Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Debate sobre jornada de trabalho evidencia realidade da escala ‘7×0’ para mulheres no Brasil

Dados da OIT mostram que mulheres brasileiras dedicam quase 10 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado, cenário debatido durante audiência sobre o fim da escala 6x1 na Aleam.

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(Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias)

Manaus (AM) – A sobrecarga enfrentada pelas mulheres trabalhadoras ganhou destaque durante audiência pública realizada nesta sexta-feira (22), na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), sobre o debate em torno do fim da escala 6×1. O encontro reuniu representantes sindicais e trabalhadores para discutir os impactos da jornada considerada exaustiva sobre a saúde física, mental e social da população.

Durante a audiência, a presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB) Amazonas, Ana Cristina Rodrigues, chamou atenção para o peso desigual da rotina de trabalho sobre as mulheres. Segundo ela, para grande parte das trabalhadoras, a jornada não termina ao fim do expediente formal.

“A nossa escala não é 6 por 1, senhores. Ela é 7 por 0. Porque cada dia que nós saímos do nosso posto de trabalho, nós vamos para as nossas casas continuar o trabalho”, afirmou.

“Escala 7×0”

A declaração sintetiza uma realidade apontada por dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Conforme o relatório “Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho”, as mulheres brasileiras dedicavam, em 2022, em média, 9,8 horas semanais a mais do que os homens aos trabalhos de cuidado não remunerado.

A desigualdade se intensifica nas áreas rurais, onde as mulheres realizam mais que o dobro de horas de cuidados domésticos em comparação aos homens. Nesses territórios, a diferença chega a 12,4 horas semanais a mais para elas.

O cenário também evidencia um recorte racial. Segundo o mesmo levantamento, mulheres negras dedicam mais tempo ao trabalho de cuidado do que mulheres brancas: são, em média, 22,4 horas semanais contra 20,7 horas. A diferença aparece em todas as faixas de renda familiar.

Os números refletem uma tendência global. Ainda de acordo com a OIT, as mulheres realizam 76,2% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo e dedicam, em média, 3,2 vezes mais tempo a essas atividades do que os homens. Atualmente, cerca de 606 milhões de mulheres em idade ativa exercem trabalhos de cuidado não remunerados em tempo integral, frente a 41 milhões de homens.

Além da sobrecarga doméstica, o debate na Aleam também abordou os impactos da jornada de trabalho sobre a saúde mental. Durante a audiência, foram apresentados dados indicando aumento de 15% nos afastamentos por transtornos mentais entre 2024 e 2025, cenário associado ao desgaste provocado pelas longas jornadas e pela intensificação do trabalho.

Burnout

Os dados apresentados durante a audiência pública na Aleam foram divulgados pelo Ministério da Previdência Social, em janeiro deste ano, e reforçam o avanço do adoecimento mental entre os trabalhadores brasileiros. Em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,66% em relação a 2024, quando o número registrado foi de 472.328 concessões.

Entre os principais motivos para afastamento estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos, que lideraram o volume de benefícios concedidos nos dois anos analisados. Considerando todas as doenças classificadas pela CID-10, o crescimento nos benefícios por incapacidade temporária entre 2024 e 2025 foi de 15,19%.

O cenário acende um alerta quando o Brasil é comparado ao restante do mundo. Segundo dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), cerca de 30% das pessoas ocupadas no país sofrem com a síndrome de burnout. O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de casos da doença, evidenciando o agravamento da crise de saúde mental associada às condições de trabalho.

Na avaliação das entidades sindicais, a redução da jornada para 40 horas semanais, com meta futura de 36 horas, é defendida como medida de proteção à saúde do trabalhador e de melhoria da qualidade de vida, além de potencialmente reduzir afastamentos e rotatividade nas empresas.

Representantes dos trabalhadores também rebateram críticas do setor patronal sobre possíveis impactos econômicos negativos da mudança. Durante o debate, foram citados exemplos históricos, como a criação do 13º salário, inicialmente alvo de resistência empresarial, mas posteriormente incorporado à dinâmica econômica do país.

A audiência pública integra a mobilização nacional em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221, que discute alterações na jornada de trabalho e nas regras da escala 6×1 no Brasil.

Audiência

Manaus foi a última etapa do programa “Câmara pelo Brasil”, que percorreu diferentes regiões do país promovendo debates sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho. A audiência realizada na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) reuniu representantes de trabalhadores, empregadores e movimentos sindicais em um plenário lotado.

Desde o início do mês, as discussões passaram por todas as regiões brasileiras, em uma série de sete encontros presenciais, além das articulações e debates realizados em Brasília. A proposta busca reunir contribuições para a elaboração do texto que será analisado pela comissão especial criada na Câmara dos Deputados para discutir as mudanças na jornada de trabalho.

 

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