(Foto: Divulgação/Agência Amazonas)
Manaus (AM) – O Governo do Amazonas transformou a Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC) em uma espécie de caixa-preta oficial da cultura. Entre 2020 e 2025, a SECT repassou R$ 1.609.600.748,98 para a agência — valores que correram quase sempre por fora das regras usuais de controle e instrumentos de repasse com exigências fiscais mais flexíveis.
Os números falam por si:
* 2020: R$ 74.021.526,19
* 2021: R$ 99.168.550,14
* 2022: R$ 223.750.805,82
* 2023: R$ 306.067.730,45
* 2024: R$ 466.538.011,06
* 2025: R$ 440.054.125,32
No papel, a lógica seria simples: a SECT transfere recursos; a AADC executa; depois presta contas. Na prática, virou o caminho preferencial para turbinar eventos, bancar shows, contratar artistas, pagar estruturas e engatar projetos culturais inteiros longe da burocracia que recai sobre secretarias tradicionais.
A agência recebe. Contrata. Paga. Entrega o produto pronto. E quem leva o crédito político? A SECT — convenientemente protegida pela intermediação da AADC.
À frente da AADC está Edval Machado Júnior, nomeado diretor-presidente da Agência. Antes de assumir a AADC, ele atuou como advogado e publicitário, segundo registros de evento com a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas – FIEAM em que declarou intenção de “modernizar e criar mais transparência nos processos” da agência.
Mas a retórica de transparência contrasta com os fatos: em março de 2025 ele chancelou aditivos milionários para empresas de eventos como Formato Telões e Estruturas Ltda e Unipublicidade Organização de Eventos Ltda — por valores como R$ 1,4 milhão, R$ 769 mil e R$ 2,9 milhões em contratos sob sua presidência.
Ou seja: a liderança formal da agência está sob Edval Machado Júnior — e ele é parte central da engrenagem que canaliza recursos públicos para eventos, estruturas e contratações em larga escala.
Dinheiro rápido, pouca transparência e muito marketing
A AADC funciona, na prática, como o principal braço operacional da SECT — e, ao mesmo tempo, sua blindagem política. Qualquer custo alto, contratação polêmica ou execução controversa vira responsabilidade da agência, enquanto a pasta colhe os frutos das entregas.
Essa engenharia permite rapidez para gastar, já que a AADC utiliza modelos contratuais menos engessados que a administração direta; menor exposição pública, pois a execução fica diluída dentro da agência; discurso político mais forte, com a SECT se apresentando como promotora de grandes ações, mas sem o ônus da execução.
Enquanto isso, o setor cultural continua encarando velhos problemas: editais escassos, democratização limitada dos recursos e o predomínio de decisões concentradas em poucos grupos.
Transparência zero
Os mais de R$ 1,6 bilhão repassados em cinco anos revelam uma escolha clara do Governo do Amazonas: manter a cultura sob forte investimento — mas com controle público reduzido.
A AADC virou a engrenagem perfeita para um modelo que privilegia velocidade e impacto político. O governo tem usado a cultura como vitrine, mas a vitrine custa caro — e é paga com dinheiro público que passa por um caminho cada vez mais questionado.
Se o modelo é eficiente para o marketing institucional, é péssimo para a transparência e para a credibilidade da gestão cultural do Estado. Diante dos valores bilionários, continuar sem explicações claras já não é mais uma opção aceitável.
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