À beira do abismo, famílias desafiam secretário Renato Júnior: ‘venha aqui, melar os pés’

O perigo e o risco iminente de desabamento trazem preocupação para os moradores. E o barro, que já caiu, transformou a vida nessa parte do bairro em um desafio
Bernardo Veras
Publicado em 06/04/2022 17:00
Foto reprodução

Em uma situação de desastre iminente, moradores da rua Pejuçara, no bairro Jorge Teixeira, zona leste, sofrem com o descaso e abandono por parte da Prefeitura de Manaus e da pasta de infraestrutura. A denúncia feita ao Portal AM1 foi comprovada pela equipe de reportagem nesta quarta-feira (6), que encontrou as famílias em situação de desespero.

No final da rua, um barranco tomou o lugar de um bosque arborizado, que segundo os moradores, se abriu há seis meses. E para ao menos quatro famílias, a situação de viver ‘à beira do abismo’, se tornou um pesadelo.

As fortes chuvas pioram cada vez mais a situação, pois a cada dia, mais um pedaço da estrutura cai e cai, causando preocupação que a qualquer momento uma tragédia ocorra no local.

A preocupação de Lugiane Cavalcante, de 46 anos, é redobrada. Ela mora com a mãe idosa e a filha, que está grávida. Para saírem de casa, elas precisam atravessar por um buraco feito no muro de um vizinho, para terem acesso à rua.

“A gente se sente abandonada nesse lugar, já veio muita gente aqui, fala, grava e não resolve nada. Eu tenho criança pequena em casa, de 6 anos, tenho minha filha grávida e minha mãe de 65 anos. Numa chuva dessa a gente fica preocupada. Na realidade, o prefeito não tem resposta, fica olhando pra [sic] outros cantos e esquece de nós aqui da periferia”, disse a moradora.

Lugiane Cavalcante

Em tom de tristeza, a mulher apela para que os órgãos competentes façam algo e também pede ao novo secretário de Infraestrutura, Renato Júnior, que faça uma obra ou preste socorro antes que vidas sejam perdidas. “Eu peço que ele [Renato Júnior] olhe pra [sic] gente e mostre o trabalho dele”, apelou Lugiane.

Alexsandro Monteiro, de 44 anos, mora na casa que está a cinco metros do que restou da rua. O sacrifício diário e o medo da situação torna o dia a dia cada vez mais complicado.

“Como pode ver, nossa situação é muito complicada, desde janeiro o barranco vai deslizando aos poucos. Eles [prefeitura] vem aqui, falam e não fazem nada, estamos até hoje esperando”, disse Alexsandro.

O homem relatou à equipe do Portal AM1 que a prefeitura havia prometido um auxílio aluguel, que haviam conversado com uma mulher para resolverem a situação, retornariam no mesmo dia, porém, choveu e as equipes da prefeitura foram embora.

“Até agora nada, estamos no desespero, estamos aguardando o procedimento deles, desde sábado, e até agora nada”, finalizou Alexsandro em tom de angústia.

O estudante Willian Monteiro, de 20 anos, também tem sua vida afetada, e com indignação afirmou que os órgãos competentes estão esperando uma tragédia acontecer para tomarem uma providência.

“A nossa casa está de frente ao abismo, não temos certeza se vamos viver ou não. Essa cratera abriu não faz um mês ou dois, faz cinco meses. Fizeram uma obra na rua de cima, e a galeria de água não suportou e causou o desmoronamento”, disse Willian sobre o motivo do desmoronamento.

Willian explicitou sua indignação, principalmente em relação ao aluguel social, que não coincide com o valor do mercado de aluguéis na região.

“Moramos aqui há 13 anos, a situação que está hoje, o aluguel mais barato que encontramos foi de R$ 500, ainda tem que pagar água e luz e a prefeitura quer dar um auxílio de R$ 300,00.

Ainda em tom de indignação, Willian sente que a família e os vizinhos estão abandonados pelo poder público, e afirmou que as contas e o IPTU chegam em dia, mas a ajuda não.

“Fica uma situação de abandono, na hora da votação eles vêm aqui, eles abraçam a gente e dizem que somos um povo e quando a gente exige os nossos direitos, eles não proporcionam. O IPTU chega, conta de água chega, conta de luz chega, eles estão esperando o quê? Eles querem esperar até alguma casa cair?”

O jovem continuou apelando para os órgãos competentes para que o Executivo municipal olhasse para a comunidade.

“A gente não tá [sic] pedindo favor, a gente tá pedindo que o poder público venha aqui e olhe por nós. Queremos que o prefeito olhe por nós.”

Consequências

O barro proveniente do barranco desliza com a água para a parte baixa do bairro e prejudica a vida dos moradores, o que fez com que alguns abandonassem suas casas pelas condições precárias e pela falta de auxílio do poder público.

Seu Francisco, artesão que mora no bairro há 11 anos, disse que após o desmoronamento do barranco, a vida dos moradores ficou pior – o que fez algumas famílias saírem de suas casas.

“A gente espera por uma solução, eles vêm e não dão satisfações. A tendência é piorar, enquanto não resolverem o problema do barro que vem lá de cima. Aqui embaixo, não tem como fazer nada, porque limpa e quando chove o barro vem de novo”, disse o artesão.

O morador ainda disse que o problema se deu por um desvio no sistema de drenagem na avenida Mirra, no mesmo bairro.

“Depois que canalizaram o esgoto da avenida Mirra, foi quando esse problema aconteceu, que aconteceu o desmoronamento lá em cima e o barro aqui embaixo”, disse Francisco.

A reportagem conseguiu falar com uma das moradoras que precisou abandonar sua casa, a dona Valda.

“Eu tive que me mudar, minha casa está alagada, minha cunhada está com a casa quase aterrada. Eles [prefeitura] têm que resolver a situação e não ficar somente no papel”, afirmou a dona Valda.

Outra moradora do bairro, que não quis ter seu nome divulgado, está na iminência de sair de sua residência, pois o barro está cada vez mais prejudicando a vida de sua família.

“A gente se sente triste e continua no sofrimento, a gente teve que botar saco no beco para andar e tivemos que construir pontes para passar por cima para as crianças irem pra [sic] escola”, disse a moradora.

“Minha vizinha, com filho pequeno, teve que abandonar a casa porque não tem condições de morar aqui. Todo dia a gente tem que cavar o barro e a areia para desentupir, não dá mais!”, afirmou.

Ainda em tom de desabafo, a comunitária desafiou os responsáveis pela pasta de infraestrutura para que eles pisem no barro, não só para se promoverem, mas para ajudar.

“É um desafio que eu dou pro [sic] secretário, vir aqui melar os pés, agora é a hora de melar os pés e ajudar o povo”, disse a moradora, suplicando para que haja uma intervenção no local.

Sem respostas

A equipe do AM1 entrou em contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) e com a Defesa Civil do Município, por meio da Casa Militar, e a resposta obtida para os procedimentos referentes ao barranco e as famílias da rua Pejuçara foi uma orientação de denúncia à Defesa Civil.

Print da Seminf referente ao barranco

Até a finalização da matéria, somente a Seminf enviou uma resposta e declarou em nota que “a denúncia primeiramente tem que ser destinada à Defesa Civil do município. Após o laudo técnico, a Seminf – em parceria com o órgão – entram com o projeto para execução do serviço.”

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