(Foto: Celso Maia/Portal AM1)
Manaus (AM) – Em pleno Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, a cor roxa se espalha pelas campanhas oficiais e nas redes sociais. Mas, na prática, quem está na linha de frente do acolhimento e quem já enfrentou a violência denuncia um cenário de lacunas e obstáculos que impedem que as políticas públicas cumpram seu papel.
À frente do Instituto “As Manas”, a advogada criminalista Dra. Amanda Pinheiro, fundadora e diretora-presidente da entidade, relata que, mesmo com esforços visíveis dos governos municipal, estadual e federal, como a Operação Shamar, de abrangência nacional, a execução prática ainda esbarra na falta de interiorização e comunicação entre órgãos.
“A política pública é efetiva quando alcança a mulher em situação de vulnerabilidade. Mas ainda há programas que existem apenas na teoria. Essa mulher, lá no bairro Santo Antônio, São José, Nova Cidade, Valparaíso, nas comunidades ribeirinhas ou no interior, nem sabe que esses programas existem. No interior, onde não há atendimento especializado, o acesso é muito mais difícil e o serviço é precário. Isso compromete a efetividade das políticas públicas”, afirma.
Pauta feminina como bandeira política
A diretora-presidente, advogada Amanda Pinheiro, é incisiva ao apontar que a pauta de proteção às mulheres ainda não é tratada como prioridade de Estado.
“A pauta feminina precisa ser prioridade. Hoje, muitas vezes, ela é usada como bandeira política e até como moeda de negociação. Temos parlamentares que trabalham com seriedade, mas enfrentam barreiras na aprovação de propostas. O Judiciário também precisa se adequar, analisando casos sob perspectiva de gênero, como prevê a lei. E isso exige capacitação constante de todos que atuam na rede de proteção e enfrentamento”, defende.
Ela compara a rede de proteção a uma malhadeira, rede de pesca tradicional da Amazônia, para explicar como a falta de comunicação entre órgãos pode resultar na perda do vínculo com a vítima.
“Se um nó dessa rede afrouxa, o peixe escapa. É o que acontece quando uma mulher é atendida por um órgão, encaminhada a outro, mas não há troca de informações sobre o que foi feito. Sem acompanhamento, essa mulher se perde no sistema. E a violência, que é sistêmica, só pode ser combatida com uma atuação em rede organizada e articulada”, alerta.
“Nunca é tarde para recomeçar”
A empreendedora e terapeuta Dra. Raquel Pinheiro é prova viva da importância de buscar instituições que acolhem mulheres vítimas de violência. Ela chegou fragilizada, após sofrer violência psicológica em um relacionamento abusivo, e foi acolhida junto com a filha.
“Fui atendida há mais de dois anos. Na época, estava vulnerável, sem autoestima e sem vontade de nada. O Instituto nos deu amparo social, jurídico e psicológico. Isso me ajudou a levantar, a voltar para minha profissão e a me sentir empoderada. Hoje, digo para outras mulheres: não tenham medo, procurem ajuda. Nunca é tarde para recomeçar. Deus coloca pessoas como anjos na nossa vida, e a doutora Amanda foi um deles para mim”, relata.
Raquel destaca que o apoio recebido foi além do momento de crise, oferecendo oportunidades de crescimento e capacitação profissional.
“Aqui temos a chance de nos profissionalizar novamente. Muitas vezes, pensamos: ‘Já não tenho idade para uma nova chance’. Mas sempre há tempo. É só dar o primeiro passo e admitir que sozinha não é possível. Existem instituições prontas para acolher e ajudar a vencer”, reforça.
“Falta divulgação e mais estrutura”
Mesmo quem não foi vítima direta de violência doméstica reconhece as fragilidades do sistema. A estudante Camila Roberta, que conhece pessoas que já passaram por essa situação, afirma que a rede de apoio precisa ser mais visível e abrangente.
“Muitas mulheres não denunciam porque não sabem a quem recorrer. É preciso mais divulgação, mais delegacias especializadas e mais gente capacitada para atender essas vítimas. Os serviços existem, mas não chegam a todas. Elas merecem respeito e precisam saber que têm a quem recorrer”, diz.
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