(Foto: Isabela Castilho/ COP30 Brasil Amazônia e Fernando Frazão/ Agência Brasil)
Manaus (AM) – A realização da COP 30, marcada para novembro em Belém, desperta tanto expectativas quanto preocupações entre especialistas e comunidades tradicionais da Amazônia. Enquanto autoridades e organizações internacionais destacam a oportunidade de colocar a região em evidência no cenário global, líderes indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas questionam se o evento trará benefícios concretos para seus territórios, direitos e condições de vida.
A ambientalista Fabiana Rocha, consultada pelo Portal AM1, alerta para o risco de que a conferência seja usada apenas como vitrine política, sem compromissos duradouros.
“A logística e os gastos muitas vezes desviam o foco, favorecendo anúncios que não têm execução comprovada. Isso caracteriza uma ‘maquiagem verde’”, afirmou.
(Foto: Arquivo pessoal Fabiana Rocha)
Segundo ela, fatores como problemas de logística, superfaturamento em hospedagens e a falta de clareza na aplicação de recursos públicos já marcam a preparação do evento em Belém, desviando a atenção do que realmente importa.
Ela também chamou a atenção para metas pouco mensuráveis, ausência de financiamento transparente e participação social restrita, o que, em sua avaliação, ameaça transformar a conferência em palco de discursos, em vez de políticas públicas concretas.
Indicadores de legado positivo
Para medir impactos efetivos da COP 30, a ambientalista sugere critérios claros: demarcação de terras, processos fundiários atualizados, protocolos de consulta prévia para atividades econômicas como o crédito de carbono, desembolso de recursos financeiros diretamente às comunidades, acesso à saúde, educação e saneamento, além da redução de desmatamento e queimadas.
“Também é essencial avaliar a participação real das lideranças de base nos eventos e a execução dos planos com cronograma e orçamento claros”, explicou.
Desenvolvimento urbano e proteção ambiental
Sobre o equilíbrio entre expansão urbana e preservação de modos de vida tradicionais. Para isso, Fabiana defendeu o planejamento territorial integrado, com planos diretores urbanos, recuperação de áreas naturais e soluções baseadas na natureza, como saneamento sustentável e mobilidade coletiva.
Ela também ressaltou a necessidade de investir em mobilidade sustentável, evitando a abertura de novos eixos em áreas protegidas. Além disso, apontou como fundamental o fortalecimento da bioeconomia local, por meio de iniciativas de manejo, restauração, turismo comunitário e linhas de crédito específicas para ribeirinhos, povos indígenas e demais comunidades tradicionais.
“É preciso priorizar infraestrutura que não pressione áreas sensíveis, valorizando bioeconomias locais e turismo de base comunitária com assistência técnica”, acrescentou.
Vulnerabilidade frente às mudanças climáticas
A ambientalista destacou ainda que pesquisas recentes, incluindo relatórios do IPCC, mostram que povos indígenas e comunidades tradicionais estão entre os grupos mais vulneráveis às mudanças climáticas.
Fabiana destacou que povos tradicionais sofrem impactos desproporcionais de eventos extremos, como cheias e secas, que afetam alimentação, água e atividades essenciais, agravados pela falta de serviços básicos de saúde e infraestrutura.
Ela explicou também que a Amazônia, além de sofrer pressões do aquecimento global e do desmatamento, possui elementos que podem atuar como barreiras naturais. Terras indígenas e unidades de conservação concentram grandes estoques de carbono e ajudam a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Segundo a ambientalista, a proteção e o manejo adequado desses territórios são fundamentais para reduzir os impactos sobre as comunidades locais.
“Eu acho que também o monitoramento e adaptação da base comunitária, ela acaba sendo um alerta para essas mudanças climáticas. E isso impacta diretamente nessas comunidades. Esse alerta acaba mostrando as sequências cheias, as anomalias”, declarou Fabiana.
Por fim, a especialista enfatizou a importância de políticas públicas que fortaleçam o monitoramento comunitário e apoiem respostas locais. Garantir a demarcação de terras, investir em serviços básicos e adotar medidas de adaptação e mitigação climática são passos essenciais para proteger os modos de vida tradicionais e reduzir a vulnerabilidade dessas populações frente às mudanças do clima.
Data da Conferência
A Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30) será realizada em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Pela primeira vez, o Brasil receberá o encontro, considerado o principal fórum global para debate de soluções contra os efeitos das alterações climáticas.
A expectativa da organização é reunir cerca de 50 mil participantes, entre líderes mundiais, cientistas, ativistas e representantes da sociedade civil. Até o momento, 47 dos 196 países convidados já confirmaram presença.
Apesar das dúvidas levantadas sobre a infraestrutura da capital paraense, a ONU e o governo brasileiro reafirmaram que o evento será mantido em Belém.
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