Manaus, 6 de julho de 2026
×
Manaus, 6 de julho de 2026

A emergência silenciosa: vidas em crise e a falência ética do cuidado

Para a neuropsicóloga forense Dellany Cristine, é possível enxergar o rastro de falhas em tragédias que mal cabem nas páginas do noticiário, mas que clamam por uma reflexão ética e técnica urgente.

a-emergencia-silenciosa-vidas-

Por Dellany Cristine de Oliveira Veras*

A dor tem se tornado uma manchete silenciosa no Brasil. Não é a dor de um acidente de trânsito comum, mas a falência de um sistema que deveria nos proteger em nosso momento mais vulnerável: a crise da Saúde e aqui falaremos mais especificamente da saúde mental. Vemos o rastro dessas falhas em tragédias que mal cabem nas páginas do noticiário, mas que clamam por uma reflexão ética e técnica urgente.

Lembro-me do desespero da família do menino Benício com a notícia brutal: a criança, perdeu a vida por uma injeção errada de adrenalina, Benício recebeu 3 ml de adrenalina, dose usada apenas em pacientes de até 100 kg.

Uma fatalidade? Não. É a assinatura de um despreparo sistêmico. Quando um profissional de saúde, no calor de uma emergência, comete um erro primário de farmacologia, a culpa recai sobre a política pública que não o treinou, que não padronizou um Protocolo de Segurança de Saúde. A vida desta criança não foi perdida por uma doença, mas pela negligência técnica de quem deveria cuidar. Caso corrido em Manaus.

Outra cena que nos perturba aconteceu em São Paulo, na Vila Antônio Paulo, uma moça em crise suicida, que transformou sua dor em fúria autodestrutiva, ferindo policiais e bombeiros. Ali, no meio dos escombros, não estava só a tragédia de uma tentativa de suicídio, mas a ausência de um elo crucial: a equipe de saúde mental especializada para intervir antes que a situação chegasse ao ponto de explosão.

Nossas forças de segurança são heróis, mas não podemos exigir que saibam de tudo, para estes casos é imprescindível uma equipe de saúde psiquiátrica (psiquiátrica, psicólogo e enfermeiro), mas será que existem, essas equipes nas corporações? Você deve imaginar a resposta. As equipes de segurança precisam de treinamento em desescalada verbal e de um apoio imediato e articulado da saúde.

O Grito Silencioso da Anomia

Como neuropsicóloga forense, e com a lente da Sociologia e da Filosofia, vejo a mão de Durkheim nessa crise. Vivemos a anomia, a ausência de normas éticas e regulatórias fortes do Estado para o cuidado da mente.

Foucault diria que nossa sociedade, ao falhar no tratamento, apenas encontra novas formas de segregar e punir a “loucura”.

O que nos falta não é apenas dinheiro, mas ética e técnica.

O caminho para a mudança está em três pilares:

1. Treinamento Obrigatório e Intersetorial: É imperativo que hospitais, escolas e batalhões de polícia passem a ter os mesmos Protocolos de Segurança Psiquiátrica (PSP). Isso significa:

• Saúde: Domínio da farmacologia de emergência e manejo não-violento;
• Segurança: Técnicas avançadas de desescalada e reconhecimento de transtornos graves;
• Educação: Primeiros socorros psicológicos e rotas de encaminhamento rápido.

2. O Fim da Omissão Familiar: Ninguém pode ser curado isoladamente. As famílias precisam ser incluídas, treinadas e apoiadas. O suporte social, como nos ensina a Psicologia Social, é um fator protetivo. Que as redes públicas (CAPS) e privadas ofereçam essa base.

3. Um Olhar para o Norte: No Amazonas, a complexidade logística é imensa. O futuro exige a telemedicina e equipes de saúde mental itinerantes que levem o tratamento e a prevenção a comunidades ribeirinhas e indígenas, rompendo a barreira geográfica que agrava o isolamento.

O futuro do Brasil passa pela sanidade de seus cidadãos. Um futuro bom não será construído apenas com desenvolvimento econômico, mas com o compromisso ético de cuidar de cada mente. Não podemos mais tolerar que o sofrimento psíquico se torne uma sentença de morte por despreparo. O tempo da omissão acabou. O tempo do cuidado técnico e ético é agora.

(*) Neuropsicóloga forense

 

 

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Portal AM1.