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O calendário brasileiro impõe, anualmente, um fenômeno de descompressão social que desafia as fronteiras da homeostase psíquica. O Carnaval não é apenas um marco cultural; do ponto de vista da neurociência cognitiva, trata-se de um período de “hiperestimulação dopaminérgica” coletiva. Contudo, este ano, a folia se apresenta sob uma sombra densa: o aumento alarmante dos índices de feminicídio e a fragilidade das estruturas familiares, corroídas por conflitos que transbordam das telas para a realidade. Como, então, encontrar o equilíbrio entre a necessária busca pelo descanso e os perigos do excesso desmedido?
A Neurobiologia da Busca pelo Prazer
O sistema de recompensa do cérebro, mediado principalmente pelo núcleo accumbens, é projetado para buscar o prazer e evitar a dor. Durante o feriado, a oferta de reforçadores música em decibéis elevados, consumo de álcool e a promessa de interações sexuais sem compromisso, cria uma tempestade perfeita para a desinibição do córtex pré-frontal.
Esta região, responsável pelo julgamento crítico e controle de impulsos, é “desativada” pelo excesso de substâncias psicoativas. O resultado é a transição do comportamento planejado para o comportamento puramente impulsivo. Quando falamos em “farra e bebida”, estamos falando de uma redução drástica da percepção de risco, o que pode transformar a busca por paz em um gatilho para a violência e o arrependimento.
O Luto Coletivo e a Sombra do Feminicídio
Não podemos ignorar que chegamos a este Carnaval em um estado de alerta neuropsicológico. As notícias recorrentes de violência de gênero e famílias destruídas geram um fenômeno chamado estresse vicariante. Mesmo quem não é vítima direta sofre um impacto na amígdala cerebral, que mantém o sistema de “luta ou fuga” constantemente ativado.
A violência que vemos hoje é o subproduto de uma desregulação emocional sistêmica. No âmbito da psicologia forense, observamos que o “sexo sem compromisso” e a “folia extrema” são, muitas vezes, mecanismos de fuga (coping) para evitar o enfrentamento de dores existenciais profundas. O problema reside quando essa busca pelo “esquecimento” atropela o consentimento e a dignidade do outro, culminando em tragédias que o sistema judiciário, infelizmente, conhece tão bem.
A Arte de Filtrar: O Equilíbrio entre a Notícia e a Saúde Mental
Como neuropsicóloga, reforço que o cérebro possui uma capacidade limitada de processar tragédias antes de entrar em colapso por exaustão emocional. Para sobreviver ao fluxo de notícias negativas e ainda assim desfrutar do feriado, é preciso aplicar o que chamamos de Higiene Cognitiva:
Dose de Exposição: Informar-se é um dever cívico, mas o doomscrolling (rolar a tela infinitamente por notícias ruins) vicia o cérebro em cortisol. Estabeleça horários fixos para se atualizar e proteja seu período de descanso.
Seletividade Afetiva: Se a escolha for viajar para descansar, permita-se o desligamento digital. O cérebro precisa da “Rede de Modo Padrão” (DMN), um estado de repouso onde o pensamento divaga livremente, para consolidar a memória e restaurar a criatividade.
Atenção Plena na Folia: Se a escolha for a festa, mantenha o que a Terapia Cognitivo-Comportamental chama de “Monitoramento Ativo”. O prazer só é saudável quando há consciência. O excesso de álcool apaga a linha entre o desejo e a agressão.
O Descanso como Ato de Resistência
O verdadeiro equilíbrio não está na anulação da festa, nem no isolamento total, mas na intencionalidade do comportamento. Podemos celebrar a vida e a cultura sem nos tornarmos escravos de impulsos primitivos que levam à destruição do tecido social e familiar.
Neste Carnaval, convido o leitor a uma reflexão forense sobre si mesmo: suas escolhas de hoje são baseadas na busca por uma fuga temporária ou na construção de um bem-estar duradouro? Que a busca por paz seja maior do que a busca pelo excesso, e que o respeito à vida, especialmente à vida das mulheres, seja a premissa inegociável de qualquer folia.
O cérebro que descansa é um cérebro que decide melhor. E o Brasil precisa, mais do que nunca, de decisões pautadas na ética e na lucidez.
Por: Dellany Cristine de Oliveira Veras
Neuropsicóloga Forense
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