(Foto: Éder França/CMM)
Manaus (AM) – Em Manaus, a cena política se repete a cada ciclo eleitoral: vereadores recém-eleitos ou ainda em início de mandato já miram voos mais altos, deixando a Câmara Municipal (CMM) antes mesmo de concluir a missão dada pelo eleitorado. Para parte do eleitorado, a prática é vista como um desrespeito ao compromisso assumido nas urnas, já especialistas avaliam que, apesar da insatisfação de alguns, a ascensão para cargos mais altos costuma ser interpretada como um ganho coletivo.
A dona de casa Narita, por exemplo, não esconde a indignação diante dessa postura. Para ela, abandonar um mandato antes do fim é sinônimo de quebra de confiança.
“Não tem ética nenhuma. Como é que vai abandonar um mandato e começar outro? Eles querem abandonar o cargo justamente para ter um cargo superior ao de um vereador. Não é justo, porque não fez o que tinha que fazer no primeiro mandato, imagina num novo cargo. Não fez nada e agora vai fazer? Vai nada!”, criticou.
Opinião semelhante tem o vendedor Roderlan Coelho, que apontou o descaso com o eleitor.
“É um descaso com a população que colocou eles lá. Eles estão jogando a confiança que o povo colocou neles. Eu acho isso totalmente errado, porque eles são funcionários do povo, têm que honrar a palavra deles. Têm que ficar lá até o último dia do mandato”, afirmou.
Se a voz do eleitor carrega tom de frustração, entre cientistas políticos a avaliação ganha nuances mais amplas. O cientista político Afrânio Soares explicou que, quando a mudança de cargo resulta em vitória eleitoral, a leitura é outra.
“Se o parlamentar era vereador, tinha um mandato e estava agradando e ele foi eleito deputado estadual ou federal, não há nenhuma perda para o parlamentar, pelo contrário. Seus eleitores e até mesmo os que não eram seus eleitores veem como uma vitória”, diz.
Para Soares, casos de rejeição são minoria. “São raros, a meu ver, onde um deputado que antes era vereador, se elegeu deputado estadual ou federal, tenha sido hostilizado ou mal interpretado. Isso acontece algumas vezes, mas não tem força suficiente para prejudicá-lo se ele foi bem-sucedido”.
Já o sociólogo e cientista político Israel Pinheiro, lembrou que o abandono de mandatos é uma prática antiga no Brasil.
“A questão do abandono do cargo é uma prática já de longa data. Desde o início do século XX já temos casos como esse de governadores, senadores, vereadores que vão e voltam, com exceção do período da ditadura militar”, contextualiza.
Apesar da tradição, o especialista apontou o desconforto que a prática causa no eleitorado.
“É claro que isso não é visto com bons olhos, porque ao mesmo tempo que há o argumento de que o político vai fazer mais coisas ao assumir outro cargo, também existe a questão do trabalho inacabado. Não há legislação que proíba, mas eticamente você tem essas implicações”, ressalta.
Voto consciente
Para Pinheiro, a responsabilidade final recai sobre o eleitor. “É importante ter em mente que o eleitor tem que buscar avaliar em quem está votando. Porque, no fundo, isso tem a ver com aquela escolha consciente sobre os projetos que vão ser desenvolvidos e assinados por aquele sujeito político que vai exercer o cargo”.
Fato é que enquanto uns avaliam como traição ao voto e outros com um degrau natural da vida política, os vereadores seguem se articulando nos bastidores políticos para alcançar cargos que proporcionem mais poder.
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