Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

De sopas a castrações: vereadores usam ações para fidelizar eleitores

Embora apresentadas como ações de solidariedade, essas iniciativas levantam questionamentos sobre os limites entre assistência social e estratégia eleitoral.

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(Foto: Éder França/CMM)

Manaus (AM) – A distribuição de sopas, cestas básicas, serviços veterinários e outros tipos de auxílio virou prática constante entre vereadores de Manaus. Embora apresentadas como ações de solidariedade, essas iniciativas levantam questionamentos sobre os limites entre assistência social e estratégia eleitoral.

Exemplos não faltam: a vereadora Glória Carrate ficou conhecida pela distribuição de sopas em comunidades; já os vereadores Aldenor Lima e Kennedy Marques têm forte atuação na cauda animal e protagonizam a intermediação de serviços veterinários, como vacinação e castração de animais, já o vereador Dione Carvalho se dedica intermediar atendimento médico para famílias em unidades de saúde.

Para especialistas, tais práticas transformam a população em refém político, gerando uma relação de dependência e fidelização de votos.

O sociólogo Luiz Antonio Nascimento, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é categórico ao avaliar essas ações:

“Todas essas ações de vereadores, distribuindo alimento, fazendo doações, ajudando animais, etc., todas elas, na verdade, já ultrapassam quaisquer limites, por uma razão muito simples. Não é papel de vereador ficar doando cesta básica, doando cota para vacinar pet, castrar animal, etc. O que o vereador precisa fazer é criar leis e fiscalizar o cumprimento de leis que garanta a distribuição de comida para todas as pessoas que precisam de comida. E não só de alguns considerados que depois vão se sentir endividados, sequestrados por essas ações e obrigados a votar nesse vereador.”

Segundo ele, esse tipo de prática não só distorce a função do Legislativo municipal, como compromete a autonomia do eleitor:

“Afinal de contas, se o vereador me deu comida, se deu comida para o meu filho, se cuidou do meu pet, o eleitor cria uma dependência. Isso é uma das formas mais cretinas que tem de fazer política. A Câmara Municipal de Manaus não legisla os interesses da sociedade há muitos anos.”

Já o analista político Helso do Carmo traz outra perspectiva: para ele, o cenário de desigualdade estrutural no Brasil acaba alimentando esse modelo de atuação política.

“O Brasil é um país rico com muitos bolsões de miséria. Então isso faz com que parte considerável da população ainda necessite de atitudes paternalistas de ajuda. Boa parte dos políticos tenta perpetuar um nicho eleitoral na base desse paternalismo de dependência. Isso fideliza o eleitor que não tem condições, porque não vemos uma perspectiva imediata de acabar com esses bolsões. Enquanto eles existirem, veremos essas doações acontecendo para garantir voto.”

O desafio do debate público

O contraste entre a função constitucional do vereador e a prática de ações assistencialistas revela um dilema que se repete a cada ciclo eleitoral. De um lado, a necessidade real de populações em vulnerabilidade; do outro, o risco de que essas ações individuais substituam políticas públicas estruturadas e se transformem em moeda de troca eleitoral.

A discussão mostra que, em Manaus, a política do “favor” continua a se sobrepor ao debate legislativo, deixando em aberto a pergunta central: até quando o auxílio imediato será usado como estratégia para perpetuar mandatos?

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