Manaus, 6 de julho de 2026
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O Paradoxo do Espectro: Entre a Inclusão Diagnóstica e a Precisão Científica

O conceito de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode estar sofrendo um "colapso" devido à sua excessiva abrangência.

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(Foto: Reprodução/Freepik)

Por Dellany Cristine de Oliveira Veras*

A ciência, em sua essência, é um organismo vivo, movido por revisões constantes e pelo desconforto da dúvida. Recentemente, a comunidade neurocientífica global foi impactada pelas declarações da Dra. Uta Frith, uma das pioneiras no estudo do autismo. Sua tese é contundente: o conceito de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode estar sofrendo um “colapso” devido à sua excessiva abrangência.

Como profissional que transita entre a análise rigorosa da neuropsicologia forense e a prática acolhedora da psicoterapia cognitivo-comportamental com o público autista, vejo-me diante de um dilema ético e técnico que precisamos enfrentar com coragem intelectual.

A Diluição do Denominador Comum

Ao longo das últimas décadas, celebramos a expansão dos critérios diagnósticos. Isso permitiu que milhares de adultos jovens, antes rotulados como “excêntricos” ou “ansiosos”, encontrassem no diagnóstico de TEA uma chave para a autocompreensão. No entanto, o alerta de Frith é sobre a heterogeneidade. Do ponto de vista da pesquisa biológica, colocar em um mesmo “cesto” diagnóstico indivíduos com altas habilidades e cognição preservada junto a indivíduos com deficiência intelectual severa e ausência de fala, pode gerar um ruído estatístico que impede a descoberta de biomarcadores e tratamentos específicos.

O Impacto na Alocação de Suporte

Sob a ótica das diretrizes do Conselho Federal de Psicologia (CFP), nosso compromisso é com a promoção da saúde e a justiça social. Aqui reside o perigo da “diluição”: se o espectro é vasto demais, as políticas públicas correm o risco de tratar necessidades distintas como se fossem homogêneas. O autista que necessita de suporte 24 horas para funções vitais pode acabar competindo por visibilidade e recursos com o autista de nível 1 que busca adaptações laborais. Ambos precisam de direito, mas a natureza de suas demandas é ontologicamente diferente.

Subdividir é Retroceder ou Avançar?

A proposta de retornar a subgrupos  (como a antiga distinção da Síndrome de Asperger ou o Autismo Infantil Clássico), não deve ser vista meramente como um retrocesso nostálgico. Deve ser encarada como uma busca por categorias biologicamente homogêneas. Na clínica, a precisão do diagnóstico norteia a eficácia da intervenção. Na área forense, a clareza categórica é fundamental para a determinação de capacidades e responsabilidades.

Uma Provocação Necessária

Estamos sacrificando a utilidade científica em nome de uma identidade social? Ou a identidade social é, por si só, um ganho terapêutico tão grande que compensa o ruído na pesquisa?

Minha posição, enquanto estudiosa da neurociência, é que não podemos permitir que o diagnóstico se torne um “termo guarda-chuva” tão grande que deixe de proteger quem está debaixo dele. Precisamos de um sistema que honre a neurodiversidade sem abrir mão do rigor clínico. O diagnóstico deve servir ao paciente, e não o contrário.

Convido os leitores, colegas de profissão e as famílias a se posicionarem: estamos prontos para uma nova fragmentação do espectro em prol da ciência, ou a união sob uma única bandeira é nossa maior conquista? A atualização é urgente; o silêncio, nesse caso, é um retrocesso.

(*) Neuropsicóloga Forense e Psicoterapeuta Cognitivo-Comportamental

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