Manaus, 7 de julho de 2026
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Manaus, 7 de julho de 2026

Política

Lava Jato prende Paulo Preto, dribla Gilmar e derruba secretário de Doria

Batizada de Ad Infinitum, a operação foi deflagrada a partir de investigação do Ministério Público Federal que acusa Paulo Preto de ter movimentado ao menos R$ 130 milhões em contas na Suíça, de 2007 a 2017.

Paulo Preto e Aloysio Nunes (Foto: Reprodução)

Uma nova fase da Operação Lava Jato prendeu nesta terça-feira (19) ex-diretor da Dersa (estatal paulista de rodovias) Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, suspeito de operar propina da Odebrecht para o PSDB.

Paulo Preto e Aloysio Nunes (Foto: Reprodução)

Também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao ex-chanceler Aloysio Nunes (PSDB), que presidia a estatal Investe SP do governo João Doria (PSDB). No fim da tarde, Aloysio pediu demissão.

Batizada de Ad Infinitum, a operação foi deflagrada a partir de investigação do Ministério Público Federal que acusa Paulo Preto de ter movimentado ao menos R$ 130 milhões em contas na Suíça, de 2007 a 2017.

Em uma dessas contas, segundo a Procuradoria, foi emitido um cartão de crédito em favor do ex-senador Aloysio Nunes, em dezembro de 2007 –que teria sido entregue a ele num hotel na Espanha. Na época, Aloysio era secretário da Casa Civil do governo José Serra (PSDB) em São Paulo. O cartão foi emitido na semana entre o Natal e o Ano-Novo.

O ex-chanceler no governo Michel Temer (MDB) negou ter recebido o cartão de crédito e afirmou nesta terça que não sabe por que está sendo investigado.

Em sua carta de demissão, o político tucano afirma que “foi surpreendido” com a ação da PF, que fez busca e apreensão em sua casa em São José do Rio Preto (SP).

Politicamente, sua situação era desconfortável para Doria. O governador se elegeu com um forte discurso em favor da moralidade, e a Lava Jato é o símbolo máximo da onda de revolta com a corrupção que desaguou na eleição de diversos nomes que encamparam essa bandeira –a começar pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

As investigações sobre as movimentações financeiras de Paulo Vieira de Souza começaram na Lava Jato de São Paulo, mas a Ad Infinitum foi deflagrada pela força-tarefa de Curitiba.

O motivo oficial dos procuradores é de que há indícios que eventuais desvios cometidos por Paulo Preto foram usados para pagamentos de propinas a ex-diretores e ex-gerentes da Petrobras, como Paulo Roberto Costa, Roberto Gonçalves e Pedro Barusco.

A conexão com a Petrobras leva o caso para o Paraná.

No entanto, essa medida também afasta –ao menos a princípio– o que o Ministério Público sempre considerou um entrave para casos relacionados aos governos tucanos em São Paulo: a relatoria do ministro Gilmar Mendes nos recursos feitos ao STF (Supremo Tribunal Federal).

O ministro havia interrompido a apuração paulista em 2017 porque havia um inquérito relacionado ao ex-governador José Serra que tratava dos mesmos fatos.

Porém, devido às mudanças nas regras do foro especial ocorridas em maio do ano passado, o inquérito teria que sair do STF. Neste ano, foram devolvidos ao estado, mas à Justiça Eleitoral.

Em Curitiba, o processo fica com a relatoria do ministro Edson Fachin, cujas decisões têm sido mais rígidas e em consonância com os pedidos dos procuradores.

Como as apurações sobre a movimentação financeira de Paulo Preto não podiam avançar na capital paulista, a Lava Jato do estado apresentou no último ano outras duas denúncias contra ele: por suspeita de desvios em reassentamentos no Rodoanel Sul e formação de cartel para obras viárias.

Paulo Preto chegou a ser preso preventivamente duas vezes no ano passado, mas em ambas as situações foi solto por habeas corpus concedidos por Gilmar.

Nesses dois casos, se tornou réu, mas deve ser beneficiado com a prescrição do primeiro após uma decisão de Gilmar que tornou mais lenta a tramitação do processo –em 7 de março, Paulo Preto completa 70 anos e o prazo para que acusações contra ele caduquem se reduz à metade.

A primeira prisão levantou suspeitas de que o ex-diretor pudesse firmar um acordo de delação que miraria o PSDB, o que acabou não acontecendo.

Ao autorizar a Ad Infinitum, a juíza substituta da 13ª Vara Federal de Curitiba, Gabriela Hardt, cita as decisões de Gilmar e afirma que o “presente caso, respeitosamente, foge ao alcance das decisões do Eminente Ministro.”

À reportagem o procurador Roberson Pozzobon negou que a operação tenha sido uma manobra. Segundo ele, a investigação não se centra nos crimes de corrupção praticados por Paulo Preto, mas na lavagem e evasão de divisas que ele cometeu em favor da Odebrecht. “Aqui, nós investigamos Paulo Preto como operador financeiro, e não como agente corrompido”, disse. “O nosso foco não está em como ele recebeu esse dinheiro e quais foram os ilícitos, mas sim o fato de que ele forneceu valores à Odebrecht e, em contrapartida, recebeu recursos ilícitos da empresa no exterior.”

“Compreender o esquema criminoso desde a sua gênese é muito caro para nós, até para que tenhamos provas mais robustas contra esses agentes”, afirmou Pozzobon.

Paulo Preto ficará em São Paulo até o dia 27, para acompanhar os depoimentos de um processo que o acusa de participação em formação de cartel para as obras do Rodoanel Sul, depois, irá a Curitiba.

Na casa do ex-diretor da Dersa, a Polícia Federal relatou não ter encontrado nenhum celular, mas dez cabos USB de carregamento dos aparelhos conectados à tomada.

OUTRO LADO

Procurada, a defesa de Paulo Preto disse que ainda irá analisar a documentação e não se manifestou. Ele sempre negou ter cometido qualquer irregularidade.

Em sua carta de demissão, Aloysio Nunes afirmou que “foi surpreendido” com a ação da PF. Disse não ter tido acesso ao inquérito e que está com a consciência tranquila.

Mas afirma que “fato incontornável é a repercussão negativa desse incidente, que me mortifica a mim e à minha família, e que também pode atingir o governo de Vossa Excelência”. Considerando que o processo poderá ter “duração imprevisível”, ele pede para deixar o cargo, ao qual agradece a Doria.

*Informações retiradas da Folhapress