(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil)
Manaus (AM) – Em um momento em que a Amazônia está no centro das negociações climáticas mais importantes do planeta, mesmo sendo o estado que concentra a maior parte da floresta, o Amazonas chega aos debates mundiais sobre clima desfalcado, já que quase toda a sua bancada federal deixa de participar da COP.
Com a bancada praticamente ausente, apenas dois dos 8 deputados federais do Amazonas compareceram na COP30 desde o início do evento. A representação do estado acabou ficando praticamente restrita ao governador Wilson Lima (UB) e ao prefeito David Almeida (Avante).
Especialistas ouvidos pelo Portal AM1 afirmam que essa ausência tem impacto direto na capacidade do estado de defender seus interesses, atrair investimentos e disputar protagonismo dentro da própria Amazônia Legal.
“Ambiental não dá voto no Amazonas”, diz analista político
Para o analista político Helso Ribeiro, explicou que os políticos profissionais costumam seguir aquilo que as pesquisas eleitorais mostram. Eles sabem exatamente quais temas rendem votos e quais não mobilizam o eleitorado.
“Infelizmente, a questão ambiental não está na pauta das demandas do eleitorado de Manaus e do Amazonas. Os políticos já entenderam isso”, explica.
O analista avalia que isso, tem a ver com o fato de que os amazonenses vivem cercados pela floresta, convivem com a natureza no dia a dia e, por isso, muitos acabam achando que ela é infinita ou até inconveniente. Para ele, os políticos captam esse sentimento, que não representa todos, mas uma parcela significativa da população e passam a reproduzir essa postura, evitando se envolver em agendas ambientais.
Helso deu exemplos dos debates como o da BR-319, no qual ambientalistas são contra o asfaltamento, mas grande parte da população é a favor, porque vê na estrada uma oportunidade de deslocamento. Desse modo, ele afirma, que o eleitorado do Amazonas não coloca a questão ambiental como prioridade, e os parlamentares seguem exatamente essa tendência, deixando de participar ativamente dessas discussões.
“Na BR-319, por exemplo, boa parte da população é favorável ao asfaltamento. Já causas ambientais, não”, afirma Helso.
Essa percepção acaba afastando parlamentares de agendas climáticas. O analista cita que ações como a despoluição do igarapé do Mindu ou a implementação de uma usina de reciclagem em Manaus poderiam ser viabilizadas por meio de diálogos e acordos internacionais, pois, esses tipos de projetos costumam surgir a partir de negociações realizadas em eventos globais.
Segundo ele, porém, essas pautas nem sempre aparecem como prioridade na agenda política, o que faz com que a participação em discussões internacionais não ocorra com frequência.
Perda de protagonismo e oportunidades
A engenheira florestal Fabiana Rocha reforça que a ausência dos parlamentares do Amazonas na COP tem consequências práticas e graves. A COP não é um evento voltado apenas para chefes de Estado, embora a chamada “zona azul” seja restrita a eles.
Segundo ela, grande parte das articulações relevantes ocorre em outros espaços dentro da conferência, como painéis, reuniões técnicas, encontros multilaterais e eventos paralelos, onde são discutidos financiamentos, compromissos climáticos, formação de redes e cooperações.
Os parlamentares têm legitimidade e papel institucional para defender programas voltados à Amazônia, incluindo temas como conservação, bioeconomia, infraestrutura verde, combate ao desmatamento e ajustes regulatórios que apoiem modelos de desenvolvimento específicos da região.
A especialista ressalta que a COP não libera recursos automaticamente, mas funciona como o ambiente onde são criadas as conexões necessárias para que financiamentos sejam direcionados de países ou instituições que possuem os recursos para os locais que precisam deles.
Governos, segundo ela, conseguem abrir portas e facilitar o trabalho dos parlamentares na articulação de emendas, leis, parcerias com organismos internacionais e negociações com ministérios, bancos e fundos climáticos, especialmente os bancos multilaterais.
“Parlamentares têm poder institucional para defender programas para a Amazônia, negociar com ministérios, bancos multilaterais e fundos climáticos. Sem eles, o Amazonas perde força”, afirma Fabiana.
Dessa forma, a engenheira afirma que a ausência de parlamentares reduz a capacidade do Amazonas de se apresentar como destino prioritário para investimentos climáticos. E lembra que, embora atualmente o Pará esteja em evidência, a Amazônia Legal é composta por nove estados, e todos competem pelo mesmo espaço de visibilidade e recursos.
“Quando o Amazonas não se posiciona, outros estados falam por ele. E isso influencia onde serão instalados projetos-piloto, centros de inovação, hubs de bioeconomia e laboratórios de pesquisa”, alertou
Sem presença ativa, o Amazonas perde a oportunidade de disputar protagonismo em temas como uso do território, participação de populações tradicionais e povos originários, e apresentação de propostas que podem influenciar políticas públicas.
“E isso acaba influenciando a gente, querendo ou não, em projetos pilotos que poderiam ter sido instalados e não serão. Acaba indo de encontro com as cidades que poderão sediar hubs de inovação, centro de pesquisa, investimento. Além disso, a gente perde esse destaque internacional”, declarou a engenheira florestal.
Segundo a especialista, as decisões discutidas na COP, frequentemente resultam em marcos legais e diretrizes de mercado de carbono, normas de conservação, regras de uso do solo e incentivos para cadeias produtivas sustentáveis, áreas nas quais a participação do estado seria fundamental.
Impactos diretos: recursos, projetos e decisões feitas sem o Amazonas
A especialista alertou que falta de articulação política relacionado ao meio ambiente, pode diminui o acesso do Amazonas a:
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fundos climáticos internacionais;
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programas de pagamento por resultados;
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investimentos para bioeconomia e inovação;
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parcerias acadêmicas e tecnológicas;
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projetos estruturantes de infraestrutura verde.
Segundo ela, bancos internacionais têm buscado informações e oportunidades no Amazonas, mas o estado chega às negociações “desorganizado politicamente”.
Declaração de Omar Aziz vai contra a lógica da COP, avalia especialista
Fabiana também comentou a declaração do senador e pré-candidato ao Governo do Estado, Omar Aziz, em entrevista ao site BNC Amazonas, no qual afirmou que a COP “nunca trouxe benefícios” para o Amazonas. Segundo ela, essa visão ignora os impactos positivos que os estados passam a receber indiretamente ao participar do evento.
“Ele desconsidera os benefícios indiretos que chegam aos estados e o papel essencial da articulação política. A COP não funciona com decisões individuais. O Amazonas precisa ser muitos, não apenas uma pessoa”, declarou.
Para a especialista, a atuação do Amazonas deve ser coletiva e articulada, envolvendo diversos atores políticos e institucionais, e não ficar restrita a uma única figura pública.
Amazônia no centro, Amazonas à margem
Com o mundo voltado para a proteção da floresta e para modelos sustentáveis de desenvolvimento, o Amazonas, que deveria ser protagonista, segue perdendo espaço.
A ausência da bancada federal na COP, segundo especialistas, deixa o estado menos competitivo, menos visível e menos preparado para disputar oportunidades climáticas que poderiam transformar sua economia.
E enquanto outros estados amazônicos avançam, o Amazonas corre o risco de continuar apenas assistindo, em vez de liderar, o debate sobre o futuro da maior floresta tropical do planeta.
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