Manaus, 7 de julho de 2026
×
Manaus, 7 de julho de 2026

Cidades

Morte após internação de rotina gera ação judicial contra hospital Santa Júlia em Manaus

Caso envolvendo supostas falhas no atendimento segue sem conclusão quase oito anos depois.

Justiça obriga White Martins a fornecer oxigênio líquido ao Hospital Santa Júlia

(Foto: Reprodução/hospital Santa Júlia)

Manaus (AM) – Ao Portal AM1, a filha de Elizabeth da Costa Saraiva da Silva relatou que uma internação considerada de rotina terminou em morte e sofrimento, dando início a uma longa batalha por justiça.

Em Manaus, a família move uma ação judicial contra o Hospital Santa Júlia, localizado na avenida Ayrão, no bairro Centro, acusando a unidade de saúde de negligência grave, omissão de socorro e falhas no atendimento que, segundo o processo, teriam provocado a morte da paciente.

De acordo com as informações, Elizabeth deu entrada no hospital em outubro de 2017 para acompanhamento médico e foi submetida a uma cirurgia cardíaca.

O procedimento teria ocorrido dentro do esperado, e a paciente apresentou sinais de recuperação, chegando a receber alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No entanto, após ser transferida para o quarto, o quadro de saúde se agravou.

Segundo o relato, Elizabeth sofreu uma hemorragia intensa no pulso, permanecendo cerca de quatro horas sangrando sem atendimento eficaz.

A filha de Elizabeth disse a reportagem que os familiares pediram ajuda diversas vezes, mas receberam apenas curativos improvisados, que não conseguiram conter o sangramento. A demora no socorro teria provocado um choque hipovolêmico grave.

Após o episódio, o estado de saúde de Elizabeth  se deteriorou rapidamente.

“Ela sofreu infecções generalizadas, falência de órgãos e teve as duas pernas amputadas após entrar em coma por mais de 40 dias. Em 9 de janeiro de 2018, ela não resistiu”, disse.

A ação judicial foi movida pela filha da paciente, que relata ter desenvolvido graves problemas emocionais após presenciar o sofrimento da mãe ao lado do pai e de duas irmãs.

No processo, a família sustenta que o hospital falhou em deveres básicos de vigilância, emergência e cuidado, e pede indenização por danos morais, além de responsabilização para evitar que casos semelhantes se repitam.

Apesar da gravidade, a filha da vítima disse que o processo segue sem conclusão. O principal entrave, segundo consta nos autos, é a ausência de perícia médica, considerada essencial para o andamento da ação.

A Justiça teria enfrentado sucessivas dificuldades para nomear um perito, diante de recusas, impedimentos e entraves localizados no próprio meio médico de Manaus.

Segundo a filha de Elizabeth, haveria um ambiente de proteção corporativa, no qual profissionais evitam produzir laudos técnicos contra colegas, o que inviabiliza a prova pericial e mantém o processo estagnado.

“Minha mãe já morreu há quase oito anos. Ela sofreu, foi mutilada, ficou em coma, e até hoje não existe uma resposta. A maior dor é ver que ninguém é responsabilizado”, desabafou a filha de Elizabeth.

Ela ainda disse que o maior problema é a perícia médica, relatando que nenhum médico na capital aceita periciar o caso.

morte-apos-internacao-de-rotin

Antes e depois da vítima Elizabeth da Costa Saraiva da Silva (Fotos: Cedidas ao Portal AM1)

morte-apos-internacao-de-rotin

(Fotos: Cedidas ao Portal AM1)

A medicação

Conforme documento enviado ao Portal AM1, assinado digitalmente por Douglas Aleixo Santos da Cruz (TJAM), em 12/08/2019, o Hospital Santa Júlia, entre seus argumentos de defesa, alega que a genitora era uma mulher de 60 anos, previamente diagnosticada com Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Diabetes Mellitus (DM), Doença Arterial Crônica (DAC), Insuficiência Mitral (IM) e Insuficiência Renal Crônica (IRC).

Ainda segundo o hospital, diante dessas comorbidades, a paciente foi internada em 25 de outubro de 2017 com sintomas de fraqueza e falta de apetite, ocasião em que foram realizados procedimentos de hemodiálise, segundo a defesa, sem uso de heparina, sendo posteriormente transferida para a UTI Coronariana para a realização de um cateterismo de urgência.

Por outro lado, a réplica apresentada pela autora sustenta que a própria contestação do hospital confirma a negligência no tratamento.

O documento destaca que a unidade de saúde admite ter conhecimento de que a paciente era portadora de Hipertensão Arterial Sistêmica e Insuficiência Renal Crônica, condições que contraindicam o uso da heparina, conforme consta expressamente na bula do medicamento, anexada aos autos.

A heparina, anticoagulante utilizado para “afinar” o sangue e facilitar procedimentos de hemodiálise, é contraindicada em casos de insuficiência renal, hipertensão arterial grave e insuficiência hepática, exatamente o quadro clínico apresentado por Elizabeth.

Para a família, a inobservância de um alerta claro de contraindicação reforça a acusação de que o hospital agiu com negligência, imprudência e imperícia, ao ignorar o estado de saúde da paciente e administrar o medicamento durante o procedimento.

A reportagem solicitou posicionamento oficial do Hospital Santa Júlia sobre as acusações, os protocolos adotados no caso e as alegações relacionadas ao uso ou não de heparina, além de outros esclarecimentos que a instituição julgasse necessários.

Até a última atualização desta matéria, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.

LEIA MAIS