Wilson Lima (à esquerda) foi quem nomeou William Abreu (no centro), que permanece no cargo enquanto Roberto Cidade (à direita) está governador do Amazonas (Fotos: Divulgação/Assessorias)
Manaus (AM) – O diretor-presidente da Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (AADESAM), William Alexandre Silva de Abreu, terá de prestar esclarecimentos ao Ministério Público Eleitoral sobre uma operação de demissões e contratações realizada pela agência no início de julho.
William é citado pessoalmente no processo que tramita no Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) como diretor-presidente da instituição e requerido na ação apresentada pela Procuradoria Regional Eleitoral. William foi nomeado ainda na gestão do ex-governador Wilson Lima, e permanece no cargo mesmo sob a nova gestão do governador Roberto Cidade.
A investigação eleitoral apura possível uso da estrutura da AADESAM para fins político-eleitorais. Segundo a Procuradoria, a representação relata uma sequência de desligamentos em massa a partir de 4 de julho, com trabalhadores sendo chamados ao setor de Recursos Humanos para procedimentos de rescisão. Também foram relatados exames demissionais com datas retroativas e a suposta abertura de vagas para pessoas politicamente vinculadas ao chefe do Executivo estadual. Essas alegações ainda são objeto de apuração.

O nome de William aparece de forma direta porque o Ministério Público Eleitoral já havia encaminhado a ele, em sua condição de presidente da AADESAM, o Ofício nº 104/2026/PRE-AM. O documento requisitou, em cinco dias, a relação completa de desligamentos, convocações e contratações realizadas entre 1º de julho e 31 de dezembro de 2026, além da indicação dos projetos aos quais os trabalhadores seriam destinados.
Resposta da AADESAM
A agência respondeu por meio do Ofício nº 0616/2026-GAB/AADESAM, assinado por William. Na resposta, a AADESAM informou que as contratações relacionadas ao Edital nº 004/2026/CPSS/AADESAM ocorreram entre os dias 1º e 3 de julho e afirmou que, até aquele momento, não havia registro de desligamentos decorrentes dessas contratações.
A Procuradoria, porém, considerou a resposta insuficiente. Segundo o MPE, a requisição não perguntava apenas se os novos contratados haviam posteriormente sido demitidos, mas solicitava a relação completa de todos os desligamentos e contratações realizados no período.
O Ministério Público afirma que ficaram sem resposta informações como a relação nominal e as datas efetivas de admissão dos contratados, além dos desligamentos que não estavam relacionados ao Edital nº 004/2026.

William é citado pessoalmente no processo que tramita no Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) – (Foto: Divulgação/Assessoria)
461 desligamentos
A principal informação utilizada pela Procuradoria para justificar a necessidade de aprofundamento da investigação está em dados do eSocial.
Segundo o MPE, uma relação de trabalhadores extraída do sistema oficial apontou 461 empregados com desligamentos datados entre 1º e 3 de julho, mas cujas informações somente foram consolidadas no sistema após o início do período de vedação eleitoral. A Procuradoria afirma que o eSocial não registrava essas dispensas em 6 de julho.
Além dos desligamentos, a própria AADESAM teria admitido o processamento de mais de 140 admissões entre 1º e 3 de julho. Para o MPE, a concentração de admissões e desligamentos no mesmo intervalo é um dos elementos que justificam a continuidade da apuração.
O Ministério Público também aponta oito desligamentos com data de rescisão posterior a 3 de julho, período em que, segundo a Procuradoria, a vedação prevista no artigo 73, inciso V, da Lei das Eleições já estava em vigor.
William assinou atos de contratação
Além de responder ao Ministério Público, William aparece no próprio processo assinando documentos relacionados ao processo seletivo da AADESAM.
O Edital nº 004/2026/CPSS/AADESAM, vinculado ao Projeto Produzir Amazonas, teve atos de convocação publicados sob sua assinatura como presidente da agência. Há documentos datados de 1º e 2 de julho de 2026 assinados por William.
Isso coloca a presidência da AADESAM diretamente no centro da apuração documental. Até aqui, porém, o processo não comprova que William tenha determinado pessoalmente as demissões ou que tenha participado de eventual articulação eleitoral. O que está documentado é sua condição de presidente da agência, sua assinatura em atos de contratação e sua atuação formal na resposta encaminhada ao MPE.

William aparece no próprio processo assinando documentos relacionados ao processo seletivo da AADESAM.
O que o Ministério Público quer saber
Na ação apresentada ao TRE-AM, a Procuradoria pede acesso a documentos detalhados da AADESAM e do Estado. Entre eles estão as listas nominais dos desligados e contratados, datas de admissão e rescisão, registros transmitidos ao eSocial, projetos de lotação, termos de rescisão, avisos prévios, exames demissionais e documentos do processo seletivo.
O MPE também quer informações sobre os registros de acesso aos sistemas e do setor de Recursos Humanos, além de comunicações e mensagens enviadas aos empregados durante os dias 3 e 4 de julho.
A investigação busca verificar se houve irregularidade eleitoral nas demissões e contratações. Não há, até o momento, decisão judicial reconhecendo abuso de poder político ou eleitoral por parte de William Abreu.
Veja o documento do processo nº 0600830-86.2026.6.04.0000, em tramitação no TRE-AM.
LEIA MAIS:
- AADESAM vira ‘cabide eleitoral’ sob suspeita do Ministério Público
- Justiça Eleitoral manda retirar vídeo de Roberto Cidade em obra pública
- O ‘milagre de Natal’ do governo Wilson Lima com contratos que sobem enquanto a segurança cai







