Manaus, 27 de julho de 2026
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Manaus, 27 de julho de 2026

Cenário

Amazonas tem uma das menores taxas de sindicalização do país

Especialistas entrevistados pelo Portal AM1 apontam que baixa sindicalização e pouca adesão a cooperativas deixam profissionais mais vulneráveis.

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(Foto: Jose Zamith de Oliveira Filho/ Agência Brasil)

Manaus (AM) – A adesão dos trabalhadores a sindicatos e cooperativas no Amazonas ficou abaixo da média observada tanto na Região Norte quanto no restante do Brasil, revelando que a organização coletiva ainda não é prioridade para grande parte da população ocupada no estado.

Dados recentes do IBGE mostram que apenas 5,5% dos trabalhadores amazonenses eram sindicalizados em 2023, o equivalente a 98 mil pessoas entre 1,8 milhão de ocupados. O índice é inferior às médias da Região Norte (7,0%) e do Brasil (8,9%). Os números colocam o Amazonas entre os estados com menor engajamento em organizações coletivas de trabalho no país.

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(Tabela agência de noticias IBGE)

Para entender as causas e consequências desse cenário, o Portal AM1 entrevistou com exclusividade especialistas em sociologia e direito trabalhista, que explicaram por que o estado enfrenta tantos obstáculos à organização coletiva e como isso impacta diretamente a vida do trabalhador amazonense.

Negociações enfraquecidas e perda de direitos

O especialista em direito trabalhista Gabriel Pinheiro, ouvido exclusivamente pelo Portal AM1, explica que a baixa sindicalização reduz o poder de negociação dos trabalhadores em todo o Norte, especialmente no Amazonas.

“Quando a sindicalização é baixa, as negociações coletivas ficam mais frágeis. A maioria dos trabalhadores estão sem representação formal”, afirma.

Segundo ele, isso resulta em acordos menos vantajosos, salários que avançam menos e menor capacidade de reivindicar condições dignas ou enfrentar abusos. Ao ser questionado sobre se a reforma trabalhista teria contribuído para essa queda, Gabriel destacou que a Reforma Trabalhista de 2017, ao tornar opcional a contribuição sindical, gerou um “efeito cascata”.

A reforma trabalhista contribuiu para essa queda?

Uma tradição histórica de fragilidade organizativa

Para o sociólogo Luiz Antônio, a baixa sindicalização no Amazonas não é um fenômeno isolado, mas resultado de um processo histórico nacional que sempre dificultou a organização da classe trabalhadora.

“Desde antes da República, o Brasil vive sob coronelismo e autoritarismo político, o que reprimiu movimentos operários e sindicatos”, explica.

Ele lembra que, durante os períodos de Getúlio Vargas e da ditadura militar, sindicatos foram fechados ou passaram a ser controlados por dirigentes alinhados ao governo, os chamados pelegos.

Segundo o sociólogo, tanto no ABC paulista quanto em regiões como Manaus, trabalhadores muitas vezes precisaram se articular por fora das estruturas oficiais.

“No Amazonas, ainda hoje muitos sindicatos são dominados por dirigentes ligados a interesses patronais”, afirma.

Para ele, a percepção popular de que “sindicato não serve para nada” é equivocada e tem raízes nessa trajetória de repressão e descrédito. Ele lembra que, enquanto os trabalhadores se afastam, os empresários seguem organizados em entidades fortes, que influencia políticas nacionais.

“A baixa filiação é fruto de anos de ataques, repressão e desestímulo. O trabalhador passa a enxergar o sindicato apenas como lugar de benefícios, e não como espaço de luta e defesa coletiva”, conclui.

Informalidade, distâncias e cultura do trabalho individual

A socióloga Bianca Rocha, destaca que a baixa participação sindical e cooperativa no Amazonas é explicada por fatores que vão além da política e da história, inclui questões sociais, econômicas e geográficas. Um dos pontos centrais é a alta informalidade, que afasta trabalhadores dos direitos e das negociações coletivas.

“Quem trabalha sem carteira assinada não vê utilidade prática na atuação sindical, porque não participa de acordos salariais nem tem garantias formais”, afirma.

Além disso, as grandes distâncias entre municípios, muitos deles acessíveis apenas por rio, dificultam qualquer ação organizativa.

“Reuniões, assembleias e acompanhamento constante das demandas se tornam logisticamente complexos”, explica.

O estado tem ainda baixa industrialização fora da Zona Franca de Manaus, predominância de pequenas empresas e ocupações familiares, como pesca, agricultura de subsistência e extrativismo. Nessas atividades, a lógica coletiva nem sempre faz parte da cultura local.

“Muitas comunidades amazônicas sempre resolveram suas questões no nível familiar ou comunitário, sem estrutura formal. Esse isolamento histórico contribui para a ausência de cultura sindical”, afirma Bianca.

Outro fator é a instabilidade econômica, que leva ao individualismo laboral.

“O trabalhador busca sobreviver no curto prazo. Engajar-se em sindicato ou cooperativa parece secundário diante de necessidades urgentes”, explica.

Falhas e descontinuidade de políticas públicas também alimentam a desconfiança em organizações.

“Quando o Estado falha, cria-se a sensação de que nenhuma estrutura coletiva funciona, e o descrédito se estende aos sindicatos e cooperativas”, completa a socióloga.

Consequências práticas para quem trabalha

Para especialistas, a baixa organização dos trabalhadores no Amazonas tem efeitos diretos sobre as condições de trabalho:

  • Menor poder de negociação salarial

  • Maior vulnerabilidade em ambientes informais

  • Dificuldade de reivindicar direitos básicos

  • Fragilidade diante de crises econômicas e mudanças nas leis trabalhistas

  • Menor força política para pressionar por melhorias

Em setores como comércio, agricultura familiar e serviços urbanos, a ausência de articulação coletiva deixa trabalhadores mais expostos a jornadas irregulares, remunerações baixas e pouca proteção social.

Desafios e caminhos possíveis

Para reverter esse cenário, os especialistas defendem mudanças estruturais. Bianca Rocha acredita que políticas públicas adaptadas à realidade amazônica são essenciais.

“Não adianta aplicar modelos sindicais pensados para regiões industriais. É preciso criar soluções que considerem a geografia, a cultura local e o tipo de atividade econômica do Amazonas”.

Isso inclui fortalecer cooperativas rurais, incentivar associações comunitárias, fomentar economia solidária e ampliar a presença digital de sindicatos, reduzindo barreiras geográficas.

Luiz Antônio acrescenta que é fundamental reconstruir a confiança dos trabalhadores.

“Só haverá aumento da sindicalização quando o trabalhador perceber que o sindicato é seu instrumento de luta, e não um sistema burocrático distante”.

Mais do que números, os dados do IBGE revelam um estado onde a mobilização coletiva ainda encontra muitos obstáculos, deixando trabalhadores com menos proteção, menos voz e menor capacidade de negociação.

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