indígenas da região, essa transição ocorreu sem a devida estrutura para garantir a continuidade dos serviços. Lideranças indígenas têm criticado a mudança, denunciando a falta de medicamentos, a escassez de profissionais em campo e a ausência de transporte para remoções médicas.

“Quem cuidava da saúde dos indígenas era a FUNAI que deixou na mão agora da SESAI, sem nenhuma condição, sem nenhuma estrutura… a SESAI só faz trabalho básico, né? Saúde básica, saúde primária. Então, não faz alta complexidade. Então, todos os indígenas que ficam doentes precisam de remoções”, relata indígena da região do Vale do Javari em exclusividade ao Portal AM1.

Recentemente o Ministério Público Federal (MPF) havia solicitado explicações a diversos órgãos sobre a emissão de passagens para indígenas de recente contato, em necessidade de tratamento de saúde fora de suas comunidades.

Os indígenas Korubu, considerados de recente contato, são um dos grupos mais afetados. Relatos indicam que crianças da etnia têm morrido por falta de atendimento adequado. Embora contem com certa prioridade no atendimento, como remoções algumas vezes por helicóptero para Tabatinga e, em casos graves, para Manaus ou Brasília, a estrutura ainda é insuficiente para suprir todas as demandas. A Sesai, cuja atuação se limita à atenção básica à saúde, enfrenta dificuldades para lidar com casos que requerem alta complexidade.

“Eu fui ver de perto, né? Porque os índios falaram, que estão sem remédio… Viajei pela área pra ver se isso era realmente é o que estava acontecendo. E vi que é a realidade deles e que não é qualquer coisinha, é coisa séria. Então é precário a saúde no Vale de Javari? Sim”. Declarou o indígena.

A crise é agravada em períodos de seca, quando o acesso às aldeias por voadeira se torna inviável, sendo necessário o uso de aeronaves. Mesmo assim, faltam recursos para garantir esses deslocamentos. Lideranças locais apontam que a atual administração do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Vale do Javari tem enfrentado oposição política, o que também contribui para a instabilidade da gestão.

“O que acontece, é que a oposição lá, é contra o chefe do DISEI, que  foi denunciado um monte de vezes. Os parentes ficam doentes, não tem passagem, não tem gasolina para remoção… a saúde está nessa situação com essa atual administração da Disei”.

Recentemente, foram iniciadas ações para garantir o abastecimento de água potável em várias aldeias, incluindo as dos Korubu. A medida foi impulsionada por uma recomendação do Ministério Público, que deu prioridade à instalação desses sistemas em áreas de maior vulnerabilidade. Apesar disso, ainda há carência de saneamento básico, moradias para profissionais de saúde, farmácias com infraestrutura adequada, além da distribuição insuficiente de equipamentos, como celulares para comunicação entre as comunidades.

O histórico de contato com os Korubu também é motivo de crítica. Segundo os relatos, a FUNAI investiu recursos em ações de aproximação, mas não deixou estruturas básicas para os povos recém-contatados, o que agrava sua vulnerabilidade.

A presença de conflitos políticos internos entre diferentes grupos indígenas e lideranças locais também tem influenciado na gestão da saúde na região. A ocupação da sede da Sesai por membros de algumas comunidades Mayuruna é um exemplo disso, evidenciando a politização do debate sobre a saúde indígena e suas lideranças.

“eu moro aqui na região, então, a gente está vendo essas questões que estão acontecendo.. E falta muita coisa para o Vale do Javari, sim”, finalizou o indígena.

O Vale do Javari, com seus mais de 8,5 milhões de hectares, abriga sete povos indígenas: Marubo, Kanamari, Mayoruna, Matís, Kulina Pano, Korubu e Tsohom-dyapa (Javari). Apesar de alguns avanços pontuais, como a construção de novos postos de atendimento, o cenário permanece desafiador. Lideranças alertam que o progresso só será possível com mais diálogo entre os povos, o fortalecimento das estruturas locais e o afastamento de influências políticas externas que possam comprometer os direitos e as prioridades das comunidades indígenas.

O Portal AM1 entrou em contato com a Sesai e a Funai para obter esclarecimentos sobre o caso, mas até a publicação desta reportagem, não houve retorno. Por motivos de segurança e a pedido do entrevistado, sua identidade foi mantida em sigilo, conforme previsto na Constituição Federal.

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